Diz o ditado popular que “de médico e louco todo mundo tem um pouco”, mas no caso dos brasileiros podemos acrescentar outra vocação: a de cantor. Ainda que seja só no chuveiro, no volante carro ou numa reunião de amigos, sempre tem alguém pronto para soltar a voz na hora do refrão. Foi apostando nesse talento informal que o motorista de aplicativo Milton Gomes, 31 anos, decidiu inovar no atendimento aos passageiros em Natal. Ele transformou o próprio veículo em um karaokê sobre rodas, onde quem entra não encontra apenas uma corrida, mas também a chance de mostrar sua habilidade com a música durante o trajeto.
A ideia, além de quebrar a rotina das viagens, dá a chance para os passageiros, entre um deslocamento e outro, virem cantores durante alguns minutos e o trajeto ganha trilha sonora ao vivo. Para conferir essa experiência de perto, acompanhamos Milton com seu karaokê móvel pelas ruas de Natal.
A surpresa começa logo ao entrar no veículo. Uma pequena placa instalada atrás do banco do motorista anuncia a novidade: ali também funciona um karaokê. O passageiro que se animar pode escolher a música, pegar o microfone e assumir o palco improvisado.
Para completar o clima de show, Milton guarda um detalhe para o momento certo: Na hora do refrão, ele liga as luzes de led, transformando o interior do carro em uma pequena pista iluminada.
A ideia é relativamente recente. De acordo com Milton, o karaokê sobre rodas surgiu há cerca de três ou quatro meses, inspirado em um vídeo que ele viu nas redes sociais mostrando um motorista fazendo uma coisa parecida em Florianópolis (SC).
“Quando vi, pensei: vou trazer essa ideia para Natal”, conta.
Milton trabalha como motorista de aplicativo há três anos e meio. Antes disso, era vendedor em um shopping. Na época, costumava rodar de moto nas folgas de quarta-feira para ajudar nas despesas com combustível.
A mudança de profissão veio depois que foi demitido. A esposa estava grávida na época, então ele decidiu trocar a moto por um carro e passar a trabalhar com aplicativos de transporte.
“Eu juntei o útil ao agradável. Ia precisar de um carro para a família e comecei a trabalhar com aplicativo”, lembra.
Hoje, ele roda principalmente pelas zonas Leste e Sul de Natal. Foi justamente no contato diário com os passageiros que surgiu a vontade de tornar as viagens mais divertidas.
Passageiros reagem com surpresa ao verem placa de karaokê no carro
A reação das pessoas ao se depararem com o karaokê, segundo ele, costuma ser imediata. A experiência dos passageiros começa com surpresa: “Eles entram, veem a plaquinha e já perguntam se tem karaokê mesmo”, conta.
Nem todo mundo se arrisca no microfone, mas a adesão aumenta bastante nos fins de semana, especialmente entre quem está saindo de bares ou festas.
“Quando a galera já está animada, canta mesmo”, diz.
Além de render boas histórias e vídeos nas redes sociais — alguns deles com milhares de visualizações — a ideia também trouxe retorno financeiro. Milton afirma que muitos passageiros acabam dando gorjetas depois da experiência e alguns chegam a contratá-lo para corridas particulares.
Um desses convites veio justamente após alguém assistir aos vídeos publicados por ele. No sábado (14), por exemplo, o motorista faria um serviço especial: transportar uma noiva até o local do casamento.
“Foi por causa do karaokê”, revela.
Jornalista e professor soltaram a voz no carro de Milton
Quem já experimentou a corrida musical aprova a novidade. O jornalista Vitor Pimentel e o professor Avelino Neto, ambos de 40 anos, pegaram uma corrida na semana passada com Milton. Os dois acabaram entrando no clima e se arriscaram soltando a voz.
“Achei muito satisfatória a ideia do karaokê sobre rodas. Numa cidade onde as opções de lazer são tão pautadas na mesmice e onde a gente não encontra grandes inovações, ter acesso a um serviço desse me parece uma saída muito divertida”, avalia.
Ele pontuou que a experiência ganha ainda mais sentido para quem utiliza aplicativos de transporte justamente para se deslocar para momentos de lazer.
“Para quem usa esse tipo de transporte pra sair, ir pra bares ou festas, a iniciativa foi muito bacana. Espero encontrar com ele outras vezes”, afirma.
Apesar de dizer que é tímido, Vitor acabou soltando a voz durante a corrida. “Cantar faz parte das coisas que me fazem feliz. Eu sou meio envergonhado, por incrível que pareça, mas canto sim em reuniões com amigos, mais na brincadeira”, relata.
De volta a nossa experiência imersiva, enquanto a corrida seguia pelas ruas da cidade, ficou evidente que o carro não é apenas um meio de transporte. Por alguns minutos, ele vira palco, cabine de gravação improvisada e espaço para quem quiser testar — sem compromisso — aquele imaginado talento musical escondido.
No fim das contas, se a apresentação não for digna de reality show, tudo bem. O passageiro, no máximo, desce do carro com uma boa história para contar — e talvez com a sensação de que todo brasileiro tem de fato um pouco de cantor.
Fonte: saibamais.jor.br



