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Atualizaçõesmoradora de Natal, Samara Martins mira Presidência

moradora de Natal, Samara Martins mira Presidência

Ela é mãe, trabalhadora da saúde, socialista e pré-candidata à presidência. Moradora de Natal, a mineira Samara Martins, 38, quer ser uma voz anticapitalista no Palácio do Planalto. Sua pré-candidatura foi lançada pela Unidade Popular (UP) em fevereiro, e desde então ela tem rodado o Brasil apresentando um programa de transformação radical da sociedade. E avisa, sem titubear: “não nos adianta melhorar o capitalismo”.

A Agência SAIBA MAIS conversou com Samara na Ocupação Palestina Livre, localizada próxima à Praça do Estudante, na Cidade Alta, em Natal. A ocupação é organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), entidade da qual ela própria já participou e é ligada à UP. A luta pela moradia deve ser um dos principais pontos de sua futura campanha, sem nunca perder o socialismo como norte estratégico. 

“A gente quer apresentar um programa socialista para o Brasil. Nós precisamos derrubar esse sistema capitalista que nos oprime tanto. A nossa falta de saúde, a falta de educação, a falta de moradia advém de um sistema, as opressões machistas e racistas advém de um sistema. E essa é a propaganda que a gente quer fazer, que nós precisamos avançar nesses direitos”, avisa.

Martins já foi candidata à vice-presidência em 2022, na chapa com Léo Péricles, e à vereadora de Natal em 2020. De origem humilde, filha de mãe professora e pai motorista, ela é convicta de que o atual sistema econômico precisa chegar ao fim.

Foto: Wildally Souza

“Não nos adianta melhorar o capitalismo, porque para ele existir precisa oprimir uma classe. Para uns terem muito, outros precisam ter nada ou muito pouco. Tem que passar fome, tem que não ter casa para morar. Estamos aqui na Ocupação do MLB, que é justamente pessoas que não têm onde morar, ou que moram de aluguel, pagando aluguéis cada vez mais caros, ou que moram de favor, ou moram todos juntos, várias famílias numa mesma casa. Então, isso advém de um sistema. Não é porque a gente se esforçou pouco, não é porque a gente não tem o dinheiro para poder comprar uma casa. É porque o sistema precisa que a gente viva mal para que alguns vivam muito bem.”

As últimas semanas têm sido um “corre”, descreve. Mãe de Luiz, 2, e de Luca, 6, ela tem aliado as tarefas partidárias com a maternidade e o trabalho. A pré-candidatura foi lançada em São Paulo em 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, e em Natal no dia 11, momentos de grande alegria e de agitação de um programa comunista junto à militância.

“Nós tivemos mais de mil pessoas da UP e de apoiadores nesse lançamento [em São Paulo]. Então, tem sido uma energia muito grande que me ajuda, porque sou trabalhadora do SUS, ainda não estou licenciada, então isso também aumenta o meu corre. Sou mãe de dois, então também tem uma jornadinha minha da maternidade. Então, alinhar tudo isso para poder garantir essas visitas tem sido um desafio”, diz.

A UP é um partido jovem, registrado em 2019 após uma intensa campanha envolvendo não só o MLB mas outros movimentos, como a União da Juventude Rebelião (UJR), o Movimento de Mulheres Olga Benário, Movimento Luta de Classes (MLC) e o Partido Comunista Revolucionário (PCR). Samara tem forte relação com todos esses grupos.

Nascida em Belo Horizonte, começou sua militância no movimento estudantil, participou do grêmio da sua escola e da Associação Metropolitana de Estudantes Secundaristas da Grande BH (AMES-BH). Veio para Natal para estudar Odontologia na UFRN e também integrou a direção da União Nacional dos Estudantes (UNE). Mais recentemente, também foi uma das fundadoras da Frente Negra Revolucionária. Hoje, é servidora pública concursada e trabalha como odontóloga na Prefeitura de Parnamirim. 

Mesmo com a estabilidade proporcionada pela carreira, Samara continua morando no bairro Planalto, zona Oeste de Natal. A região já viu surgir inúmeras ocupações do MLB; a mais famosa delas deu vida ao conjunto Leningrado. Ela vive no conjunto Emmanuel Bezerra, um desdobramento do Leningrado que homenageia o estudante potiguar morto pela ditadura e que foi militante do PCR. Apaixonada pelo SUS e militante pela saúde pública, luta contra a precarização dos serviços públicos e diz que continuar no Planalto a faz não sair da classe em que nasceu: a classe trabalhadora.

