“Sonhos são inegociáveis”, me disse um amigo enquanto jogávamos conversa fora. Deitado em uma rede, ele falava isso como quem estivesse testemunhando seus próprios sonhos se fazendo realidade. Seu olhar distanciou-se antes de encontrar os meus, como quem assiste a um filme daqueles que não desgrudamos os olhos da tela.
Pensei, no momento, que eu tenho sonhos inegociáveis, mas que não tenho pressa para que eles ocorram, não sou ansiosa a ponto de sofrer pela urgência de suas materializações. Gosto de vê-los marinar, seguir seu fluxo natural, maturar até o ponto de resistir. Isso me faz entendê-los como bússolas, como nortes a serem perseguidos de alguma forma, não com ânsia, mas com gana.
Eu tinha, naquele momento, um sonho, uma imagem passando diante de mim. Prostrada na minha frente. Daqueles que quando esfumaçam nossa mente, preenchem o coração de calor e a alma de quietude, delicadeza e mansidão. Sedutor, eu diria…
Meu amigo sabia que sonho era. Talvez ele, mais que qualquer outra pessoa, tinha ciência dele e da paciência e tranquilidade com que espero que ele (o sonho ou meu amigo?!) me belisque e me diga que acordei dentro desse desejo.
Sim, sonhos são desejos! E precisam ser alimentados com sua própria lembrança. Lembrar que temos sonhos, mantém-nos vivos e esperançosos. Deixá-los vivos em nossa memória é realizá-los de alguma forma. É permitir que eles não percam tração, que eles não esmoreçam e não sejam guardados na caixinha dos esquecimentos que trazemos conosco.
Sonho em viver o dobro do que já vivi. Sonho em ter o direito envelhecer sem perder minha energia, meu dinamismo, minha inquietude… Sonho em viver sem medo e ocupada para que esse medo e seus companheiros não me sucumbam. Sonho que um sonho não me rejeite. Sonho com toques e carícias e amor verdadeiro. Daqueles que o respeito é o principal ingrediente.
Sonho com safadeza, com troca de olhares e beijos. Cheiro no cangote e sarro. Pegada firme, mas sexo lento. Sonho com uma casa entupida de livros e cheia de gatos e música na vitrola e incenso aceso e miados e latidos e uma rede vermelha na sala, diante da estante enfeitada com fotos e jiboias. Sonho que não esquecerei das pessoas e que as pessoas não me esquecerão, nunca… Sonho que lembrem de mim quando escutarem uma música; que lembrem que eu não gosto de determinadas coisas, lugares e pessoas; que eu tenho sonhos a realizar e que tive sonhos que concretizei. Sonho que lembrem de coisas que eu disse. Como vou lembrar do que falou meu amigo, um sonho de amigo, diante de mim, deitado em uma rede, falando como quem estivesse testemunhando seus próprios sonhos se fazendo realidade: “Sonhos são inegociáveis”.
Fonte: saibamais.jor.br



