A desigualdade no trabalho doméstico e de cuidado no Brasil tem cor, gênero e começa cedo, é o que revela dados de uma pesquisa recente mostram que meninas entre 10 e 14 anos já dedicam mais tempo a essas atividades do que homens em qualquer faixa etária. Quando o recorte racial entra em cena, o cenário se torna ainda mais desigual, com mulheres negras concentrando a maior parte desse trabalho invisibilizado.
O levantamento integra o estudo “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”, desenvolvido pelas pesquisadoras Jordana Cristina de Jesus, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Simone Wajnman e Cássio M. Turra, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Mulheres negras são responsáveis por 44,2% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no país, embora representem cerca de 24,1% da população. Para Jordana, esse dado revela a sobreposição de desigualdades históricas:
“Porque a desigualdade não é só de gênero, ela também é racial. As mulheres negras acabam concentrando uma parte muito maior do trabalho de cuidado. Isso tem relação com a história do Brasil, com a desigualdade social e com o menor acesso a serviços de apoio”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais.
Os dados mostram que meninas de 10 a 14 anos já respondem por cerca de 2,4% de todo o trabalho de cuidado realizado no país, percentual equivalente ao pico de participação masculina, registrado apenas entre homens de 30 a 34 anos. Para Jordana, o resultado evidencia que a desigualdade é construída desde a infância.
“Foi um resultado muito impactante. A gente já sabia que as mulheres fazem mais trabalho de cuidado, mas ver que meninas de 10 a 14 anos já cuidam mais do que homens de qualquer idade é algo muito forte. Isso mostra que a desigualdade não começa na vida adulta, ela começa na infância. É ali que esse padrão já está sendo construído”, afirma.
Segundo a pesquisadora, a divisão desigual do cuidado é sustentada por processos sociais que naturalizam papéis de gênero desde muito cedo. “Por séculos a sociedade vem se organizando dessa forma: cuidar é uma habilidade feminina. Quando vemos meninas sendo treinadas desde novas para o trabalho doméstico, inclusive por meio de brinquedos, percebemos que não há nada de natural nisso. Elas são preparadas para cuidar, enquanto os meninos são preparados para receber cuidado”, explica.
A pesquisa indica que, no total, as mulheres realizam 79,7% de todo o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado no Brasil, enquanto os homens ficam com 20,3%. No entanto, essa desigualdade se aprofunda quando observada a partir da raça.
Ela destaca que, muitas vezes, essas mulheres acumulam jornadas duplas ou triplas. “Muitas vezes, elas cuidam dentro de casa e também trabalham cuidando de outras pessoas. Isso gera uma sobrecarga muito maior e reforça desigualdades ao longo da vida”, completa.
O estudo também mostra que a sobrecarga atinge seu ápice entre mulheres de 25 a 39 anos, fase em que elas concentram 25,6% de todo o trabalho de cuidado no país, apesar de representarem apenas 11,8% da população. Nesse período, muitas conciliam o cuidado com filhos, familiares e até parceiros, além do trabalho remunerado.
“A nossa pesquisa mostra que não apenas as mulheres cuidam de crianças, mas também cuidam de homens adultos. E isso acontece em um contexto em que o Estado ainda oferece poucas alternativas para compartilhar esse cuidado, especialmente no caso de crianças pequenas”, diz Jordana.
A ausência de políticas públicas, como a universalização de creches, impacta diretamente a vida das mulheres, especialmente das mais vulneráveis. Entre mulheres negras, uma em cada três dedica mais de 20 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado, o que limita o acesso ao mercado de trabalho e a oportunidades educacionais.
“O trabalho de cuidado tira tempo, e tempo é essencial para trabalhar, estudar e crescer profissionalmente. Isso gera um ciclo de desigualdade, com menos renda, menos autonomia e menos oportunidades”, pontua a pesquisadora.
Para ela, romper esse ciclo passa por reconhecer que o cuidado não é uma responsabilidade individual, mas uma questão social. “Durante muito tempo, o cuidado foi tratado como uma obrigação feminina, quase como parte da natureza das mulheres. Mas, na verdade, é uma divisão social do trabalho, construída historicamente”, afirma.
Os dados reforçam que, no Brasil, o trabalho que sustenta a vida cotidiana segue invisível, desigual e, sobretudo, marcado por gênero e raça.
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Meninas já fazem mais trabalho doméstico que homens adultos, aponta pesquisa
Fonte: saibamais.jor.br



