spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
Atualizaçõesa criminalização da luta por moradia no RN

a criminalização da luta por moradia no RN

A derrubada, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, do veto da governadora Fátima Bezerra ao Projeto de Lei nº 53/2024 marca um dos mais graves retrocessos democráticos recentes no estado. O que se aprovou não é apenas uma lei. É a institucionalização da punição à pobreza. É a tentativa explícita de transformar em infração administrativa aquilo que a Constituição reconhece como direito fundamental: a moradia, e, portanto, a legitimidade de lutar por ela quando o Estado a nega.

Ao vetar o projeto, a governadora apontou o óbvio jurídico: trata-se de uma norma flagrantemente inconstitucional. Ainda assim, a maioria dos deputados decidiu avançar na construção de um arcabouço legal que, na prática, criminaliza movimentos sociais e famílias que ocupam imóveis ociosos para sobreviver.

A partir de agora, no Rio Grande do Norte, quem participa de ocupações urbanas poderá sofrer sanções administrativas antes mesmo de qualquer julgamento. Entre elas: perda de acesso a programas sociais estaduais; impedimento de inscrição em programas habitacionais; e até a proibição de tomar posse em cargos públicos conquistados por concurso. Ou seja: o Estado passa a usar a fome, o desemprego e a exclusão como instrumentos de coerção política.

É a lógica perversa da punição por ser pobre. Castiga-se por não aceitar a rua como destino. Castiga-se por ousar reivindicar um direito constitucional.

Do ponto de vista jurídico, o absurdo é ainda maior. A Constituição é clara ao afirmar que somente a União pode legislar sobre direito penal. Estados não podem criar, ainda que disfarçadas de “sanções administrativas”, punições que tenham natureza penal e efeito de estigmatização social. Além disso, o texto constitucional estabelece que a propriedade deve cumprir função social. Um imóvel vazio em meio a milhares de famílias sem teto não é expressão de direito, é expressão de privilégio.

O que essa lei faz é inverter completamente a lógica constitucional: protege-se o abandono, pune-se a necessidade. Defende-se o patrimônio improdutivo, criminaliza-se a sobrevivência. Em vez de enfrentar o déficit habitacional, a especulação imobiliária e a existência de milhares de imóveis ociosos em Natal e no interior, opta-se por perseguir quem luta para morar.

Não é coincidência. É escolha política. A elite potiguar prefere punir o pobre a enfrentar a pobreza. Prefere silenciar os movimentos sociais a enfrentar os interesses do mercado imobiliário. Prefere criminalizar a ocupação a cumprir a Constituição.

A história brasileira ensina aonde isso leva. Sempre que a ordem jurídica foi usada para sufocar os que lutam por direitos, abriu-se caminho para o autoritarismo. A criminalização da luta por moradia dialoga diretamente com a tradição de repressão aos trabalhadores, aos camponeses, aos sem-teto, aos sem-terra, aos que ousam dizer que a dignidade não é mercadoria.

No Rio Grande do Norte, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) constrói, há mais de 20 anos, uma trajetória legítima de defesa do direito à moradia. Mais de mil famílias já conquistaram teto, cidadania e dignidade por meio dessa organização. Não se trata de “invasão”, mas de resistência. Não se trata de crime, mas de afirmação de direitos.

“Enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito.” A frase não é slogan vazio. É síntese de uma realidade social brutal: num país marcado pela desigualdade estrutural, a ocupação é, muitas vezes, a única forma concreta de acessar um direito que o Estado historicamente negou.

Derrubar o veto e sancionar essa lei é declarar guerra aos pobres. É dizer, sem rodeios, que no Rio Grande do Norte lutar por direitos pode custar comida, teto e trabalho. É transformar políticas públicas em instrumentos de chantagem social. É institucionalizar o medo.

Mas a história também ensina outra coisa: direitos nunca foram concedidos sem luta. Eles sempre foram conquistados contra a resistência das elites. A criminalização de hoje é a prova de que a luta é necessária. E de que ela incomoda.

A luta por moradia não será silenciada por leis injustas. Não será intimidada por sanções ilegais. Não será apagada por decretos que tentam transformar necessidade em delito.

Enquanto houver imóveis abandonados e famílias nas ruas, haverá ocupação. Haverá organização. Haverá resistência.

Porque lutar não é crime. Crime é transformar a pobreza em alvo do Estado. Crime é usar a lei para proteger privilégios e punir a dignidade. Crime é rasgar a Constituição em nome da propriedade sem função social.

E contra isso, não há neutralidade possível. Ou se está do lado do direito à vida digna, ou se está do lado da criminalização dos que lutam para sobreviver.

Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Paulinho veta projeto que estabelecia obrigatoriedade de bibliotecas em escolas

O prefeito de Natal, Paulinho Freire (União), vetou integralmente...

RN tem 172 espécies ameaçadas de extinção

Há 172 espécies da fauna silvestre nativa ameaçadas de...

Fátima reage ao rompimento de Walter e rebate narrativa de crise no RN

A governadora Fátima Bezerra (PT) afirmou, em entrevista concedida...

Com privatizações no RN, redução no preço da gasolina pode não chegar ao consumidor

Apesar do anúncio da Petrobras de redução do preço...

Nordeste foi a região que mais matou pessoas trans em 2025; RN não teve casos

Mesmo com a queda no número de assassinatos, o...

Partidos que apoiam Allyson para governador o defendem após operação da PF

Quatro partidos que formam o arco de aliança do...

filme visita a memória urbana da cidade

A cidade de Mossoró ganha um novo registro audiovisual...

Prefeitura de Natal na gestão de Álvaro Dias é condenada a indenizar arqueóloga

A Prefeitura do Natal, na gestão do ex-prefeito de...

Oposição articula CEI para investigar gestão Allyson em Mossoró

A oposição na Câmara Municipal de Mossoró anunciou na...