A artista não-binaria Geja tem 25 anos e fala da própria história como quem revisita um álbum de fotos cheio de figurinos, maquiagens e memórias de palco. Na verdade, a relação com a arte começou antes mesmo de qualquer consciência sobre carreira, identidade ou performance. Começou na infância, no meio de espetáculos populares, humor, circo e folclore.
Nascida no Ceará e criada em Natal desde muito pequena, Geja cresceu praticamente dentro de um ambiente artístico. O pai trabalhava com shows de humor em uma casa cultural da cidade, e era comum que ela passasse horas assistindo às apresentações. No palco, passavam números de capoeira, maculelê, humor e personagens caricatos.
“Eu lembro de assistir os shows do começo ao fim. Era uma casa folclórica, tinha sereia saindo no palco, capoeira, maculelê… e meu pai fazia show de humor. Eu sempre entendi aquilo como um lugar de fantasia”, recorda.
Foi nesse ambiente que surgiram os primeiros contatos com a ideia de performance e com a possibilidade de brincar com personagens. Ainda criança, as festas de Carnaval e São João eram momentos aguardados para experimentar maquiagem, figurinos e pequenas transformações.
Uma fantasia de pirata, com bigode e barba desenhados no rosto, virou quase uma marca de infância. “Era a oportunidade que eu tinha de me maquiar. Eu sempre pedia pra pintar um bigodinho, um dente, fazer alguma coisa”, conta. Anos depois, o bigode ainda aparece como elemento recorrente em suas montações.
Apesar do interesse precoce, a formação artística não veio por meio de cursos formais. A experimentação acontecia em espaços cotidianos: apresentações da escola, quadrilhas juninas, peças estudantis e atividades culturais.
“Eu sempre estava nessas coisas, mas nunca tive aula mesmo de teatro ou dança. Eu gostava era de escrever roteiro para as peças da escola”, lembra.
A descoberta da drag
A virada acontece no ensino médio, quando Geja entra no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), em 2016. É nesse período que a experimentação com gênero e performance ganha forma mais concreta.
A primeira vez que se montou foi por um motivo improvável: um trabalho escolar de geografia inspirado no fenômeno viral Girls in the House.
“A gente fez uma versão chamada Girls in the Cerrado. Aí alguém disse: ‘por que você não se monta?’ E eu pensei: pronto, vai ter drag no Cerrado sim”, conta, rindo.
Durante essa fase, a drag existia principalmente dentro do quarto, o que, na cultura drag, costuma ser chamado de bedroom queen. As montações apareciam em trabalhos escolares, fotos, pequenos vídeos e experiências pessoais.
Entre 2016 e 2018, a palavra-chave era experimentação.
“Era muito testar coisa. Testar maquiagem, roupa, ideia, conceito. Tudo ainda muito dentro de casa.”
Política, festa e performance
O salto para o público acontece também dentro do ambiente estudantil. No IFRN, Geja passa a integrar o grêmio estudantil e ocupa o cargo de diretora de arte e cultura por duas gestões.
Ali, organização política e produção cultural começam a caminhar juntas.
Uma das festas organizadas pelo grêmio, chamada Puns at Sisters, brincava justamente com a ideia de que eventos estudantis seriam apenas festas sem conteúdo. A proposta era misturar irreverência, cultura e provocação estética.
“Eu já queria usar roupas mais curtas, brincar mais com o corpo, misturar masculino e feminino. Sempre tive essa ideia de que a drag precisava romper alguma coisa.”
A primeira performance oficial acontece em 2019, em uma festa de Halloween. Até então, Geja já frequentava eventos montada, mas ainda não tinha se apresentado no palco.
A experiência mudou tudo.
“Uma coisa é organizar a festa, falar no microfone, apresentar. Outra é sentir o calor do público reagindo ao que você está fazendo ali, na hora. Aquilo me viciou.”
A partir daí, a performance — principalmente o lip sync — se torna uma das linguagens centrais do trabalho artístico.
