O criador da Cervejaria Resistência, Anderson de Souza Barra, anunciou em vídeo publicado nas redes sociais que o espaço que se tornou uma referência cultural, política e foi reconhecido como entidade de utilidade pública estadual, no final de julho do ano passado, realizará seu último encontro físico na noite deste sábado (11) em Natal. “Quem tem alguma lembrança da Resistência, que a guarde com carinho. Depois de 8 anos, a nossa história precisará ser reescrita”, afirma.
“É hora da Resistência sair de cena. Hoje será nosso derradeiro encontro neste espaço físico que sempre foi cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor e, claro, muita cerveja pra comemorar. Mas partiremos sem dizer adeus, na certeza de que a Resistência vai permanecer viva nos corações e mentes de todos que de alguma forma fizeram parte dessa história de luta. Obrigado por estarmos juntos há mais de 8 anos nessa luta”, diz ele no vídeo de despedida publicado no perfil da cervejaria.
Na publicação, Anderson resgata o histórico da cervejaria, que se transformou em um tradicional ponto de concentração da esquerda natalense, sediando debates, reuniões e palestras para discutir temas da atualidade sob a perspectiva progressista – além de promover encontros para festejar a vida com muita cerveja artesanal, apesar dos dissabores dos “tempos de cólera” recentemente enfrentados pelo Brasil.
“A produção de cervejas de luta sempre foi um pretexto para justificar a existência de um sentimento superior de fraternidade, de apoio mútuo, de confiança, de parceria e de cumplicidade, que caracterizaram a forma leal e solidária de convívio na Casa da Resistência”, afirma Anderson.
Ele relembra com emoção que nem mesmo a “inesperada e indesejada pandemia” da Covid-19 apagou a “chama revolucionária” do local.
“Construímos uma Comuna da Resistência para que todos pudessem enfrentar aquele momento nefasto na companhia de porções ideais daquele sonho que já não se podia definir”.
Cervejaria resistiu à pandemia, mas não ao fogo
Apesar de ter resistido à pandemia que devastou o mundo inteiro, a cervejaria passou a enfrentar dificuldades financeiras sérias após ser atingida por um incêndio ocorrido em uma fria madrugada no final de junho de 2023.
“Quando o fogo, literalmente, nos atingiu, muitas mãos se estenderam, pois, como dizia o poeta, nossos companheiros estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças”.
Ele disse que “o momento presente pede que encaremos a enorme realidade”, que “nos mostra que, para além de salvar o país, impedir o fim do mundo e o avanço do fascismo, é preciso pagar as dívidas”. “É hora da Resistência sair de cena”, lamenta.
“Foram muitas emoções vividas juntos em muito pouco tempo… amores em tempos de cólera, noites sem fim pra lá de um certo quintal, saraus inacreditáveis com cervejas que nunca existiram, campanhas solidárias para segurarmos nossas mãos na escuridão assustadora, cinemas revolucionários que lembravam que sonhar sempre foi possível, copa do mundo com narração e comentários com nossa voz, reuniões políticas para debater nossas posições ideológicas, palestras com a presença de companheiros e companheiras de luta, lançamentos de muitas cervejas experimentais com rótulos progressistas, tudo isso sem contar os shows históricos de artistas locais e internacionais”, rememora.
Fundador recebeu título de cidadão natalense

Em junho de 2024, Anderson recebeu o título de cidadão natalense, concedido pela Câmara Municipal, através de iniciativa do vereador Daniel Valença (PT).
Nascido em Belém (PA) e formado em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Anderson mudou-se com sua companheira e os dois filhos mais velhos para Natal em 2008. Já o filho caçula nasceu na capital potiguar em 2011.
Depois de sofrer um AVC em decorrência de um aneurisma cerebral em 2017, resolveu “recalcular a rota” diminuindo a atuação na advocacia e matriculou-se na Escola Superior de Cerveja e Malte de Blumenau (SC), onde passou uma temporada aprendendo a produzir cerveja artesanal.
Em 2018, passou a produzir as cervejas Resistência, com rótulos homenageando movimentos sociais e pessoas de luta, abrindo sua casa para reuniões da militância de movimentos sociais, eventos culturais, saraus literários e cine clubes.

“Eu sempre fui militante de esquerda e, quando percebi que o meio cervejeiro era predominantemente conservador, fui tomado pela necessidade de transformar minha pequena produção em mais uma bandeira de luta”, conta ele.
Em 2022, o negócio saiu de sua casa e se tornou a Cervejaria Resistência, instalada na Rua Leonora Armstrong, 35, no bairro de Ponta Negra, Zona Sul de Natal.
Desde então, o espaço se tornou local de grande movimentação artística, cultural e política, com apresentação de artistas locais que vão do forró ao samba, passando pelo blues e pelo rock, com cerveja artesanal de alta qualidade.
Entre os nomes mais conhecidos que participaram de debates políticos no espaço estão o do dirigente nacional do MST, João Pedro Stédile, o jornalista Breno Altman e Guilherme Estrella, considerado o “pai do pré-sal”, entre outros.
Em julho de 2025, o espaço ganhou reconhecimento com o título de utilidade pública estadual por sua contribuição à arte, cultura e educação, proposto através de lei de autoria do deputado estadual Francisco do PT, sancionada pela governadora Fátima Bezerra (PT).
Fonte: saibamais.jor.br




