spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
AtualizaçõesDeclínio democrático e expansão das autocracias: uma análise recente

Declínio democrático e expansão das autocracias: uma análise recente

O instituto sueco V-Dem (Varieties of democracy) do Departamento de Ciência Política da Universidade de Gotemburgo, coordenado pelo cientista político Staffan I. Lindberg, tem constatado, com base em um conjunto gigantesco de dados (mais de 32 milhões) de 202 países e territórios, e com a participação de mais de 4.200 pesquisadores e especialistas de 186 países, que há, em curso no mundo, um processo de autocratização. 

O V-Dem publica, no início da cada ano, relatórios com dados do ano anterior. No relatório de 2024, uma das principais constatações foi a de que as democracias estavam no nível mais baixo em 50 anos e que havia “uma verdadeira vaga global de autocratização no qual a Europa do Leste, a Ásia do Sul e Central registram um declínio particularmente acentuado”. Além disso, pela primeira vez em 20 anos o mundo passou a ter menos democracia do que autocracias: 72% da população mundial vive em  regimes autocráticos, o nível mais elevado desde 1978. Ao todo,  45 países estavam em processo de autocratização e 19 em processo de democratização, entre eles, o Brasil. Havia 92 autocracias e 87 democracias. Como destaca o relatório: “Nunca houve tantos países se autocratizando ao mesmo tempo como nos últimos anos”. 

Em março de 2026, foi publicado um novo relatório, com 52 páginas, intitulado  Unraveling the Democratic Era?(Desvendando a era democrática?) dividido em cinco capítulos: Democracy In the World 2025; Trends of Regime Transformation; Autocratizing Countries; Democratizing Countries; e In Focus: Autocratization in the USA. 

Os dados revelam que a democracia enfrenta os mesmos desafios já identificados em relatórios anteriores: o crescimento das autocracias, que englobam a maior parte da população mundial. 

Segundo o  relatório, a proporção da população mundial vivendo em autocracias passou de 72% em 2023  para 74% da população mundial em 2025 (cerca de 6 bilhões de pessoas) e apenas 7% da população (aproximadamente 0,6 bilhão) vive em democracias liberais. 

A constatação é que há um declínio global da democracia. A expansão de liberdades e direitos alcançada com a chamada “terceira onda de democratização,” iniciada em 1974 com a Revolução dos Cravos, em Portugal, foi, em grande medida, revertida. Como aponta o relatório, várias grandes potências globais e regionais, incluindo agora os Estados Unidos, estão passando (ou passaram recentemente) por declínios democráticos significativos, “ampliando as implicações globais dessa terceira onda de autocratização”.

Os dados de 2025 mostram que o nível de democracia na Europa Ocidental e América do Norte continua  no ponto mais baixo em mais de 50 anos, com destaque a autocratização em curso nos Estados Unidos desde a posse de Donald Trump, em 2025. Conforme o relatório, a terceira onda de autocratização está se aprofundando e se espalhando, tendo recentemente alcançado um dos principais bastiões democráticos: os Estados Unidos da América.  Há um processo de erosão dos direitos civis e das liberdades, além do enfraquecimento dos mecanismos institucionais de controle.

Em relação aos Estados Unidos, o relatório afirma que “o atual governo tem minado os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio, politizando o funcionalismo público e os órgãos de fiscalização, e intimidado o Judiciário, além de atacar a imprensa, a academia, as liberdades civis e as vozes dissidentes”. Nesse sentido, os EUA perdem seu status de democracia liberal pela primeira vez em mais de 50 anos. 

O relatório aponta que a autocratização tornou-se um fenômeno global. Todas as regiões registraram declínios democráticos nos últimos 20 anos. Em 2025, eram 44 países  nessa condição, sendo que a Europa Ocidental e a América do Norte apresentaram a queda mais acentuada. Além disso,  10 novos países entraram nessa lista, entre eles, Croácia, Itália, Eslováquia, Eslovênia e Reino Unido.

Considerando o período entre 2000 e 2025, quase todos os aspectos da democracia apresentam quedas significativas na última década,  o que revela “uma reversão dramática em relação a 25 anos atrás”. A liberdade de expressão é uma das áreas mais afetadas, com o aumento da censura à mídia como tática mais comum, repressão à sociedade civil  e  uso crescente da tortura como forma de repressão política, com a deterioração significativa em 33 países. 

Desde 2010, o relatório identifica um cenário de estagnação democrática. Apenas 18 países estão se democratizando, número reduzido frente ao total global, e apenas três iniciaram esse processo em 2025. 

Sobre os Estados Unidos, ao relatório destaca que o segundo mandato de Donald Trump é marcado por forte concentração de poder no Executivo  e diversos retrocessos democráticos. 

