spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
AtualizaçõesCrimes da ditadura não prescrevem, diz OAB-PE; caso Glênio Sá pode ser...

Crimes da ditadura não prescrevem, diz OAB-PE; caso Glênio Sá pode ser revisto

A aprovação, pela Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), de um parecer jurídico que afirma a não incidência de prescrição sobre crimes permanentes cometidos durante a ditadura civil-militar reacende o debate sobre a responsabilidade do Estado brasileiro por violações que permanecem sem esclarecimento e reparação. Entre os casos diretamente alcançados por essa interpretação está o do militante potiguar Glênio Fernandes de Sá, perseguido, preso e torturado pelo regime, cuja morte, ocorrida em 1990, teve as circunstâncias oficialmente registradas como acidentais, mas é contestada por seus familiares.

O documento, elaborado por comissões da OAB-PE e encaminhado ao Conselho Federal da entidade e à Advocacia-Geral da União (AGU), sustenta que crimes como desaparecimento forçado, tortura, sequestro e ocultação de cadáver possuem natureza permanente, pois se prolongam no tempo enquanto não houver verdade, responsabilização e reparação. A tese confronta decisões administrativas que vêm indeferindo pedidos de reconhecimento e indenização sob o argumento de prescrição.

Companheira de Glênio, Fátima Sá afirma que a tese da prescrição sempre representou um novo ciclo de violência institucional. “Quando o Estado diz que o tempo passou, ele está dizendo que a dor também deveria ter passado. Mas como pode passar se a verdade nunca foi entregue por inteiro e se a responsabilidade nunca foi assumida?”, questiona.

Para o filho Gilson Sá, o parecer da OAB-PE fortalece a luta das famílias por reconhecimento e justiça. “Não se trata de revanchismo, mas de direito. Direito à verdade, à memória e à reparação. Enquanto o Estado não responde por esses crimes, eles continuam acontecendo na vida das famílias”, afirma.

Para a jornalista Jana Sá, filha caçula de Glênio e presidenta do Comitê Estadual de Memória, Verdade e Justiça do Rio Grande do Norte, a posição da OAB-PE tem alcance coletivo. “O caso do meu pai dialoga com o de centenas de outras pessoas que foram perseguidas e mortas por uma política de Estado. A tese de que não há prescrição afirma que a democracia brasileira ainda tem uma dívida aberta com essas vítimas e com a sociedade”, diz. “Não se trata apenas de reparação individual, mas de justiça histórica e de romper com o pacto de silêncio que atravessou a transição política.”

Jana avalia ainda que a interpretação jurídica apresentada no parecer converge com as obrigações internacionais assumidas pelo Brasil e evidencia as lacunas deixadas pela transição democrática. “Enquanto arquivos permanecem fechados, as instituições que participaram da repressão não foram reformadas, os agentes violadores nunca foram responsabilizados e persiste uma interpretação distorcida da Lei da Anistia de 1979, o Estado segue negando verdade e justiça. Nessas condições, a violação não se encerra no passado: ela continua no presente, o que caracteriza o crime permanente”, afirma.

Quem foi Glênio Sá

Militante comunista, preso político, torturado e sobrevivente da Guerrilha do Araguaia, Glênio Fernandes de Sá seguiu sob vigilância e perseguição mesmo após o fim formal da ditadura. Documentos do próprio Estado brasileiro indicam que ele continuou monitorado até o ano de sua morte, em 1990. A versão oficial registra o óbito como decorrente de um acidente, mas a família contesta essa narrativa, com base em registros da repressão e em depoimentos como o do ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra, que revelou a continuidade de execuções políticas após a chamada abertura.

Para seus familiares, a morte de Glênio foi forjada e constitui uma execução política, expressão de estruturas repressivas que permaneceram ativas no período pós-ditadura. A luta pelo reconhecimento de seu nome entre os mortos e mortas do regime integra a busca por justiça de transição e reparação coletiva.

Leia também:

Família pede acesso a inquérito policial sobre morte de Glênio Sá

Família de Glênio Sá pede reconhecimento de que morte dele foi assassinato político

Quem mandou matar Glênio Sá ?

Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Projeto que cria órgão contra tortura no RN está parado há 3 anos na ALRN

Projeto de autoria do Governo do Estado, a proposta...

PDT anuncia que Rafael Motta será o candidato do partido ao Senado pelo RN

O PDT do Rio Grande do Norte anunciou que...

Casos de monkeypox voltam a aparecer no RN; Sesap reforça orientações

A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio...

Cadu rebate com dados mentira de Álvaro Dias sobre segurança pública no RN

O ex-prefeito de Natal e pré-candidato ao Governo do...

Lukas Medeiros celebra lançamento de segundo livro com debate e música

“Esse livro nasce de uma vontade de explorar narrativas...

Após dizer que estava concluída, Prefeitura anuncia drenagem em Ponta Negra

O secretário de Planejamento da Prefeitura de Natal, Vagner...

Meu prezado rapaz, você vai mal, mas vai mal demais!

Nas bolhas das redes sociais, um dos assuntos dos...

RN terá usina de hidrogênio verde com investimento de R$ 12 bilhões

O Rio Grande do Norte vai implantar uma usina...

Acusações entre Carla e Nina expõem “fogo amigo” na direita do RN

O “fogo amigo” no PL do Rio Grande do...