spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
AtualizaçõesMaryana Damasceno reposiciona o cordel nas redes sociais

Maryana Damasceno reposiciona o cordel nas redes sociais

Lívia Cirne, Natal – RN

Entrar com o pé direito / Entrar com os pés no chão / Meter os dois pés na porta / Pra seguir com mais ação / E desejo pra vocês / Um dois mil e vinte seis / Com mais interpretação. Os versos abrem um dos cordéis mais compartilhados de Maryana Damasceno no Instagram e ajudam a compreender como seu trabalho vem extrapolando as fronteiras da literatura popular no ambiente digital. O texto dialoga diretamente com a polêmica envolvendo a campanha de fim de ano 2025-2026 da marca Havaianas, estrelada pela atriz Fernanda Torres. A peça publicitária provocou intenso debate nas redes sociais e resultou em pedidos de boicote por parte de apoiadores da direita, que interpretaram a frase dita pela atriz, “não comece com o pé direito”, como um suposto posicionamento político favorável à esquerda.

O cordel se encerra com versos igualmente incisivos. E aos extremos da direita / Venham cá pra aprender / Um tal Copérnico disse / Para quem quiser saber / Que a terra, meu rouxinol, / Gira em torno do sol / Não em torno de você. A publicação ultrapassou 5,3 milhões de visualizações, soma mais de 18,5 mil comentários e já foi repostada mais de 28,5 mil vezes. Números que poderiam parecer comuns quando comparados a conteúdos baseados em coreografias ou entretenimento imediato, mas que ganham outra dimensão ao se tratar da circulação de um cordel autoral, atravessado por acidez política e debate social consistente, sem recorrer a palavras difíceis ou afastamento do público. Popular no sentido mais rigoroso do termo, o texto dialoga com o cotidiano e com o momento político do país, reafirmando que o cordel, mesmo no feed, segue sendo ferramenta de leitura crítica do presente.

Jornalista, poeta, cordelista, escritora e produtora de conteúdo, Maryana Damasceno construiu uma presença digital que escapa do caminho mais previsível. Em vez de adaptar a tradição ao formato superficial das redes, levou para o centro da tela uma das manifestações mais antigas e simbólicas da cultura nordestina: a literatura de cordel. O encontro entre tradição e contemporaneidade tem rendido mais de 120 mil seguidores no Instagram e alguns vídeos que ultrapassam a marca de um milhão de visualizações. Seus conteúdos misturam versos autorais, crítica política, observação social e humor preciso. O cordel aparece como linguagem viva, capaz de falar sobre machismo, desigualdade, identidade nordestina, apagamentos históricos e disputas simbólicas que atravessam o Brasil contemporâneo.

Nascida em Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas, e radicada em Natal há mais de cinco anos, Maryana carrega no corpo e na voz as marcas dos territórios por onde circula. Viveu mais de uma década em Maceió, passou quatro anos no Recife, mantém vínculos familiares em João Pessoa e construiu afetos em diferentes estados do Nordeste. Essa experiência múltipla atravessa o conteúdo que produz. O Nordeste não aparece como ideia abstrata ou caricata, mas como vivência concreta, feita de costumes, contradições, artistas, conflitos sociais e potências culturais.

Sua relação com o cordel é afetiva e cotidiana. Foi aprendida no convívio familiar, especialmente com a tia cordelista, mas também aprofundada por meio do estudo, como uma pós-graduação em Escrita Criativa, e da prática constante da oralidade. Essa trajetória se consolidou a ponto de, em 2024, Maryana assumir a cadeira 44 da Academia Alagoana de Literatura de Cordel, espaço tradicional que reconhece sua atuação e sua contribuição para a continuidade da manifestação.

Literatura de cordel como linguagem política

A literatura de cordel surgiu como forma popular de narrar acontecimentos, criticar autoridades, contar histórias fantásticas e registrar o cotidiano do povo nordestino. Durante décadas, resistiu sobretudo nas feiras livres e por meio de esforços individuais, quase sempre protagonizados por homens. A presença feminina existiu, mas foi historicamente invisibilizada. Muitas mulheres foram impedidas de circular com legitimidade suas produções artísticas e, em não poucos casos, obrigadas a ceder seus textos para que fossem assinados por autores masculinos. A autoria feminina foi silenciada não por falta de produção, mas por uma estrutura que negava às mulheres o direito à palavra pública. Com o avanço dos meios de comunicação de massa e, posteriormente, da digitalização, o cordel perdeu espaço nos grandes fluxos de circulação, ainda que movimentos de resistência tenham mantido a tradição viva.

