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Estudo potiguar convida pessoas trans e travestis a analisar impactos da hormonização na voz

Na rotina de quem atravessa processos de afirmação de gênero, a voz costuma ocupar um lugar íntimo e, ao mesmo tempo, profundamente social. É por meio dela que emoções se revelam, identidades se afirmam e, muitas vezes, também se enfrentam desconfortos. É nesse território sensível que nasce a pesquisa “Efeitos da hormonização na voz de pessoas trans e travestis”, desenvolvida no âmbito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pelo grupo LaVoz.

Quem quiser participar pode acessar o formulário pelo link: https://forms.gle/Kf7Egwq8aQnf34tK7

Coordenado pela pesquisadora Juliana Godoy e pela fonoaudióloga e pesquisadora Akira Silva Lima, vinculadas ao Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia (PPGFon), o estudo convida pessoas trans e travestis, com mais de 18 anos, a participarem de um mapeamento ainda pouco explorado pela ciência: como a hormonização impacta a voz.

A pesquisa está aberta inclusive para quem não realiza hormonização, o que amplia o alcance e a qualidade dos dados. A participação acontece de forma simples, por meio de um formulário online, e inclui uma avaliação vocal com orientações personalizadas.

A iniciativa tem raízes práticas. “A motivação para a pesquisa surgiu ainda em 2023, durante os atendimentos do projeto de voz com pessoas trans e travestis, o Transvox”, explica Akira em entrevista à Agência Saiba Mais. Segundo ela, o contato direto com pessoas transmasculinas em processo de hormonização despertou uma inquietação científica. “Já existem estudos que investigaram esses efeitos, mas ainda são escassos.”

Do ponto de vista fonoaudiológico, alguns caminhos já são conhecidos, mas ainda há muitas lacunas. “O principal efeito da hormonização na voz de pessoas transmasculinas é o aumento do trato vocal e o surgimento de uma voz mais grave”, afirma a pesquisadora. Essas mudanças podem ser percebidas após alguns meses de tratamento hormonal.

Por outro lado, quando se trata de pessoas transfemininas, o cenário ainda é de incerteza. “Ainda não é claro como a hormonização pode afetar a voz”, diz Akira. A ausência de respostas mais consolidadas revela uma urgência: produzir conhecimento que ajude a orientar práticas clínicas mais eficazes e sensíveis.

Falar de voz, nesse contexto, é falar de qualidade de vida. “A voz é fundamental para a comunicação humana. Ela nos representa como indivíduos e carrega diversas mensagens”, destaca. Para muitas pessoas trans e travestis, a chamada disforia vocal pode ser um fator de sofrimento cotidiano. A atuação fonoaudiológica, nesse caso, busca algo mais do que técnica: “promover uma voz que melhor represente cada indivíduo, proporcionando mais segurança, conforto e qualidade de vida”.

Entre as hipóteses do estudo, está a possibilidade de confirmar tendências já apontadas na literatura, como o agravamento da voz em pessoas transmasculinas, mas com a permanência de certos traços vocais associados socialmente ao feminino. Isso, segundo Akira, indicaria a importância do acompanhamento fonoaudiológico contínuo.

Já em relação às pessoas transfemininas, a expectativa é que a hormonização não produza efeitos significativos na voz, hipótese que ainda precisa ser testada. “É necessário comprovar por meio do estudo, verificando se elas se confirmam ou não”, pondera.

A inclusão de pessoas que não fazem hormonização é estratégica. “Os dados vocais desse recorte são muito importantes para comparação”, explica. A diversidade de participantes permitirá compreender com mais precisão o que, de fato, pode ser atribuído à hormonização.

Mais do que produzir dados acadêmicos, a pesquisa também oferece retorno direto a quem participa. Ao responder ao formulário, cada pessoa passa por uma avaliação vocal e recebe orientações sobre cuidados com a voz, um gesto que aproxima ciência e comunidade.

Para Akira, que também se apresenta como travesti, fonoaudióloga e pesquisadora, há uma dimensão política e afetiva no trabalho. Ampliar o conhecimento sobre a voz de pessoas trans e travestis é, também, ampliar possibilidades de existência com mais autonomia e reconhecimento.

SAIBA MAIS:
Akira Lima: uma voz trans na ciência potiguar
IBRAT lança pesquisa inédita sobre transmasculinidades no RN

Fonte: saibamais.jor.br

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