Por trás da voz firme e da presença que atravessa o palco, a trajetória de Carol na poesia falada começa como tantas outras histórias contemporâneas: pela internet. Foi durante a pandemia, acompanhando os vídeos do artista Amém Ore no Instagram, que ela teve o primeiro contato com o slam. Mas o encontro decisivo veio depois, já presencial, em Natal.
Em 2024, ao assistir uma edição do Slam do Mirante, em Mãe Luiza, Carol percebeu que não dava mais para ficar apenas na plateia. “É impossível não se apaixonar pela cultura de poesia falada naquele espaço”, comenta em entrevista à Agência Saiba Mais. Naquele dia, foi ver de perto artistas que já admirava: Frizzy, seu cunhado, e Nanduzz, seu esposo, e saiu de lá “em êxtase”, com a certeza de que queria fazer parte daquilo.
A relação com a escrita, no entanto, vem de muito antes. Carol começou a escrever ainda criança, por volta dos 11 anos, criando perfis na internet para compartilhar seus textos. A poesia, desde cedo, se apresentou como ferramenta de sobrevivência emocional. “Sempre foi um alívio rápido, uma fonte de escape e uma maneira de me entender”, conta.
Mais do que expressão individual, a poesia também se tornou instrumento de leitura de mundo. Foi na poesia marginal que ela encontrou caminhos para compreender sua realidade e a do seu povo. “Me deu de volta a identidade que o eurocentrismo roubou”, afirma. Suas “escrivivências”, como define, atravessam temas que vão da maternidade ao sistema capitalista, passando pelas tensões de existir enquanto mulher indígena em um país estruturado para silenciar essas vozes.
Há cerca de um ano e sete meses, Carol passou a frequentar rodas de slam de forma contínua, sem pausas, mesmo durante a gestação e o puerpério. “Até gravidíssima eu nunca neguei uma roda”, diz. Em 2025, a poesia deixou de ser apenas prática artística para se tornar também suporte vital. “Eu vivi poesia, gestei poesia e pari poesia.”
A gestação, marcada por dúvidas e ansiedade, encontrou na escrita um território de equilíbrio. Já no pós-parto, após uma experiência que ela descreve como traumática, foi no palco que reafirmou a própria força. “Poder declamar com minha menina nos braços foi a maior prova de mim para mim mesma de que eu sou uma mulher forte.”
Mãe de Agnes, Carol fala da maternidade como transformação profunda. “Eu me tornei minha melhor versão. Meu coração dobrou de tamanho”, resume. A filha, hoje, é presença e impulso ,na vida e na arte.
Sua caminhada até o Slam BR 2025 também carrega as marcas das desigualdades estruturais que atravessam o campo cultural. Mulher, indígena Mendonça Amarelão, jovem artista periférica, Carol nomeia com precisão os enfrentamentos cotidianos:
“Ser uma mulher originária em um país que tenta apagar nossas culturas é viver uma busca constante pelas respostas que não nos foram dadas”, diz. Dentro da própria cena, aponta ainda para práticas de machismo e deslegitimação do trabalho feminino.
Apesar disso,e também por causa disso, sua presença no palco se afirma como gesto político.
O Slam BR 2025, realizado entre os dias 26 de fevereiro e 1º de março, marcou uma edição histórica do campeonato brasileiro de poesia falada. Pela primeira vez fora do eixo Sudeste, o evento aconteceu em Brasília e reuniu poetas de todas as regiões do país em uma programação que articulou batalhas, seminários, apresentações artísticas e feira cultural. Considerado o principal torneio de slam da América Latina, o encontro funciona não apenas como competição, mas como espaço de circulação de vozes, troca de experiências e afirmação de narrativas historicamente marginalizadas.
Representando o Rio Grande do Norte nesse cenário, Carol chegou à semifinal carregando não apenas seus versos, mas uma rede de afetos, apoios e resistências. O estado, historicamente reconhecido pela força na poesia falada, mais uma vez marca presença no circuito nacional.
“Viajei feliz, com a certeza de que estaríamos bem representados, mas sem a pressão de ganhar”, afirma. Para ela, embora a competição faça parte do slam, não é o elemento central. O que está em jogo é outra coisa: o encontro, a partilha, a possibilidade de dizer e ser ouvida.
Agora, de volta ao RN, Carol já projeta os próximos passos. O primeiro deles é retomar a graduação em Licenciatura em Teatro, um sonho que dialoga diretamente com sua prática artística. “Quero ser professora de artes”, diz.
O futuro, no entanto, segue em aberto, como costuma ser na vida de quem cria. Um livro, uma música, o retorno aos palcos teatrais: tudo é possibilidade. “A arte guia o artista, leva a caminhos inesperados”, reflete.
Entre certezas e incertezas, uma convicção permanece: Carol quer viver de poesia.
SAIBA MAIS:
“Slam no Mirante” leva poesia ao bairro de Mãe Luiza
Coletivo leva arte negra às escolas e desafia o currículo racista
Fonte: saibamais.jor.br



