A artista potiguar Ale Du Black costuma dizer que sua relação com a arte começou antes mesmo dela entender exatamente o que aquilo significava. A lembrança mais antiga que guarda é da infância, em Areia Branca, cidade salineira do litoral norte potiguar onde nasceu e cresceu. Aos cinco anos de idade, já participava das apresentações da escola, dançando em eventos e festas locais.
A escola foi o primeiro palco e também a porta de entrada para programas socioculturais da cidade, como o ProMAD, iniciativa voltadas à formação artística de crianças e adolescentes. Nessas oficinas, transitou por diversas linguagens: começou pela capoeira, passou pela música e encontrou no teatro um espaço de permanência. Mesmo tímida, era constantemente chamada para participar de apresentações e eventos comunitários.
Essa diversidade de experiências artísticas ajudou a construir a base da artista que surgiria anos depois. Em Areia Branca, Ale também se envolveu em grupos independentes de teatro de rua, que combinavam dança, música e encenação, numa estrutura próxima a um musical. Ao mesmo tempo, absorvia referências populares que circulavam com força no interior potiguar, especialmente o forró e o reggae. No imaginário artístico da jovem, também estavam figuras femininas que dominavam os palcos da música popular brasileira e nordestina, como cantoras de bandas de forró e artistas pop que ocupavam espaços de protagonismo.
Dança como ferramenta de aproximação
Foi nesse contexto que o rap começou a aparecer em seu horizonte. Ainda adolescente, por volta de 2008, Ale teve os primeiros contatos com a cultura hip-hop. Mas entrar nesse universo não parecia simples. Naquele período, as batalhas de rima eram ambientes majoritariamente masculinos, marcados por disputas agressivas e, muitas vezes, por discursos machistas e LGBTfóbicos.
“Eu pensava assim: sendo uma pessoa LGBT, se eu entrar numa batalha dessas, vou ser massacrada”, lembra.
Apesar do receio, o desejo de participar daquele universo permaneceu. A aproximação inicial aconteceu por meio da dança. Em 2015, ela passou a frequentar encontros de hip-hop em Areia Branca com grupos de dança que se apresentavam nas batalhas. Aos poucos, fez amizades com MCs locais e começou a experimentar o freestyle de maneira informal, entre amigos. Foi nesse período que percebeu que poderia ocupar também aquele espaço.
As primeiras referências femininas dentro do rap tiveram papel importante nesse processo. Grupos como Atitude Feminina e o coletivo Antônias ajudaram a ampliar seu imaginário sobre quem poderia fazer rap. A postura incisiva das MCs mostrava que havia espaço para vozes femininas e, com o tempo, Ale passou a se enxergar dentro dessa possibilidade.
O momento da transição
A mudança mais profunda em sua trajetória aconteceu em 2018, quando se mudou para Natal para cursar licenciatura em dança na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A chegada à capital representou uma ampliação de horizontes pessoais e artísticos.
Segundo ela, o contato com novos ambientes culturais e com a diversidade da cidade ajudou a fortalecer processos internos que já estavam em curso. Embora diga que sempre soube quem era, foi nesse período que começou a se expressar com mais liberdade.
“Eu sempre digo que não sei exatamente quando aconteceu a transição. Eu sempre soube quem eu era. O que existiu foi um momento em que o mundo quis me podar para ser algo que eu não era”, afirma.
A afirmação pública de sua identidade aconteceu em 2020, quando decidiu que não queria mais ser chamada pelo nome que usava antes e passou a assumir definitivamente sua identidade como mulher trans. Esse momento coincidiu com o início mais estruturado de sua carreira musical.
Ainda em Natal, Ale começou a escrever poesias e a publicá-las nas redes sociais. Sem grandes pretensões, gravava vídeos recitando textos autorais ou experimentando rimas. Foi nesse período que surgiu a ideia de transformar essas poesias em música.
A pandemia de covid-19 acabou influenciando diretamente esse processo. Em 2020, ela gravou uma versão demo de uma música autoral e publicou o vídeo na internet. O retorno inesperado marcou um ponto de virada:
“Eu postei e fui dormir. Quando acordei, o vídeo tinha mais de mil visualizações. Para mim aquilo era enorme na época”, conta.
