Reconhecida internacionalmente desde 2024, uma metodologia de ensino desenvolvida por uma pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) voltou ao centro do debate acadêmico após surgirem acusações de que a proposta teria sido reproduzida por uma instituição europeia sem o devido crédito. O método, criado pela bióloga e doutoranda Gláucia Silva, utiliza referências à cantora Taylor Swift para facilitar o ensino de botânica.
A proposta pedagógica ficou conhecida como “Método Taylor Swift” e foi apresentada em artigo publicado na revista científica Annals of Botany, ligada à Universidade de Oxford. A repercussão do estudo ampliou a visibilidade da pesquisadora, mas também levou a um episódio recente de suspeita de uso indevido da metodologia por um grupo de pesquisadores da Universidad Miguel Hernández, na Espanha.
Segundo Gláucia em entrevista à Agência Saiba Mais, ao comparar o conteúdo de seu artigo com o material divulgado pela universidade espanhola, foi possível identificar trechos e conceitos semelhantes. A análise indicaria uma correspondência significativa entre os textos, levantando questionamentos sobre a ausência de referência à autoria original.
A origem do método remonta a 2020, período marcado pelas dificuldades do ensino durante a pandemia de Covid-19. Na época, Gláucia precisava lecionar botânica para estudantes que demonstravam pouco interesse pela disciplina, um problema recorrente na área.
Diante desse desafio, ela buscou alternativas para aproximar o conteúdo científico do universo cultural dos alunos. Foi nesse contexto que percebeu que diversos videoclipes da cantora Taylor Swift traziam referências visuais e simbólicas relacionadas a plantas.
A observação inspirou a criação de uma estratégia pedagógica que conecta cultura pop e ciência. A partir de análises de letras e videoclipes, os estudantes são convidados a identificar elementos botânicos e relacioná-los aos conteúdos estudados em sala.
De acordo com a pesquisadora, a iniciativa também busca enfrentar um fenômeno conhecido na literatura científica como “impercepção botânica” — a dificuldade das pessoas em perceber e valorizar as plantas no ambiente ao seu redor. Esse distanciamento, explica, pode afetar tanto o aprendizado quanto a forma como a sociedade se posiciona diante de questões ambientais.
Videoclipes como ferramenta de aprendizagem
No método desenvolvido pela professora, cada aula utiliza um videoclipe como ponto de partida para discutir conceitos da botânica. A estratégia consiste em analisar imagens, cenários e metáforas presentes nas músicas da artista, relacionando-os a diferentes grupos de plantas.
Entre os exemplos usados nas aulas está o videoclipe de “Cardigan”, que ajuda a introduzir discussões sobre briófitas e pteridófitas. Já “Out of the Woods” serve de base para abordar as gimnospermas, a partir da ambientação em uma floresta sem flores ou frutos. A música “Willow”, cujo título faz referência ao salgueiro, é utilizada para discutir as angiospermas.
A proposta surgiu da combinação entre duas paixões da pesquisadora: a botânica e o interesse pela obra de Taylor Swift. Ao unir esses universos, ela buscou tornar o conteúdo mais acessível e despertar maior curiosidade entre os estudantes.
Apesar das inseguranças iniciais, Gláucia decidiu apresentar o método em um congresso internacional de botânica. O trabalho foi selecionado entre mais de 1.500 propostas para uma apresentação oral em um simpósio dedicado a metodologias de ensino.
Segundo a pesquisadora, o retorno do público foi surpreendente. Ao final da apresentação, realizada para uma plateia de especialistas da área, a recepção foi marcada por aplausos e interesse pela proposta pedagógica.
Para ela, o episódio representou um momento de validação científica do projeto, demonstrando que a combinação entre ciência e referências culturais pode ser uma ferramenta legítima de ensino.
Suspeita de apropriação indevida
A controvérsia envolvendo a autoria da metodologia surgiu de forma inesperada. Em uma busca rotineira na internet sobre associações entre Taylor Swift e botânica, a pesquisadora encontrou reportagens que atribuíam a criação do método a um professor da Universidad Miguel Hernández.
“Cada matéria que eu lia parecia um choque”, relata. “Todas falavam dele como se fosse o criador da proposta.”
Para Gláucia, o problema não está no uso da metodologia em si. Na ciência, explica, é comum que pesquisadores reproduzam ou adaptem métodos desenvolvidos por outros. O ponto central da crítica é a ausência de referência ao trabalho original.
“A ciência se constrói a partir da replicação de ideias, mas o básico é citar quem desenvolveu a proposta”, afirma.
O episódio também reacendeu discussões sobre um fenômeno conhecido como extrativismo epistêmico, a apropriação de conhecimentos produzidos no Sul Global por instituições ou pesquisadores do Norte Global sem o devido reconhecimento.
Para a pesquisadora, cientistas brasileiros frequentemente enfrentam dificuldades adicionais para que suas contribuições sejam valorizadas internacionalmente. Ainda assim, ela destaca que o próprio alcance da metodologia demonstra a capacidade de inovação da ciência produzida no país.
“O fato de outras pessoas quererem usar o método também mostra que ele funciona”, diz. “Mas é importante deixar claro quem o desenvolveu.”
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Fonte: saibamais.jor.br