“Eu moro, desde que me mudei pra cá, no conjunto Emmanuel Bezerra, e acho que faz muito sentido com a minha perspectiva de vida, de classe, de luta. Então, nunca pensei em sair daquele lugar. É o Planalto, que inclusive é muito discriminado em Natal por ser uma periferia, que é a realidade da periferia de todo o Brasil. E também de viver os problemas que o nosso povo vive, de pegar ônibus, de passar os perrengues de posto de saúde. Por exemplo, eu uso o SUS, não tenho um plano de saúde, meus filhos estudam nas mesmas escolas que as pessoas do Planalto, no CMEI. Essa é a realidade do nosso povo e eu me considero da classe trabalhadora, então é com ela que eu tenho que me manter”, defende.

“Morar no Brasil é privilégio”, acredita Samara Martins

Na militância junto ao movimento sem-teto, a pré-candidata disse que entendeu que a luta coletiva precisa ser ligada com o povo pobre e com as periferias. O déficit habitacional, aponta Samara, é resultado de uma decisão orçamentária e do quanto é destinado para as áreas sociais. 

“Quando a gente discute, por exemplo, a moradia e o programa Minha Casa Minha Vida, a gente tem que discutir por que esse programa não é ampliado, ele não é avançado, ou que nesses últimos anos quase não se entregam casas populares”, reflete.

Martins diz que o programa do governo federal, dividido em três faixas conforme a renda familiar bruta mensal, quase não tem entregado construções na faixa 1, voltada à renda de até R$ 2.850,00. 

“Até tem algumas contratadas, mas não entregues, justamente porque há disputa do orçamento. Quem é privilegiado no orçamento? E a gente diz: hoje no nosso país, que é um país capitalista, quem é privilegiado no orçamento são as classes dominantes, as classes ricas, são os banqueiros, é o agronegócio. A gente tem para os setores sociais minúsculas parcelas do orçamento, enquanto para esses setores mais ricos, parcelas enormes”, denuncia.

Foto: Wildally Souza

Ela também é crítica ao pagamento dos juros da dívida pública e diz que o valor para pagar os juros, escoado do orçamento, poderia servir para custear melhor áreas como moradia, saúde e educação.

“Então essa é a denúncia que a gente faz. E aí o governo federal pode sim resolver o problema da moradia, que inclusive é uma questão constitucional. Está lá na Constituição que todo mundo deve ter moradia. E a moradia no sentido ampliado dela, que não é só ter uma casa lá no local jogado, ter todo o acesso aos serviços e etc. para significar moradia. Mas hoje nem isso nós temos. Morar no Brasil é privilégio. Alguns moram muito bem e outros não conseguem, vão passar uma vida inteira para conseguir ter uma casa”, afirma Samara Martins.

A atuação da Unidade Popular funciona por meio de núcleos: nas escolas, universidades, bairros, locais de trabalho, ocupações, etc. Vivendo cotidianamente próxima ao MLB, ela diz que as ocupações são uma experiência de poder popular.

“São as famílias nesses espaços que organizam toda aquela micro sociedade, de como funciona, de quais são as regras, de como vão fazer e decide tudo coletivamente. Então as ocupações ensinam para nós que é possível o povo estar no poder e nas decisões de tudo. E que no Brasil, no sentido mais macro, isso também poderia acontecer. Por que nós não somos consultados para as decisões que acontecem no nosso país?”, questiona.

Segundo a socialista, grande parte dos conjuntos habitacionais de Natal, conquistados pelo MLB e outros movimentos, surgiram a partir das ocupações. 

“Não foi a Prefeitura que organizou uma lista, que fez um censo para poder fazer. Foi com a luta do povo organizado. E uma família que consegue na luta a sua casa percebe o poder político que ela tem, apesar dela não ser um parlamentar, mas o poder político que ela tem, de mudar uma política pública de uma cidade, ou de um estado, ou de um país, para poder garantir um direito que é dela. Então, é poder popular. As ocupações são poder popular”, ratifica.

Unidade da esquerda

A UP vai para mais uma eleição com candidatura própria à presidência, assim como outros partidos da chamada esquerda radical. O PSTU lançou a pré-candidatura de Hertz Dias, e o PCB aposta em Edmilson Costa. Samara avalia que a Unidade Popular possui uma pauta e um programa de esquerda, e diz que a unidade deveria em torno desse programa. Por isso, é crítica à frente ampla formada por Lula e à governabilidade junto a partidos e parlamentares de centro e centro-direita. Só nos ministérios do governo federal, há nomes do PSD, MDB, União Brasil, PP e Republicanos. 