A repercussão incentivou o lançamento oficial de seu primeiro single no mesmo ano. Embora já tivesse alguns anos de envolvimento com o movimento hip-hop, Ale considera 2020 como o marco oficial de sua carreira musical. Enquanto isso, produzia conteúdos diversos para as redes sociais, alternando performances de dança, poesia falada e música.
A partir dali, a trajetória ganhou velocidade. Em 2021, participou do festival online Cenas da Periferia, onde apresentou um show de 30 minutos que misturava rap, coreografia e performance cênica. A apresentação contou com bailarinos convidados e reforçou uma característica que se tornaria marca de seus trabalhos: a mistura entre música e espetáculo visual.
“Eu pensei que, se ia chegar como rapper, queria chegar também com o meu balé”, explica.
A repercussão do show nas redes sociais foi intensa. Internautas passaram a compará-la a grandes performers da música pop, apelidando-a de “Beyoncé do rap em Natal”, referência que ela relembra com humor, mas também como sinal do impacto que a apresentação teve.
Em 2022, lançou o clipe “Ataque Letal”, produção que chamou atenção pelo visual elaborado, incluindo a participação de uma cobra em cena. O vídeo ampliou sua visibilidade na cena local e abriu novas portas para apresentações presenciais.
No mesmo ano, conseguiu aprovar um projeto em edital de economia criativa que possibilitou a gravação de seu primeiro EP, intitulado “Ghetto é Luxo”. O trabalho começou a ser produzido em julho de 2022 e marcou um salto em sua carreira. Ouça:
O lançamento do EP aconteceu durante o Festival DoSol, um dos eventos mais importantes da música independente no estado. O disco apresentou uma artista mais consolidada e trouxe colaborações com nomes da cena local, como o rapper CAZASUJA. Uma das faixas em parceria, “Big Bang”, tornou-se um dos destaques do projeto.
O videoclipe da música recebeu o Prêmio Hangar de melhor videoclipe de linguagens urbanas em 2023 e também conquistou menção honrosa no festival Céu de Videoclipes, realizado na praia da Pipa, no litoral sul potiguar.
Nos anos seguintes, Ale passou a integrar iniciativas de fortalecimento da cena musical independente, como a Incubadora DoSol, projeto que acompanha artistas em processos de desenvolvimento artístico e profissional. Ao mesmo tempo, continuou explorando novas sonoridades.
Seu trabalho mais recente, o EP “Quatro”, amplia as referências musicais da artista e dialoga com ritmos como dancehall, ragga e afrobeat. A pesquisa sonora também abriu espaço para colaborações internacionais, como a parceria com o DJ ugandense Julian Kay na faixa “Ganja Boy”.
Mesmo com os avanços da carreira, Ale ressalta que grande parte de sua produção foi financiada com recursos próprios. Durante os anos de universidade, por exemplo, usava parte das bolsas estudantis para custear gravações e videoclipes:
“Se eu juntava três ou quatro mil reais, já conseguia gravar um clipe simples. Então muita coisa foi construída assim, na insistência”, diz.
Persistência e experimentação: os pilares da carreira
Hoje, olhando para trás, a artista vê sua trajetória como resultado de uma combinação entre persistência, experimentação artística e a vontade de ocupar espaços historicamente negados a pessoas trans dentro da música. Do interior de Areia Branca aos palcos da cena independente potiguar, Ale Du Black construiu um caminho próprio dentro do hip-hop. Um percurso que começou na dança infantil da escola e se transformou em uma carreira que mistura música, performance e afirmação política. Para ela, cada projeto representa um momento específico da vida:
“Nunca vai existir outro trabalho igual ao ‘Ghetto é Luxo’, porque cada obra é um retrato do que a gente estava vivendo naquele momento”, resume.
Para ela, editais culturais e políticas públicas são ferramentas importantes para artistas independentes, mas a persistência e o esforço individual continuam sendo fundamentais. Hoje, ao olhar para trás, Ale Du Black reconhece que sua história reflete uma busca constante por espaço.
Da menina tímida que dançava nas festas escolares em Areia Branca à rapper que mistura performance, poesia e música nos palcos de Natal, sua trajetória revela como a arte pode abrir caminhos onde antes pareciam existir apenas limites.
“Eu sempre fiz pensando no que eu gostaria de ver. O resto vai acontecendo”, resume.
Confira seu último lançamento, o videoclipe da faixa P.G.B.S (Posturada, Gostosa, Bonita e Sagaz):
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Fonte: saibamais.jor.br



