A inauguração da Cozinha Escola Solidária da Casa Confluências Marielle Franco, marcada para este sábado (7), no bairro Potengi, na zona Norte de Natal, pretende ir além da oferta de refeições gratuitas. A proposta é criar um espaço comunitário voltado à segurança alimentar, à educação popular e ao acolhimento de moradores em situação de vulnerabilidade.
O equipamento integra a Casa Confluências RN, iniciativa construída em parceria entre o Confluência de Educação Popular e a associação S19. A programação de abertura começa às 14h, com debates, apresentações culturais e oficinas, incluindo atividades de educação alimentar e uma oficina sobre plantas frutíferas.
Segundo a coordenadora nacional do Confluência de Educação Popular e tesoureira da S19, Tatiane Ribeiro, a criação da casa nasce de um projeto antigo do coletivo e de uma relação construída ao longo dos anos com a comunidade local.
“A Casa Confluências é um sonho nosso que a gente sonhava junto há muitos anos e que agora está na realidade. É um mar de possibilidades. A gente começa com a cozinha escola, mas certamente não será o único processo que nós vamos abrir aqui”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais.
A cozinha solidária deve atuar em duas frentes principais: a formação em alimentação e a distribuição de refeições. A meta é produzir cerca de 450 refeições por semana, número inspirado em um projeto semelhante desenvolvido pela organização no bairro do Grajaú, em São Paulo.
De acordo com Tatiane, o modelo adotado no Rio Grande do Norte amplia a proposta inicial. “A gente entendeu que aqui no estado poderia dar um novo passo: não só fazer as entregas de refeições, mas também ter um espaço de educação, conectado com o nosso trabalho de educação popular”, explica.
O público prioritário inclui pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, como moradores em situação de rua, entregadores de aplicativos, estudantes de cursinhos populares e moradores da região. A coordenação também articula parcerias com movimentos sociais que atuam com a população em situação de rua.
“Queremos atender pessoas em situação de rua, entregadores que muitas vezes passam o dia sentindo o cheiro da comida e não têm dinheiro ou tempo para se alimentar, além dos estudantes do nosso cursinho, que muitas vezes desistem porque não conseguem pagar uma refeição durante o dia”, afirma.
Além da alimentação, o espaço pretende funcionar como ponto de apoio para a comunidade. A casa deverá oferecer ambiente para estudo, descanso e acesso a infraestrutura básica, como carregamento de celular e conexão à internet.
A coordenadora destaca que muitos jovens da região enfrentam dificuldades para estudar em casa. “Muitos alunos dizem que é difícil estudar porque a casa é cheia, o som é alto ou a internet não funciona bem. A gente quer ter um espaço em que as pessoas possam vir, descansar, estudar e se alimentar com qualidade”, diz.
Outro eixo importante do projeto é a formação profissional de mulheres, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social, como mães solo. O curso de cozinha pretende ensinar técnicas culinárias e também conteúdos voltados à gestão de pequenos negócios.
“A gente quer que essas mulheres aprendam a cozinhar, mas também aprendam como abrir um negócio, usar aplicativos para vender alimentos e fazer cálculos de custo. Muitos empreendimentos do setor de alimentação fecham porque os donos não sabem calcular corretamente os preços”, explica Tatiane.
A proposta pedagógica da cozinha segue as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira, priorizando alimentos frescos e produtos da agricultura familiar. A ideia é valorizar ingredientes regionais e estimular hábitos alimentares mais saudáveis.
“Queremos levar comida de qualidade, diversa, colorida e muito regional, valorizando os produtos do nosso território e promovendo o próprio Guia Alimentar”, afirma.
A criação da Casa Confluências também contou com forte mobilização do bairro. Segundo Tatiane, a própria comunidade ajudou a viabilizar a instalação do projeto.
“Quando fomos alugar a casa, foi a própria comunidade que nos indicou para a dona do imóvel, dizendo que o nosso trabalho era sério. Depois disso, muita gente ajudou como pôde, emprestando escada, ajudando na reforma. É aquela solidariedade que a periferia sabe fazer”, relata.
O projeto conta com patrocínio da Caixa e apoio do Governo Federal. No entanto, a coordenação ressalta que a gestão do espaço pretende manter forte participação da comunidade local.
A expectativa é que a casa também abrigue novas iniciativas no futuro, como uma biblioteca comunitária e atividades culturais. Grupos de hip-hop da região, que já mantêm parceria com o cursinho popular, devem utilizar o espaço para ensaios e eventos.
“A ideia é que a casa seja de portas abertas, para que a própria comunidade ajude a definir o que vai acontecer aqui, construir agendas e decidir o que é mais importante para o bairro”, conclui Tatiane Ribeiro.
SAIBA+
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Fonte: saibamais.jor.br



