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AtualizaçõesApolo de Nárnia

Apolo de Nárnia

“Dois olhinhos azuis me miravam curiosos de dentro do guarda-roupa.

Era um filho de Nárnia[1] que chegava.”

É assim que começa essa história…

Em um feriado de Dia de Finados, há exatos 10 anos 5 meses, voltando de viagem, me deparo com minha gata mais velha, uma bola de pelos brancos, gordinha e macia, chamada Andrômeda saindo do meu guarda-roupa de portas de correr.

Reclamei com ela:

– Mulher, quantas vezes eu vou dizer pra não entrar aí?!

Reclamação essa que fora ignorada tantas vezes quanto esta.

– Deve ter enchido os lençóis de pelos! – exclamei para mim mesma, enquanto me encaminhava para escancarar a porta e verificar o estrago… (Andrômeda tinha mania de se esconder na parte do guarda-roupa em que empilhava os lençóis.)

Para meu espanto, “Dois olhinhos azuis me miravam curiosos de dentro do guarda-roupa.” Um bebê felino frágil e pequenino de olhos azuis, de orelhas ainda coladinhas, um flan de coco com uma brilhante calda de caramelo derramada por cima, me encarava de forma curiosa e assustada. Apaixonei-me à primeira vista!

– Como assim? – me perguntei… Como que tem um gatinho filhote aqui? Andrômeda, grávida? Andrômeda, mãe? Como assim? Ela não sai de casa. E essa mistura de cores? Andrômeda roubou esse gato de alguma gata puérpera? Era ela a gata puérpera? E os outros filhotes? Ela só parira um? Isso é obra das deusas e dos deuses. Esse bebezinho veio de Nárnia. Andrômeda encontrou o portal. Ela acasalou com Aslan, só pode! “Era um filho de Nárnia que chegava.”  Eu sou avó!? Eu sou avó! Eu sou avóóóóóóó.

– Andrômedaaaaaaaaa!

Percebendo que eu estava fuçando o guarda-roupa, a gata correu na minha frente e pulou sobre o gatinho como se o estivesse protegendo. Começou a lambê-lo, a olhar pra mim e a miar. Parecia estar me dando algum tipo de explicação, ou apresentando-me a seu filho. Foram minhas leituras!

De repente, deitou-se enrodilhada… foi aí que presenciei a cena mais linda daquela noite: o pequeno filho de Nárnia, ainda dentro do seu portal de passagem, talvez sendo visto pelos dois mundos, buscando (sabedor) uma das tetas entumecidas de sua mamãe aninhava-se para o aleitamento.

Fiquei ali, estática. Sentei-me no chão, com a porta do móvel aberta, admirando aquela visão de paz, de amor e de magia que vislumbrava. Eu estava em estado de contemplação e de profunda ternura. Eu era avó de um serzinho mágico.

Naquela noite, enquanto dormia, senti quando Andrômeda pulou para cima da minha cama. Ela tinha essa mania de dormir perto do meu travesseiro. Mas, para minha surpresa, ela trazia seu rebento na boca. Assustada, liguei a luz do celular e entre grunhidos e esfregadas, ela se aninhou em mim, junto com seu bebê. Dormimos juntas! Ainda não havia me dado coragem de averiguar o sexo daquele infante que aparecera de forma tão surpreendente na minha vida.

Acordei com o sol iluminando o quarto, durmo de janelas (teladas) abertas. Um dos raios de sol ainda tímido banhava a criança felina que dormia abandonada ao meu lado. (Pra onde foi aquela gata? – fora minha primeira indignação, seguida de: – Ela confiou o bebê dela a mim! – enchi os olhos de lágrimas. Ela me entedia avó cuidadora, me confiava sua cria, ela me fazia parte de seu bando.)

Foi aí que tive a ideia de verificar o sexo do bebê banhado de sol… Era um menino, que naquela manhã trazia o astro rei para minha casa. Batizei-o imediatamente de Apolo. Apolo e sua carruagem de fogo, que não viera do Olimpo, mas de Nárnia, talvez pra combater esse nosso mundo gelado governado por tantos corações de gelo. (Essa memória me aquece até hoje!)

Vi o menino Apolo crescer rápido (gatos crescem muito rápido); vi seu treinamento de gato jovem dado pelo seu tio Zeus, tenho cenas gravadas. Vi seus olhos azuis ficarem esverdeados. Vi a formação de sua personalidade forte e ranzinza, a construção dos seus miados de protesto e reclamação, sua postura de indiferença diante de tudo aquilo para o qual você (permitam-me a troca de interlocutor) não dava a mínima.

Vi você pedir colo, dormir sobre mim até me babar e se enjoar e sair sem dar um obrigado; vi você colecionar seus brinquedos favoritos: bolinhas de pelo que fazia depois de escovar toda a tribo; vi você cuidar de seus tios e tias e irmãos e irmãs com tantos lambeijos e aninhamentos. Vi você receber cada um dos novos resgatados como um grande pai. Você tinha porte de responsável, apesar de autoritário. Todos e todas respeitavam o Apolo de Nárnia. Sua voz era ouvida nesta casa, até por mim que precisava responder às suas reclamações.

Vi você crescer por 10 anos e 5 meses, e ser o líder da gataria, assim como vi você definhar e partir em pouco mais de 10 dias. Ontem quando te visitei na internação, você reclamou tanto. Acho que você queria ter voltado para casa comigo, mas eu não podia, eu precisava de dar a chance de vencer, de se curar, de ficar bem para voltar pleno. Eu precisava acreditar que você sairia dessa, afinal, você nunca ficou dodói, nunca esboçou fragilidade alguma.

Hoje, quando acordei e antes mesmo de receber a ligação da veterinária, já havia percebido que o sol estava sem forças, que o dia nascia fraco, como se estivesse recolhendo os raios de sol em vez de expandi-los. O dia estava recolhendo e acolhendo você. Era isso! Meu Apolo e sua carruagem de fogo partiam.

Hoje você atravessou o guarda-roupa de volta a Nárnia, hoje você voltou para seu pai Aslan. Hoje os céus derramarem lágrimas sobre a terra que guardará seu pequeno e frágil corpo feito de flan de coco com uma brilhante calda de caramelo derramada por cima…

“Dois olhinhos azuis me miravam curiosos de dentro do guarda-roupa.

Era um filho de Nárnia que chegava.”

E é assim que termina essa história…

Era um filho de Nárnia que partia…


[1] Nome do universo encantado criado por C. S. Lewis para a obra “As Crônicas de Nárnia” publicado primeiramente em inglês entre os anos de 1950 e 1956.

Fonte: saibamais.jor.br

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