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AtualizaçõesFormatura celebra alfabetização de 500 jovens e adultos no RN

Formatura celebra alfabetização de 500 jovens e adultos no RN

“O nosso sonho é que o Rio Grande do Norte, o Nordeste e o Brasil sejam territórios livres de analfabetismo. Sim, eu posso! Sim, nós podemos!”. Essa fala potente e esperançosa abriu, neste sábado (17), a solenidade de formatura da Jornada de Alfabetização de Jovens e Adultos nas Periferias do Rio Grande do Norte.

Realizado no Espaço Cultural Ruy Pereira, o evento marcou a entrega de certificados, finalizando um ciclo educativo de três meses que formou, por meio do método cubano “Sim, eu posso”, cerca de 500 jovens e adultos que não sabiam ler e escrever ou que enfrentavam dificuldades na leitura e na escrita em comunidades urbanas de Natal, Parnamirim, Mossoró e São Gonçalo do Amarante.

“A gente entende que o direito à educação, por diversas razões, foi negado a essas pessoas. O projeto vem no sentido de garantir que todo mundo saiba ler e escrever. Quem deseja aprender deve ter essa oportunidade”, afirma Rianna de Carvalho, articuladora local do projeto.

A iniciativa de alfabetização, também realizada de forma piloto em outros 10 estados brasileiros, se deu por meio de uma grande rede articulada que envolve o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação (MEC), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da UFPE (FADE) e a campanha Mãos Solidárias, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em conjunto com outros movimentos populares.

A coordenadora do projeto na Zona Leste de Natal, Hortência Rodrigues, declarou, emocionada, que “a formatura é um momento histórico na vida de cada um”. Para ela, o evento teve um sentido especial:

Esse projeto tem um significado muito bonito na minha vida, porque a minha mãe e o meu pai foram alfabetizados por meio dele. Então, assim como os meus pais puderam e podem, vocês também”, declarou.

Segundo Hortência, os educadores que estiveram à frente das 61 turmas que concluíram o processo não ensinaram apenas sobre letras e números, mas sobre a leitura do mundo.

O método “Sim, eu posso”, de alfabetização de jovens e adultos, é baseado na associação entre os alfabetos e os números, considerando o conhecimento já adquirido pelos educandos. Em cada aula é apresentada uma letra do alfabeto por meio de um vídeo que também aborda e problematiza temas do cotidiano dos alunos, promovendo o debate crítico sobre a realidade.

As aulas foram mediadas por educadores populares, pessoas com diversas formações que passaram por um processo de capacitação para alfabetizar. Os educadores selecionados formaram turmas em seus próprios bairros, promovendo um forte vínculo comunitário.

Em seu discurso, Hortênsia Rodrigues ainda afirmou o desejo de continuidade da articulação e das relações de solidariedade constituídas durante o processo.

“Que a gente possa seguir juntos e juntas trilhando o caminho do saber. Ninguém solta a mão de ninguém”, enfatizou.

Coordenador do projeto na Zona Norte de Natal, Veridiano Dantas resgatou o significado simbólico do documento que cada educando recebeu naquela data.

Saber ler e escrever é uma ferramenta muito poderosa. Cada certificado entregue representa uma pessoa que está inserida em uma família, em uma realidade, em um território que vai ser transformado pelo que ela aprendeu. E o conhecimento é algo que fica com a gente para sempre”, disse.

Na solenidade, o educando Denilton de Assis da Silva, 52 anos, foi um dos convidados para ler a carta apresentada à sua turma no último dia de aula do projeto. Ele escreveu uma mensagem inspiradora sobre o sentido do Natal.

“Natal é o nascimento de Cristo, nosso mediador, relator da paz e da comunhão, porque não aceitou as condições em que vive o ser humano em situações desfavoráveis. É um dia de confraternização, um dia de aconchego, de perdão e de grande harmonia. Nesta data devemos nos apegar ao amor, à compreensão, à harmonia, ou seja, à confraternização. Essa é a palavra. Dessa forma, poderemos nos associar e nos encontrar em nossas diferenças, sejamos um todo.”

Ao apresentar o educando, o educador popular Veridiano declarou:

Denilton é um artista que, lá atrás, não teve oportunidade de conseguir chegar onde queria. Ele entrou no projeto sabendo ler um pouco e reavivou esse processo da alfabetização e da força do conhecimento”, contou.

Hoje, o educando sonha alto, em passar em um concurso público para melhorar de vida.

Denilton enfatiza que “o ensino público ainda é a base da estrutura para você se transformar”. Morador do Conjunto Habitacional Parque dos Coqueiros, no bairro de Nossa Senhora da Apresentação, Zona Norte de Natal, ele não só frequentava as aulas, como mobilizava as pessoas do seu território a participarem e a se manterem firmes no projeto.

“Foi dificultoso resgatar essas pessoas que precisavam realmente do projeto. E nós estávamos lá para enfatizar a importância, botar para frente. A gente não deixou ninguém para trás e estamos aqui até agora, finalizando o projeto”, disse.