“Para nós não cabe unidade que não seja de esquerda, que caiba direita, que caiba golpista, que caiba inclusive fascistas em determinadas condições. Para nós isso não é a unidade da esquerda. Então quando nos perguntam por que não faz a unidade da esquerda? Porque tem que ser de esquerda. Então nós acreditamos que o nosso programa é um programa de esquerda. Então, a unidade deveria ser em torno desse programa, porque senão é só uma adesão, não é uma aliança, não é um acordo pensado. Então, no sentido programático, se for para discutir um programa de esquerda, nós temos abertura com todo mundo, mas nesses não cabem esses setores do agronegócio, dos banqueiros, não cabe esse tipo de pessoas ou de organizações”, aponta.

Outra avaliação da pré-candidata socialista é que os governos petistas possuem limitações por conta dos acordos com setores do Centrão e da direita. 

“Para nós, governabilidade se constrói com a organização do povo, porque quando o povo se organiza muda a posição do Congresso, do Senado, do presidente. Da mesma maneira, nós fomos pra rua pra poder dizer que nós éramos contra a PEC da blindagem, da bandidagem. E tava todo mundo já ‘não, tem que aprovar, tem que aprovar’. Foi o povo pra rua e disseram, não, vocês entenderam errado, nós não íamos aprovar isso de jeito nenhum. Derrubamos a PEC da blindagem. As mulheres foram para a rua para derrubar o PL do estupro e disseram ‘nós não vamos aceitar e foram para cima’, então a governabilidade não é feita com as lideranças parlamentares, ela é feita com as lideranças populares e essa é a aliança que a gente tem que fazer.”

Ela diz que é preciso mostrar à população brasileira que existe outra alternativa além dos principais nomes.

“Não só a extrema-direita ou a esquerda limitada no que dá para fazer, na governabilidade que dá para fazer, inclusive com a própria direita”, afirma.

Candidatura da UP vai combater a extrema-direita, diz Samara

Samara Martins rejeita a ideia de que mais uma candidatura da esquerda possa favorecer o outro lado.

“Não, a nossa candidatura vai combater a extrema-direita desmascarando o que eles defendem. Porque quando a esquerda se ausenta, eles é que vão dizer que defendem a saúde, eles que vão dizer que defendem a família, por exemplo, não aprovando contra a escala 6×1, ‘nós somos defensores da família, mas somos contra acabar com a escala 6×1’. Então, expor essas contradições e denunciar o que é”, afirma.

De acordo com a dirigente da UP, foi a ausência de políticas de esquerda que abriram caminho para Bolsonaro na presidência.

“Foram quatro anos do mandato dele, de morte, de violência, de um estímulo a um discurso de ódio contra as mulheres, contra negros, contra LGBTs. Então, essa ausência é que faz abrir espaço para a extrema-direita passar. Então, isso é uma questão extremamente importante que nós queremos também denunciar”.

Futuro socialista

Martins diz que sonha com um outro futuro, em que a vida seja vivida plenamente e que a sociedade socialista se torne realidade. Ao menos é o que ela espera para Luiz e Luca, seus dois filhos, que estiveram com ela no lançamento da pré-candidatura em Natal, no dia 11, logo depois de saírem da creche municipal ainda com a farda.

“Acho que essa é a luta das mães: o que nós vamos deixar para os nossos filhos. E nessa perspectiva política a gente quer deixar um mundo em que não haja violência, em que não haja discriminação, em que as crianças possam ser o que elas quiserem ser, sem ter que pensar se elas vão sofrer alguma violência, se elas vão sofrer alguma coisa na idade adulta. Então, eu gostaria de viver também nessa sociedade, mas deixar para o meu filho uma sociedade em que não haja divisão entre classes, entre quem é rico e quem é pobre, que todo mundo coma, que todo mundo more, que todo mundo seja de fato feliz e a felicidade tem a ver com a felicidade coletiva, e não uma felicidade individual. Que eles consigam, mas que toda a sociedade consiga, porque não dá para ser feliz você na sua casa e depois ter uma pessoa dormindo na porta da sua casa, uma pessoa que não vai comer todos os dias ou que não vai comer todas as refeições do dia”, reflete.

“Então eu espero e acredito que eles viverão nessa sociedade que a gente chama de socialista, em que as coisas são socializadas entre todo mundo e todo mundo viva plenamente feliz e não haja desigualdade entre homens e mulheres, entre pobres e ricos”, sonha.



Fonte: saibamais.jor.br

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