Estreia neste sábado (28), às 10h, na Pinacoteca Potiguar, a exposição “Hoje Tem Espetáculo – O Universo Poético de Assis Marinho”, uma homenagem à trajetória do artista paraibano radicado no Rio Grande do Norte que transformou dor em cor, memória em cena e o sertão em picadeiro.
A mostra, com curadoria do procurador Manoel Onofre Neto, membro do Conselho Estadual de Cultura (CEC), reúne obras inéditas e trabalhos pertencentes a colecionadores para apresentar um panorama sensível da produção de Francisco de Assis Marinho de Farias.
Nascido em 1960, em Cubati (PB), ele chegou ainda criança ao Rio Grande do Norte, depois que a família deixou o seridó paraibano para escapar da seca. Foi em São João do Sabugi que o menino autodidata começou a desenhar o mundo à sua volta — um mundo atravessado pela estiagem, pela religiosidade popular, pelas festas e pelas ausências.
A pintura de Assis Marinho carrega uma marca recorrente: personagens de olhar melancólico, quase sempre frontal, que parecem encarar o espectador e pedir escuta.
Eles são retirantes, palhaços, santos humanizados, pescadores e figuras do imaginário nordestino que condensam uma biografia feita de perdas profundas e recomeços.
Autodidata, Assis construiu uma linguagem própria, com traços sintéticos e paleta contida, além de forte carga expressionista. Em vez do excesso, a síntese. Em vez do adorno, a emoção crua.
Os seus quadros não descrevem apenas cenas: expõem estados de alma. Como observa o curador, é uma arte que nasce da experiência vivida — não há distanciamento entre artista e personagem, mas sim uma fusão.
Traço artístico era reconhecido desde a infância
Amigo de Assis Marinho há 50 anos, o produtor cultural Severino Ramos, proprietário do Sebo Balalaika, localizado na Cidade Alta, conta como o traço artístico do artista já era reconhecido desde a infância.
“Muito cedo, aos cinco anos, Assis começou a desenhar os santos que o pai fazia. Como a família passava muita necessidade porque o pai era alcoólatra e voltava com pouca comida para casa, pois bebia tudo que conseguia, Assis fugiu para Caicó com oito anos de idade, onde viveu como menino de rua. Uma vez ele entrou no mercado maltrapilho, descalço, pegou um lápis e um papel que alguém deu e começou a desenhar uma mulher muito bonita e elegante que estava no local, depois mostrou o desenho a ela. A mulher era a esposa do tabelião da cidade, que ficou encantada com o desenho, lhe deu comida, roupa e se comprometeu em lhe deixar de volta a São João do Sabugi”, narrou.
Severino Ramos contou, ainda, que o amigo voltou para São João do Sabugi, mas alguns anos depois fugiu de casa para Natal. Na capital potiguar, chegou a ser acolhido por uma família que morava na Rua Mossoró, no bairro de Petrópolis, mas terminou indo parar na rua, onde ganhava um trocado como flanelinha, sem nunca parar de desenhar.
Ele chegou a passar um ano na antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor), depois morou com um irmão em São Paulo e passou outro tempo novamente na rua, na Praça da República, até começar a ganhar dinheiro como retratista.
De volta a Natal, casou com Rosélia, com quem teve dois filhos: Abel e Rudá. Uma tragédia, porém, marcou em definitivo a vida de Assis Marinho.
O ano era 1990, ele ia com o filho mais velho, Rudá, dirigindo de Caicó para São João do Sabugi. A certa altura da estrada, perdeu o controle do carro em uma curva. O veículo capotou e o menino, à época com oito anos, morreu.
“Ele voltou muito desequilibrado, a mulher ficou muito magoada, pegou o outro filho e foi morar no Rio Grande do Sul, onde está até hoje. Assis ficou muito desolado e só contava com a presença de alguns amigos”, lamentou Severino Ramos.
Saiba Mais: Artes plásticas: os olhos tristes na arte de Assis Marinho
Um espetáculo em seis atos

A exposição em homenagem a Assis Marinho foi concebida como uma espécie de montagem teatral sob a lona simbólica de um circo. O percurso se organiza em seis núcleos ou “atos” que entrelaçam a vida e a obra do artista.
O visitante começa por “O Quixote Sertanejo – O Artista e seus Espelhos”, em que Assis se projeta na figura do cavaleiro idealista que insiste em lutar contra moinhos de vento. A metáfora é direta: a arte como enfrentamento, mesmo quando o mundo parece adverso.
Em “Ciranda dos Sonhos – Infância e Imaginação”, a infância no interior surge como território de invenção e abrigo. Já em “Arena do Sertão – Memória, Festa e Resistência”, o contraste marca a cena: a poeira dos retirantes convive com a poeira festiva dos forrós, revelando a tensão permanente entre dureza e celebração.

A espiritualidade aparece em “Procissão da Poesia – O Sagrado em Cena”. Os santos de Assis não ocupam pedestais inalcançáveis; caminham entre as pessoas, compartilham fragilidades. É uma religiosidade humanizada, mais próxima do chão do que do altar.
Com a chegada do artista a Natal, o mar passa a integrar sua iconografia. Em “Entre Marés – Desfrute à Beira-mar”, jangadas, pescadores e a mística litorânea ganham protagonismo. A obra “Santa Ceia dos Pescadores” sintetiza esse encontro entre fé e cotidiano.
O Beco da Lama, na Cidade Alta, reduto cultural e boêmio da capital, inspira o núcleo “Em Torno do Beco – Boemia e Resistência”. Ali, a criação coletiva e os afetos se misturam. O diálogo com esculturas do mestre seridoense Ivan do Maxixe, que receberam intervenções de Assis e outros artistas, reforça esse espírito colaborativo.
No encerramento, o “Grand Finale” reúne personagens e símbolos no centro do picadeiro. O palhaço — figura recorrente na obra de Assis — surge como alter ego do artista. É a síntese de sua poética: riso e dor coexistindo na mesma máscara.
Arte, fragilidade e recomeço

A trajetória de Assis Marinho não é dissociável de sua produção. As tragédias familiares ao longo da vida, como a morte do filho Rudá, desencadearam um quadro de alcoolismo que impactou sua rotina e sua inserção no circuito artístico.
Hoje, acolhido em uma casa de apoio em Emaús, na Região Metropolitana de Natal, ele voltou a produzir com regularidade.
Nesse contexto, a exposição ganha também um sentido de cuidado e reconhecimento. Mais do que retrospectiva, é um gesto de reintegração simbólica de um artista que, apesar das adversidades, nunca deixou de pintar seus personagens de olhos tristes — olhos que, paradoxalmente, iluminam.
A a mostra permanece em cartaz até o final de março e conta com apoio do Sebrae-RN, do advogado Robson Maia Lins e do Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura, Fundação José Augusto, Pinacoteca Potiguar/Palácio Potengi e Conselho Estadual de Cultura do RN.
Serviço
O que: Exposição Hoje Tem Espetáculo – O Universo Poético de Assis Marinho
Quando: 28 de fevereiro a 30 de março
Onde: Pinacoteca Potiguar – Praça Sete de Setembro, Cidade Alta, Natal
Funcionamento: terça a sexta, das 8h às 17h; sábado e domingo, das 9h às 16h
Entrada: gratuita
Fonte: saibamais.jor.br