Essa rede de solidariedade entre os integrantes do projeto é destacada por Rianna de Carvalho.

“Enfrentamos muitas dificuldades nesse processo, principalmente em relação a transporte e alimentação. Mas, em cada turma, se constituiu um movimento orgânico de solidariedade: eles se ajudavam, organizavam lanches, colaboravam uns com os outros. Em muitas turmas, eles fizeram atividades extras, como hortas, oficinas de artesanato e de reciclagem. Nosso lema se tornou ‘o povo organizando o povo’”, afirma.

Rianna destaca também que, durante as aulas, os educadores e coordenadores se depararam com uma série de questões.

“Percebemos que muitos alunos não conseguiam ler e escrever por problemas de visão, por falta de acesso à saúde também. Durante as aulas apareceram ainda temas muito delicados, diversas negações de direitos”, afirma.

Maria Rebeka Siqueira Viana Silva, educadora nos bairros da Ribeira e das Rocas, na Zona Leste de Natal, é também bacharela em Direito e acabou prestando serviço de assessoria jurídica aos seus educandos, porque durante as aulas apareceram depoimentos de violência doméstica e de trabalho análogo à escravidão.

Para ela, “o projeto foi transformador. Foi algo extraordinário ver alguém chegar sem saber o que é uma consoante e sair assinando o próprio nome, formando as primeiras palavras. Foi muito bonito ver a evolução e as conquistas deles a cada dia, como quando eles chegavam dizendo que conseguiram fazer uma leitura”.

O chamado

Luan Alves Gondim, o Cumpadi Caboco, coordenador do projeto em Mossoró, conta que, quando foi convidado para participar do projeto, entendeu aquilo como um chamado, devido ao seu histórico familiar.

“Minha mãe abandonou os estudos assim que eu nasci. Ela teve mais dois filhos e se dedicou a cuidar da gente. Meu pai trabalhava, tentando manter todo mundo, e a gente dava trabalho em casa. Quando completei 14 anos e já conseguia fazer algumas tarefas domésticas, me virar com comida, limpeza e roupa, minha mãe decidiu voltar a estudar: terminou o ensino fundamental, o ensino médio e se formou em Pedagogia”, narra o educador popular.

Cumpadi Caboco lembra que o retorno da sua mãe aos estudos gerou muita briga em casa, porque seu pai tinha ciúmes, mas ela perseverou e seu exemplo marcou sua vida. “Minha mãe nunca disse: ‘olhe, estou me formando para vocês se formarem, estou estudando para vocês estudarem’. Nunca foi preciso ela dizer isso de nenhuma forma, mas eu entendi que ela queria dizer que, de alguma forma, estudar era importante”, declara.

Ele compreendeu que esse processo de aprendizagem se dá em vários espaços. “Entendi que estudar é importante, seja estudar numa escola, numa faculdade, estudar em casa com os livros, estudar assistindo também a documentários e filmes, estudar entre os amigos numa roda de conversa em casa com café e bolacha, que também é uma forma de aprender.”

O sonho continua

A educadora popular Conceição Beckman, graduada em Letras, atuou em seu bairro, em Emaús, Parnamirim, e apresentou com orgulho sua aluna:

“Venha conhecer Maria de Lourdes. Ela chegou até nós sem conhecer o mundo das letras e já fez grandes avanços, está escrevendo palavras curtas”, falou animada.

Maria de Lourdes Pereira dos Santos, de 60 anos, não teve oportunidade de frequentar os bancos escolares.

“Minha mãe faleceu quando eu tinha 9 anos, e meu pai não ligava para isso. Nós éramos cinco crianças, e meu pai saía para trabalhar, enquanto eu e minhas irmãs cuidávamos da casa e dos mais novos. Aí, nisso, a gente ficou sem aula.”

“Tinha muita vontade, mas nunca fui à aula. Tive a oportunidade agora com o ‘Sim, eu posso’ e estou muito feliz. Estou juntando as letras. Não sei ler bem ainda, mas vou aprender. A professora Conceição vai continuar me acompanhando e meu esposo também disse que ia me dar uma força. E eu vou chegar lá, se Deus quiser.”

Solidariedade

Segundo Erica Rodrigues, dirigente do MST no Rio Grande do Norte, a solidariedade está presente desde o nascedouro do projeto, pois o governo de Cuba, por meio do Instituto Pedagógico Latino-Americano e Caribenho (IPLAC), desenvolveu o método de alfabetização “Sim, eu posso” (Yo, Sí Puedo) e o doou ao MST e a outras organizações populares da América Latina e do Caribe.

O Mãos Solidárias, programa que executa a Jornada de Alfabetização de Jovens e Adultos nas Periferias e outros projetos, também é uma ação de solidariedade da organização para as populações urbanas, voltada ao enfrentamento das desigualdades sociais.

Fonte: saibamais.jor.br

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