Como afirma Gisele Agnelli no livro Autocracia made in USA: o declínio da democracia nos EUA visto de dentro de Gisele Agnelli (Curitiba, Kotter Editorial, 2025), “Se os pesos e contrapesos não foram reafirmados rapidamente, os EUA podem deixar de ser um caso clássico de erosão democrática para se tornarem um experimento explícito de autocracia dentro do sistema presidencialista”. 

No entanto, os retrocessos democráticos não se restringem aos Estados Unidos. Há sinais semelhantes em diversos países, com quedas acentuadas  em  direitos civis, igualdade perante a lei e liberdade de expressão, além de impactos ainda mais intensos sobre os direitos das mulheres. Um relatório da ONU, publicado em março de 2025, aponta aumento da discriminação, fragilização das proteções jurídicas e redução de financiamentos de apoio às mulheres.

A deterioração também atinge a liberdade acadêmica e cultural em 41 países, incluindo Hungria, Indonésia, Nicarágua e Rússia. Há também processos relevantes de corrosão substancias da democracia  na Argentina, em  El Salvador e na  Nicarágua, além de regimes autoritários consolidados em diversos países.

Ao analisar a situação global em 2025, o relatório identifica três padrões principais: retrocessos democráticos em algumas democracias tradicionalmente estáveis,  redução do número total de democracias (o número de democracias caiu de 95 em 2016 para 87 em 2025) e o aumento das autocracias (82 em 2004 para 92 em 2025).

A síntese é clara: há um processo de reversão democrática em escala global, com aprofundamento de regimes autoritários e colapso de democracias recentes (países que haviam se democratizado no final do século XX e início do século XXI ). 

Em contraste com essa tendência, o Brasil apresenta uma reversão a partir de 2023, com melhora em indicadores democráticos e avanço no ranking global (O país que estava em 58º do ranking em 2022, e em 2025, diminuiu para 28º).O relatório tem um gráfico com uma lista 179 de países, classificados como democracias liberais, democracias eleitorais e autocracias eleitorais (o Brasil está entre as democracias eleitorais). Segundo seus critérios, na América do Sul, o Brasil está atrás apenas do Uruguai (13º) e Chile (16º). Os demais são: Colômbia (53º), Argentina (56º), Peru (63º), Equador (79º), Paraguai (83º), Bolívia (89º) e Venezuela (170º). (O Brasil está à frente também dos Estados Unidos, que é o 51º).

Na Europa Oriental, a democracia cresceu após o fim da Guerra Fria, mas vem apresentando declínio nas últimas décadas, especialmente em países mais populosos. Na Ásia Oriental e Pacífico, os níveis permanecem relativamente estáveis por país, mas em declínio quando considerados pela população.

Na África Subsaariana, os ganhos da democratização foram parcialmente revertidos, com aumento de golpes militares e aprofundamento de regimes autoritários. Na Ásia do Sul e Central, a situação é especialmente grave: os níveis de democracia retornaram a patamares semelhantes aos de 1976. O Oriente Médio e Norte da África continuam sendo a região menos democrática do mundo.

Por fim, o relatório conclui que  “o centro de gravidade” da governança global está se deslocando em direção ao autoritarismo. A democracia enfraquece em múltiplas dimensões, enquanto práticas autoritárias se tornam mais frequentes e institucionalizadas.

Este cenário é agravado pela fragilidade das instituições políticas, pela desconexão com demandas sociais e pelo uso intensivo das redes sociais para desinformação e mobilização antidemocrática.

Diante disso, as eleições de 2026 no Brasil assume papel decisivo para o futuro da democracia no país. 

Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Vice-governadoria ganha peso na corrida eleitoral do RN 

O xadrez político para a eleição no Rio Grande...

Ipea faz pesquisa para combater desinformação sobre políticas públicas 

Servidores públicos que ocupam cargo em comissão ou função...

Depois de 8 anos em Natal, Cervejaria Resistência anuncia “saída de cena”

O criador da Cervejaria Resistência, Anderson de Souza Barra,...

Apolo de Nárnia

“Dois olhinhos azuis me miravam curiosos de dentro do...

Natália critica vídeo feito por IA que incita violência contra mulheres do PT

A deputada federal Natália Bonavides criticou um vídeo feita...

A ressignificação do tédio na sociedade do cansaço

O cansaço figura entre as queixas mais recorrentes na...

Semurb forma grupo para analisar licenciamentos na Via Costeira

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb)...

projeto que vedava ações coercitivas contra ocupações é derrubado

A Câmara Municipal de Natal rejeitou um projeto da...