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AtualizaçõesEntre poesia e denúncia, Amém Ore firma lugar no rap nordestino

Entre poesia e denúncia, Amém Ore firma lugar no rap nordestino

Da sala de aula onde descobriu a potência das palavras até os palcos dos principais festivais do Rio Grande do Norte, a trajetória de Amém Ore é marcada por disciplina, construção coletiva e um compromisso claro com a denúncia social através da arte.

Nascido em Mãe Luíza, em Natal, ele desenvolveu desde cedo uma relação íntima com a leitura. “Desde que eu aprendi a ler, eu gostava muito de poesia. As rimas já me chamavam atenção antes mesmo dos 10 anos”, conta ele em entrevista à Agência Saiba Mais. O ponto de virada aconteceu ainda no ensino fundamental, a partir de uma atividade proposta por um professor de português. Os alunos deveriam escrever uma poesia inspirada em imagens da cidade. Amém tirou, sem ver, uma foto de Ponta Negra. O resultado foi o primeiro lugar em um concurso interno entre turmas. “Aquilo foi o gatilho. Eu descobri que conseguia.”

A experiência marcou o início de uma rotina intensa de escrita. Em 11 de março de 2013, data que hoje carrega tatuada no corpo, decidiu que passaria a escrever poesia de forma contínua. “Desde esse dia, eu não parei. Chegava a fazer cinco, seis poesias por dia.” Dois meses depois, em 27 de maio, começou a compor músicas. Até então, seu repertório musical passava por gêneros como pagode, pop e rock. O rap viria logo em seguida, já como linguagem escolhida para se expressar. “Quando eu conheci o rap, eu falei: ‘é isso aqui que eu consigo fazer’.”

As primeiras referências vieram de nomes como Projota, Emicida e Rashid, artistas que ajudaram a moldar sua escrita. “Eles me ajudaram muito a amadurecer minhas rimas.” Ainda assim, o processo inicial foi solitário. Durante cerca de cinco anos, Amém escreveu sem compartilhar suas produções publicamente. “Eu era muito tímido, muito calado. A poesia me fazia companhia.”

A virada para a vivência coletiva do hip hop aconteceu por volta de 2016, já em Extremoz, durante o ensino médio. Lá, conheceu outros jovens ligados ao rap, como Malvinas e integrantes do grupo que viria a se tornar o Real Piseiro. Juntos, formaram o trio 3.0 Norte e passaram a frequentar e organizar batalhas de rima e rodas de poesia. “Foi quando eu comecei a ter contato de rua com o hip hop. Não só ouvir, mas viver a cultura.”

Esses encontros deram origem a movimentos locais, como batalhas e rodas de slam, fortalecendo uma cena construída de forma independente. “A gente começou a interligar pessoas. Quando viu, já tinha uma banca com mais de dez pessoas fazendo rap.” Além de artista, Amém passou a atuar também na organização desses espaços, consolidando seu papel como agente cultural.

O nome artístico também carrega um processo simbólico. “Ori” surgiu a partir de um interesse por códigos e anagramas, representando “Orgulho, Raiva e Ego”. Já “Amém” foi incorporado pela força do significado da palavra. “Amém significa ‘que assim seja’. Eu gosto dessa afirmação.” A junção dos dois termos se consolidou nas redes sociais e acabou sendo adotada pelo público. “A galera começou a me chamar assim e ficou.”

A partir de 2020, ele inicia sua carreira solo com os lançamentos de “Ensaio”, “Family Friendly” e o EP “IRA – Insuficiência Respiratória Aguda”. Os trabalhos consolidam um estilo voltado à crítica social e à reflexão sobre a realidade periférica. “O rap tem um objetivo. Ele fala de amor, mas também denuncia. Veio da periferia para dar voz.”

Suas letras abordam temas como violência policial, insegurança alimentar, direito à terra e especulação imobiliária, especialmente em Mãe Luíza. “Eu vejo pouca gente falando sobre isso, então eu vou falar. Eu tenho pessoas que me ouvem, então vou usar isso para conscientizar.” A música “Necropolítica” é um dos exemplos dessa abordagem, trazendo reflexões sobre fome e desigualdade.

A consistência artística abriu espaço para apresentações em festivais como MADA e Festival do Sol. Para Amém, estar nesses palcos representa mais do que reconhecimento individual. “Não é só o Amém Ore que está ali. É um rapper potiguar, trans, da periferia. Existe uma responsabilidade muito grande nisso.” Ele destaca também a evolução de seus shows ao longo do tempo, que passaram de apresentações solo para performances com equipe, incluindo DJ, dançarino e backing vocal.

Ao longo da carreira, recebeu prêmios como o Linguagens Urbanas, em duas edições, e o Lelo Melodia de Poeta do Ano, além de homenagens institucionais. Mesmo assim, mantém uma visão crítica sobre o mercado musical atual. “Hoje, se você não investe, muitas vezes sua música não chega. Não é só sobre qualidade, virou uma mercadoria.”

Após cerca de três anos sem lançamentos nas plataformas de streaming, período que define como necessário para amadurecimento, ele retorna com novos projetos independentes. O processo incluiu aprender sobre distribuição digital, direitos autorais e estratégias de divulgação. “Hoje você precisa entender tudo: como lançar, como divulgar, como investir.” Agora, ele retoma o fôlego criativo com o lançamento do videoclipe-documentário “Clube da Humanidade”. Confira:

Paralelamente, Amém investe na formação em gastronomia, área que considera complementar à sua produção artística. “A comida também é cultura, também é identidade. E eu trago isso para as minhas músicas.” A escolha também está ligada à busca por estabilidade financeira. “A gente precisa se estruturar para conseguir investir no próprio sonho.”

Trangeneridade no hip hop

No campo das vivências pessoais, ele também reflete sobre sua trajetória como homem trans dentro do hip hop. Afirma ter sido acolhido, mas reconhece que essa não é a realidade de todos. “Eu fui respeitado, mas sei que muitas pessoas trans não passam por isso, principalmente mulheres trans e travestis.” Ele aponta a falta de representatividade como um dos principais desafios. “Muitas vezes eu sou o único homem trans no palco.”

Diante disso, prefere apostar na construção de soluções. “Em vez de só reclamar, eu penso em criar projetos, em dialogar, em ocupar espaços.” O objetivo, segundo ele, é ampliar a presença de artistas trans e fortalecer a diversidade dentro da cena.

Com mais de uma década de produção, Amém Ore segue articulando arte, território e política. Entre rimas, batalhas e projetos culturais, sua trajetória se consolida como uma expressão potente da cultura periférica de Natal, com o olhar voltado agora para novos territórios. “Natal eu já conquistei muita coisa. Agora é expandir, rodar o Brasil, levar essas mensagens para mais gente”, finaliza ele.


Esta reportagem faz parte da série Traquejo, da Agência Saiba Mais. O nome remete à habilidade de “se virar”, de encontrar experiências e seguir em movimento. A proposta é contar histórias de pessoas trans e travestis potiguares que, em contextos muitas vezes adversos, constroem seus próprios caminhos, criando estratégias e formas de fazer acontecer.

SAIBA MAIS:
Música e periferia: Vic Kabulosa e a força da Zona Norte na cena cultural
YO: da Ballroom à música, a construção de uma voz potiguar que ecoa
Akira Vasconcellos: juventude, política e e militância travesti em Natal
Geja: arte, política e performance na construção de uma drag no RN
De Areia Branca ao hip-hop: os versos potentes de Ale Du Black



Fonte: saibamais.jor.br

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