É justamente tensionando esse percurso que o trabalho de Maryana se destaca. A partir da pandemia e do isolamento social, ela identificou no ambiente digital uma possibilidade concreta de expansão da literatura popular. O Instagram tornou-se, em suas mãos, uma nova praça pública. Um espaço onde o cordel reaparece sem folhetos, cordões ou pregadores, mas alcança públicos diversos e novas camadas de leitura. Não se trata de abandonar o passado, mas de deslocá-lo, adaptá-lo e colocá-lo em diálogo com o presente e com as disputas que atravessam o tempo atual.

Sem recorrer a performances caricatas, Maryana aposta em um conteúdo marcado por posicionamentos claros e leitura atenta do contexto social. Em meio a tantos perfis que se medem apenas pelo número de seguidores, sua relevância se sustenta na densidade das discussões que propõe. Seus vídeos assumem escolhas, provocam os consensos e recusam neutralidades. Em um cordel sobre a barbárie da invasão antidemocrática de 8 de janeiro, declama: Lembremos da covardia / De um movimento hostil / Dos ataques violentos / Criminosos ao Brasil / Mas eu digo: quem diria / A nossa democracia / Balançou mas não caiu.

Entre os conteúdos mais virais do perfil @maryanadamasceno estão textos que dialogam diretamente com pautas de relevância social e política, em sintonia com debates que dominam o espaço público. São cordéis que abordam desigualdade, conservadorismo, preconceito, direitos das mulheres, identidades nordestinas e disputas narrativas em momentos de forte polarização política. Em outro exemplo, ao comentar o pedido de prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, após tentar violar a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, Maryana recorre à ironia para apresentar o fato político: A musiquinha tocou / Na vinheta do plantão / A PF já chegou / Pra levar o capitão / Tudo certo, sem impulso / E de soluço em soluço / Chegamos na solução (…) Um curso de soldador / Faltou para o capitão / Mas siga se esforçando / Pois trago em primeira mão / Se quiser estudar mais / Dá para fazer Senai / Estudando da prisão.

O engajamento elevado não se explica apenas pela forma rimada ou pelo humor, mas pela capacidade de leitura do presente e pela escolha deliberada de não se omitir. Em um ambiente digital marcado por polarizações constantes, Maryana utiliza o cordel como ferramenta de intervenção, reafirmando a literatura popular como meio legítimo de posicionamento e crítica social.

Embora o cordel seja o eixo central de sua produção, o perfil também reúne dicas de leitura, indicações de obras audiovisuais, homenagens a artistas nordestinos e experimentações criativas, como a inserção de versos autorais em músicas conhecidas. Ao levar o cordel para o ambiente digital, Maryana Damasceno não apenas amplia o alcance da literatura popular nordestina. Ela reafirma o caráter político, transgressor e contemporâneo do gênero, que, historicamente, sempre se afirmou desse jeito. Mostra que tradição não é sinônimo de passado imutável, mas de permanência reinventada. Em tempos de excesso de influenciadores nas plataformas de conteúdo, sua produção aponta para outra lógica. A da palavra que permanece, da rima que provoca e da cultura que se recusa a caber em moldes estreitos.



Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

o #MeGuia traz as atrações culturais de 05 a 09/02

Entre quinta-feira, 5, e segunda-feira, 9 de fevereiro, Natal...

Especulações sobre eleição indireta crescem, mas governo mantém aposta em Cadu Xavier

Apesar do crescimento dos rumores sobre uma suposta desistência...

RN confirma 175 vagas em concurso unificado para Detran, Ipern e Ceasa

O Rio Grande do Norte vai realizar um concurso...

Laboratório confirma superfungo em paciente internado em Natal

O sequenciamento genético realizado por um laboratório de São...

Defensoria vai investigar aumento de taxas em contas de energia no RN

Depois de receber uma série de denúncias sobre aumento...

os assassinos do cão Orelha e os arquivos Epstein

A morte do cãozinho Orelha, que comoveu o Brasil,...

RN amplia ações institucionais no enfrentamento à intolerância religiosa

Celebrado em fevereiro, o Dia Nacional de Combate à...

Gestão Nilda acelera obras nas escolas e garante mais qualidade no retorno às aulas

A gestão da prefeita Nilda segue firme no compromisso...

Foi-se o Bloquinho? realiza baile em Ponta Negra e celebra legado de Gilberto Gil

Em seu terceiro ano consecutivo, o Foi-se o Bloquinho?...