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AtualizaçõesIntolerância religiosa ainda atinge terreiros e expõe racismo no RN

Intolerância religiosa ainda atinge terreiros e expõe racismo no RN

Em pleno século XXI, a intolerância religiosa segue sendo uma realidade para os povos de terreiro no Rio Grande do Norte. A avaliação é do babalorixá Bàbà Melqui de Xangô, sacerdote do Ilê Axé Dajô Obá Ogodô, casa religiosa afro-brasileira de nação keto localizada em Extremoz, na Grande Natal. Segundo ele, reconhecido como um “Griô”, guardião da tradição oral, os episódios de violência, perseguição e racismo religioso continuam frequentes, sobretudo nas periferias e no interior do estado.

“O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa é um marco que nos leva a compreender que ainda existem grupos religiosos que nos caçam como na Idade Média se caçava as ditas bruxas”, afirmou o líder religioso ao comentar o simbolismo do 21 de janeiro, data dedicada à conscientização e à resistência.

De acordo com Bàbà Melqui, os ataques aos terreiros persistem e nem sempre encontram resposta adequada do poder público. “Sempre temos notícias sobre intolerância, principalmente nas periferias, onde estão mais de 90% dos terreiros, e no interior, onde é ainda mais difícil recorrer às autoridades”, relatou.

Ele defende que os espaços de matriz africana sejam reconhecidos e protegidos como templos religiosos. “Há violência contra nossos espaços sagrados e ações de perseguição, realizadas até pela polícia. Isso revela um racismo religioso estrutural”, pontuou.

Apesar do cenário adverso, o babalorixá reconhece avanços recentes na articulação com o Estado. Segundo ele, projeto desenvolvido em parceria com a Secretaria de Segurança Pública que tem promovido diálogo com as forças policiais representa um passo importante. “Já existem palestras entre povos de terreiro e o comando da polícia. Vejo uma grande perspectiva de avanço com essa política de segurança”, afirmou.

Para o líder religioso, a educação é um dos principais caminhos para enfrentar a intolerância. “O preconceito é um conceito pré-formado sem conhecimento. Quando não se conhece a religião do outro, como criticar, invisibilizar ou oprimir?”, questiona. Ele defende a formação de professores e formadores de opinião para trabalhar o respeito à diversidade religiosa desde cedo.

Bàbà Melqui também destaca a atuação do Fórum de Diálogo Inter-religioso do Rio Grande do Norte, que reúne diferentes tradições no enfrentamento conjunto ao preconceito. “São várias denominações cristãs, povos tradicionais e outras religiões articuladas de forma legítima. Infelizmente, ainda não vemos as grandes igrejas atuando mais diretamente conosco nesse combate”, observou.

Na avaliação do babalorixá, a intolerância não nasce da fé, mas da sua distorção. “O intolerante não é religioso. Ele ocupa esse espaço para perseguir e oprimir o sagrado do outro. O verdadeiro religioso reconhece e respeita o sagrado alheio”, afirmou.

A mobilização sobre o tema ganhou visibilidade na última terça-feira (21), durante a III Celebração Inter-religiosa, realizada na Praça Pedro Velho, a Praça Cívica, em Natal. Promovido pelo Fórum de Diálogo Inter-religioso do RN, o ato reuniu povos de terreiro, lideranças cristãs e representantes de diferentes tradições em um encontro marcado por orações, cantos e manifestações em defesa da liberdade religiosa. A proposta foi ocupar o espaço público como gesto simbólico de resistência, memória e compromisso com o respeito à diversidade de fé.

Para Bàbà Melqui, a mudança passa pela formação de uma cultura de respeito. “Creio em um Deus misericordioso, que traz paz e amor. Quando a sociedade compreender que diante de Deus somos todos irmãos, viveremos em uma grande família humana”, concluiu.

Cenário nacional

A realidade potiguar reflete um problema de alcance nacional. Levantamento divulgado em novembro de 2025 pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) mostra que 76% dos terreiros no Brasil já sofreram algum tipo de racismo religioso, enquanto 80% dos integrantes dessas comunidades relataram discriminação direta.

Nos últimos dois anos, metade dos terreiros sofreu entre um e cinco episódios de agressão, e 7% registraram mais de dez ocorrências. Mesmo assim, apenas 26% dos casos foram formalizados por meio de boletim de ocorrência, o que revela forte subnotificação.

O estudo também aponta que 52% dos terreiros sofreram ataques no ambiente virtual e que 74% já foram ameaçados ou tiveram seus espaços destruídos. O acesso aos canais de denúncia ainda é limitado: 45% não conhecem o funcionamento do Disque 100 e apenas 12% recorreram ao serviço.

Como denunciar?

O Disque 100 é um dos principais canais de denúncia para violações de direitos humanos. Além da ligação telefônica, o serviço oferece atendimento via WhatsApp (61) 99611-0100, Telegram (buscando por “direitoshumanosbrasil”), videochamada em Libras e pelo site da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.

Em situação de intolerância religiosa, é fundamental realizar a denúncia, uma vez que a Lei 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível, com penas de dois a cinco anos de prisão e multa para quem impedir ou empregar violência contra manifestações religiosas.

Fonte: saibamais.jor.br

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