Durante a pandemia de Covid-19, quando as festas desapareceram e os palcos ficaram vazios, Geja voltou à lógica da bedroom queen. Mas dessa vez a experimentação ganhou outra dimensão.
Foi o momento de investir de fato na drag: comprar maquiagem, adquirir perucas, costurar roupas e produzir conteúdos.
Também foi nesse período que ela participou de competições online de lip sync que reuniam artistas de todo o país.
“Era uma dinâmica parecida com Drag Race: tinha tops, bottoms, eliminações. Durava semanas. Aquilo ajudou muito a construir minha performance.”
A pandemia também marcou um momento pessoal importante: tornar pública a identidade drag.
Até então, as montações eram compartilhadas em redes privadas. Durante o isolamento, Geja decidiu abrir o perfil e assumir publicamente o trabalho artístico.
“Eu simplesmente falei: olha, gente, sou drag.”
O período pós-pandemia trouxe duas experiências que, segundo a artista, mudaram profundamente sua forma de fazer arte.
A primeira foi o circo.
Os pais de Geja, palhaços há mais de duas décadas, criaram recentemente o Circo Bisteca e Bochechinha. Ali, ela passou a participar como artista de tecido acrobático, incorporando maquiagem e elementos de drag nas apresentações.
“Eu gosto muito da troca com o público infantil. Criança é muito sincera. Quando uma chega e diz que amou sua maquiagem, aquilo vale muito.”
A segunda virada veio com a inserção na cena clubber de Natal. Foi nesse contexto que surgiram novas colaborações artísticas, festas independentes e coletivos culturais.
A Ballroom em Natal
Um dos capítulos mais importantes da trajetória de Geja está ligado ao surgimento da cultura Ballroom na cidade.
Depois de conhecer a cena, inicialmente através de referências como o documentário Paris Is Burning, ela participou da articulação que ajudou a viabilizar o primeiro baile organizado no estado.
Na época, Geja também atuava politicamente no Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRN e intermediou apoio institucional para a realização do evento.
“Era muito perrengue para conseguir fazer o primeiro baile. Eu falei: não, isso precisa acontecer.”
O evento acabou se tornando um marco para a comunidade local. Desde então, a artista também participou da produção de diversos bailes e eventos ligados à Ballroom em Natal.
“Hoje a comunidade está pulsante. Tudo é muito vivo: as estéticas, as danças, o gogó. Tudo é cante.”
A multiplicidade sempre foi uma característica da drag. Além de performer, Geja também já experimentou a música.
A faixa Escaudante, disponível nas plataformas digitais, nasceu de uma parceria com a artista Desk, que convidou Geja para escrever e gravar vocais sobre um beat inspirado no funk e na estética ballroom.
A gravação foi feita de forma caseira, com vocais captados no próprio quarto.
“Foi tudo meio Frankenstein. Gravei verso por verso e depois ela foi montando a música.”
Outro projeto importante foi a participação no filme Na Casa dos 20, dirigido por Filipe Santelli, no qual Geja interpreta um DJ. Embora não apareça montada na produção, a artista assina o trabalho com o nome artístico.
Arte como posicionamento
Ao olhar para trás, Geja identifica uma linha que atravessa toda a trajetória: a ligação entre arte e política.
Desde o grêmio estudantil até a atuação em eventos culturais e na Ballroom, a artista acredita que produzir cultura também significa disputar espaços e narrativas.
“Não quer dizer que todo mundo precisa fundar um movimento político. Mas toda arte que reflete sobre o mundo já é política.”
Hoje, a drag segue se expandindo entre diferentes linguagens: performance, circo, música, cinema e produção cultural.
Entre os sonhos que ainda quer realizar estão levar a personagem para o cinema em uma produção totalmente centrada em drags e conquistar um prêmio artístico.
“Eu adoro cerimônia de premiação. Aquela coisa de anunciar os indicados, subir no palco, pegar o troféu. Acho chiquérrimo.”
SAIBA MAIS:
De Areia Branca ao hip-hop: os versos potentes de Ale Du Black
Fonte: saibamais.jor.br



