O reitor do IFRN, José Arnóbio, foi alvo de hostilidade na solenidade de conclusão dos cursos técnicos no campus Natal-Zona Norte, ocorrida no último sábado (28), ao fazer um discurso em defesa da expansão das unidades do Instituto Federal e citar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, ele foi vaiado, uma pessoa desligou por duas vezes o disjuntor da quadra para que a fala do reitor fosse interrompida, e um homem colocou o dedo em riste em sua direção.
No documento do discurso, Arnóbio afirmou que a expansão dos IF, especialmente nos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “permitiu levar escolas técnicas, laboratórios, pesquisa e formação crítica para onde antes só havia negação de direitos.”
“Não foi caridade. Foi justiça social. Foi a compreensão de que investir em educação profissional é investir em soberania nacional, em desenvolvimento regional e em democracia”, dizia um trecho.
O documento também falava que, durante décadas, o interior do país foi tratado com desdém pelo grande capital e por uma elite que não quer acabar com seus privilégios.
“Bertolt Brecht nos ajuda a compreender isso quando afirma que ‘chamam de violento o rio que tudo arrasta, mas não chamam violentas as margens que o comprimem’”, afirmou.
“O abandono histórico do interior e da periferia dos grandes centros urbanos foi uma dessas margens violentas. A interiorização da educação profissional veio como força capaz de romper esse bloqueio”, continuou.
A fala também incluiu um alerta de que não existe educação neutra, e defendeu a educação contra projetos de privatização.
“Por isso, defender a educação profissional pública é um ato de coragem política e resistência. É enfrentar projetos que tratam educação como gasto e não como investimento. É resistir a tentativas de sucateamento, privatização e desvalorização do ensino público”, afirmou.
À Agência SAIBA MAIS, José Arnóbio explicou que a quadra estava lotada, com 135 estudantes concluintes, cada um acompanhado por um padrinho. No início do discurso, ele condenou a violência contra a mulher e citou dados sobre feminicídio. Pouco depois, houve citação a Lula, ao falar sobre o aumento no número de campi dos Institutos Federais e a importância da educação. Foi aí que uma parte do público bateu palmas, e em resposta outra parcela vaiou. Nesse momento houve o primeiro desligamento do disjuntor.
“Quando voltou, comecei a fazer o discurso novamente e aí mais uma vez o disjuntor foi desligado. A gente ficou esperando, os alunos começaram a se dispersar, as famílias também e na verdade a solenidade não foi encerrada”, explica o reitor, que acredita ter lido somente até a segunda lauda.
Nos comentários de uma página no Instagram, um homem se identificou como o suposto responsável por desligar as luzes da quadra. Eliezer Rogério Cabral justificou a atitude afirmando que o reitor do IFRN estaria fazendo da solenidade um “palanque eleitoral político”.
“Não aguentei. Estava acompanhando a formatura da minha filha, me senti no dever de calar aquele reitor sem noção. Como eletrotécnico, fui procurar o quadro geral de distribuição de energia do local. Quando o encontrei, não pensei duas vezes, desliguei. Alguém tinha que parar aquele reitor, não vi outra forma. Deu certo!”, comentou.
O perfil de Eliezer na rede social era aberto e foi fechado após a repercussão do comentário.
Ainda segundo José Arnóbio, um outro homem, se dizendo pai de um aluno, ainda pôs o dedo em riste em sua direção dizendo que o dirigente do IFRN não poderia fazer aquilo e que teria acabado com a festa do filho dele. O reitor afirmou que não reagiu e, após a dispersão do público, saiu acompanhado de segurança por eventuais riscos à sua segurança.
O reitor foi alvo de perseguição no governo Bolsonaro. Ele concorreu ao cargo máximo da direção em 2019 e foi o mais votado, mas o Ministério da Educação (MEC) se recusou a dar posse ao reitor eleito com mais votos (48,25% dos votos válidos) e nomeou um interventor, o professor Josué Moreira, em 20 de abril de 2020. Arnóbio só tomou posse do cargo um ano depois do resultado da eleição. Em março do ano passado, o professor foi reconduzido ao cargo até 2028 após ser reeleito com 71,14% dos votos válidos na consulta realizada junto à comunidade acadêmica do IFRN e teve seu nome homologado pelo Conselho Superior (Consup) da instituição em setembro de 2024. A nomeação oficial para o mandato 2024-2028 foi publicada no Diário Oficial da União em dezembro do mesmo ano, já no governo Lula.
Expansão dos IF
Até 2002, o Brasil tinha 140 escolas técnicas. Em dezembro de 2008, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 11.892, que criou 38 institutos federais. Nos governos Lula e Dilma Rousseff ocorreu a maior expansão da história da rede federal, composta pelos institutos federais, pelos Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets), pelas escolas técnicas vinculadas às universidades e pelo Colégio Pedro II.
Entre 2005 e 2016, foram criados 422 campi — 214 no período de 2005 a 2010 e outros 208 entre 2011 e 2016. Nesse mesmo intervalo, outras 92 unidades foram entregues ou incorporadas à rede. Hoje, o sistema reúne 682 unidades e mais de 1,5 milhão de matrículas.
Saiba Mais: MEC autoriza o funcionamento de novos IFs no RN: Touros, São Miguel e Umarizal
Já na última semana, o Ministério da Educação autorizou o funcionamento de 38 novos campi de institutos federais no país, incluindo três no Rio Grande do Norte: Touros, São Miguel e Umarizal. A decisão abre caminho para que as unidades passem da fase de implantação física para a oferta efetiva de vagas. Com a nova autorização, o RN amplia uma estrutura que já conta com 26 unidades federais distribuídas em 20 cidades. Em Natal, seis institutos estão em atividade, entre eles o campus Natal Central, no Tirol, criado em 1909.
Com a incorporação das 38 unidades agora autorizadas, a rede passa a somar 724 unidades. Nos próximos exercícios orçamentários, esses campi deverão ser incluídos na matriz de financiamento das instituições.
Fonte: saibamais.jor.br




