A música Brasília, de autoria de Sérgio Sampaio, integra o álbum Cruel, gravado em 1994, pouco antes de sua morte, e lançado posteriormente pela gravadora Saravá, com produção de Zeca Baleiro. Trata-se, portanto, de um disco póstumo. Na canção, o compositor descreve sua experiência com a cidade mantendo o tom de originalidade que o consagrou. Afirma o artista capixaba: “Posso dizer que começo a voar sossegado em seu avião e mesmo com o ar desse jeito tão seco consigo cantar no seu chão. Quase que me sinto em casa em meio a suas asas e “dáblius” e “eles” e eixos e ilhas.”
Após um estranhamento inicial diante do ordenamento urbano da capital federal, com uma asa espelhando a outra, letras e números, e a previsibilidade dos serviços nas quadras, minha experiência passou a ser atravessada pela gratidão dos encontros. Destaco a sensibilidade dos gestos das pessoas para comigo e os afetos tecidos em amorosidades, em risos fartos que ecoam de muitos lados, enquanto, em paralelo, busco contribuir daqui para a melhoria do mundo.
Por muitas vezes nesta cidade, a sorte me sorri e, nesta semana, ela veio em dobro. A vida se confirma na existência de pessoas que nos acessam lugares dentro da gente, reconectando-nos à dimensão do sensível. São presenças que nos fazem retornar a um tempo de delicadeza, ativando memórias de bonitezas e permitindo que sigamos nossas travessias mais firmes em nós mesmas(os), porque nos acedem por dentro.
Mesmo diante da multiplicidade de ofertas culturais nas grandes cidades, são raras as ocasiões em que um espetáculo consegue reunir o que há de mais bonito no país, reafirmando a diversidade e a pluralidade como valores artísticos e humanos. A parceria entre Fred Martins e Jaques Morelenbaum constitui um desses encontros singulares. Unidos para homenagear João Gilberto, escolheram um repertório de canções imortalizadas pela aparente simplicidade e pelo modo inconfundível do seu violão.
Homenagear João Gilberto é tarefa desafiadora, pela grandeza de sua obra e pela sofisticação de sua criação. Poucos artistas se autorizam a mergulhar nesse universo. Fred e Jaques o fazem com sensibilidade e excelência, oferecendo ao público um tributo esteticamente refinado e emocionalmente marcante. Trata-se de uma experiência de rara beleza, que exige tempo de decantação e se apresenta como vivência sensível.
O show se constrói em crescente intensidade. Eu, uma desafinada nata, encontro consolo na lembrança de que “no peito dos desafinados também bate um coração.” Assim, iniciaram a apresentação no Clube do Choro.
Bim Bom, composição autoral de João Gilberto do final dos anos cinquenta, marca a batida de violão que caracteriza a inventividade do artista e que diz “é só isso o meu baião e não tem mais nada, não. O meu coração pediu assim só”. A canção integra o repertório em fusão expressiva com o cello de Jacques. Ao longo do tempo, recebeu diversas releituras, incluindo a gravação no Carnegie Hall, em 1964; Astrud Gilberto, em Look to the Rainbow, em versão jazz; Stan Getz, em Big Band Bossa Nova; Baila Nova, com Laura Vall; Adriana Calcanhoto, acompanhada de crianças e percussão; além do álbum A Day in New York, com Ryuichi Sakamoto, Paula Morelenbaum e Jacques; e, mais recentemente, a versão de Céu, em 2021.
Insensatez, composição de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ganhou interpretação cuidadosa, com sonoridade das frases e tons que evidenciam ainda mais a delicadeza da canção: “Ah, meu coração, pede perdão usa só sinceridade.”
Você e eu, de Carlos Lyra, integra o repertório e é sucedida por O grande amor, presente na obra seminal da bossa nova interpretada por Stan Getz, João Gilberto e Tom Jobim.
Brigas nunca mais e Doralice marcam o momento em que Fred compartilha influências recebidas de seu pai, que escutava Dorival Caymmi, Nelson Cavaquinho e Cartola, referências que inspiraram a composição de O samba me diz.
A felicidade, de Tom e Vinícius, revela-se especialmente atual ao antecipar a reflexão do imperativo de ser feliz o que posteriormente Edgar Cabanas e Eva Illouz chamaram de Happycracia. Na sábia visão do poeta a “felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar voa tão leve mas tem a vida breve precisa que haja vento sem parar.”
Eu vim da Bahia e Coração vagabundo trazem a presença de Gilberto Gil e Caetano Veloso na travessia pela bossa nova. Vento bravo, de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro constitui um dos pontos altos do espetáculo. Particularmente, admiro quando artistas surpreendem e se afastam da obviedade, oferecendo ao público o inesperado. A canção representou a curva que conduziu a plateia partindo da obra de João Gilberto para o cancioneiro autoral de Fred, com delicadeza na transição da ambiência da bossa nova para suas composições.
O mergulho no universo autoral de Fred Martins incluiu Poema velho, Novamente, Por um fio, O samba me diz, A filha da porta-bandeira e Zona sul, quando cantou o seu amor ao Rio de Janeiro, um poema erótico para a paisagem fêmea da cidade que pariu o artista. Estas foram as escolhas que eles fizeram. Ficaram de fora depressa a vida passa, sem aviso, tempo afora, domingo e feriado, flores, perfeitamente, telefonema, hóspede do tempo, a paz que nasce, Saiko Dayo, dentre outras igualmente belas.
Aos pés da cruz, de Marino Pinto, gravada por João Gilberto no álbum Eu sei que vou te amar, em icônica apresentação ao vivo de 1995, também integra o repertório, assim como Pra machucar o coração, de Ary Barroso.
O espetáculo foi concluído com Wave. Sob aplausos de uma plateia em deslumbramento, os artistas retornaram ao palco com Se acaso você chegasse, de Lupicínio Rodrigues, reafirmando o samba como gênero estruturante da cultura brasileira, e encerraram com Chega de saudade, quando todas as pessoas somaram suas vozes em harmonia na canção que projetou o Brasil para o mundo.
Eu havia aprendido com Caetano Veloso que melhor do que silêncio, só João Gilberto. Depois desta experiência, bom mesmo é ter a alma habitada pela musicalidade de Fred e Jaques.
Na plateia estavam familiares e amigos de Fred Martins. De modo amável e sensível, ele cumprimentou as pessoas e cumprimos o combinado do encontro, por mim aguardado desde 1999. Foi um abraço-casa, transbordante de afetos comuns por Renato Braz, amigo querido desde o século passado, e por Breno Ruiz. Foi uma noite adorável, com técnica e estética que aguçam os sentidos. A poética de Fred Martins mobiliza um lugar bom e bonito nos nossos territórios existenciais. Eu sinto e isto é tudo.
Ouça esta playlist: Coluna Saiba Mais – Tributo a Fred Martins e Jaques Morelenbaum
Fonte: saibamais.jor.br



