spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
AtualizaçõesProjeto usa dramaturgia para enfrentar conservadorismo e ampliar vozes LGBTQIAPN+

Projeto usa dramaturgia para enfrentar conservadorismo e ampliar vozes LGBTQIAPN+

O projeto “Por Trás do Palco” surge como um espaço de criação, escuta e afirmação. Realizado em Currais Novos, a iniciativa convida jovens a partir do ensino médio e adultos interessados em vivenciar o teatro a mergulharem em processos de escrita dramatúrgica, sem exigir experiência prévia.

Contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc no Rio Grande do Norte, o “Por Trás do Palco” se estrutura a partir de oficinas de dramaturgia, estudos de textos de autores potiguares da comunidade LGBTQIAPN+, encontros com artistas convidados e a criação de narrativas próprias pelos participantes. Ao final, o percurso resulta em uma mostra pública de leituras dramáticas, abrindo ao público as histórias que nasceram ao longo dos encontros.

À frente da iniciativa está a artista e agente territorial de cultura Vitória Mayrlla, que concebeu o projeto a partir de uma inquietação concreta: a ausência de estudos em dramaturgia na região.

Essa ausência é tão forte que, embora ocorram montagens, existem lacunas muito sérias na dramaturgia, especialmente na linha narrativa, que é fundamental para contar histórias”, explica ela em entrevista à Agência Saiba Mais.

O “Por Trás do Palco” acontece entre abril e maio de 2026, sempre aos sábados, das 14h às 17h30, na Biblioteca Municipal de Currais Novos. As inscrições estão abertas online, e a única exigência é o interesse em experimentar o teatro como espaço de criação e partilha.

Segundo ela, essa carência se agrava quando atravessada por temas considerados sensíveis.

Não dá para trabalhar essas questões de forma rasa. A proposta também surge como uma resposta a um contexto de conservadorismo e discriminação que temos enfrentado”, diz.

No Seridó, explica, ainda persiste uma lógica de aceitação condicionada.

Existe uma heteronormatividade compulsória. É como se dissessem: ‘tudo bem você ser quem é, mas não demonstre’. Mas a que custo? Da repressão? De não poder existir plenamente?

É nesse ponto que o projeto amplia seu alcance para além da formação artística. Ao trabalhar com dramaturgias de autores LGBTQIAPN+ do estado, a iniciativa cria pontes entre referências e novas vozes.

Trazemos dramaturgues do RN, principalmente da capital, mas também da região, e lemos fragmentos das obras. Depois, abrimos para discussão. Isso inspira quem está participando a escrever suas próprias histórias”, explica Vitória.

Metodologia

Os encontros seguem uma metodologia que começa no corpo. Jogos teatrais e práticas corporeovocais antecedem a leitura dos textos, preparando o grupo para uma experiência sensível e coletiva.

Depois da leitura e da conversa, cada pessoa escreve a partir do que dialoga com sua própria vivência”, conta.

Já no primeiro encontro, surgiram temas pouco explorados localmente.

“A dramaturgia sáfica, por exemplo, é muito difícil de encontrar aqui. E já apareceu uma cena com duas mulheres. É muito significativo.”

A construção coletiva também se reflete na articulação do projeto. Com uma equipe enxuta, a produção tem sido estratégica para ampliar o alcance da proposta no território. Vitória destaca a parceria com Beatriz Tito.

Ela tem formação em comunicação e também faz teatro. Isso amplia muito as formas de chegar nas pessoas, de dialogar com diferentes grupos e territórios.

Mais do que formar novos dramaturgos, o projeto aposta na transformação social por meio da arte.

Espero que os impactos sejam positivos, principalmente para a comunidade LGBTQIAPN+. Que possamos ser respeitados e que a sociedade compreenda que amar quem se ama é algo comum”, afirma.

Para ela, ainda é sintomático que, em 2026, o debate sobre direitos básicos siga urgente.

Não temos carros voadores, mas temos o aumento da LGBTfobia. O que há de errado em ser quem você é?

A expectativa também passa por fortalecer a cena cultural local. Ao estimular a escrita e o pensamento dramatúrgico, o projeto busca preencher lacunas históricas e incentivar novas produções.

Que surjam mais pessoas interessadas em fazer teatro e escrever com responsabilidade, criando histórias que possam virar montagens e dar voz a causas importantes.”

Nesse sentido, o apoio institucional é determinante. Vitória ressalta a importância de editais voltados especificamente para a comunidade LGBTQIAPN+.

Sabemos que existem crimes de ódio. Combater isso com arte é promover reflexão, não reproduzir violência. E é fundamental que essas propostas sejam conduzidas por pessoas que vivem essas experiências.

No fim das contas, o projeto parece partir de uma pergunta simples, mas ainda necessária: quem pode contar sua própria história? Em Currais Novos, a resposta começa a ser escrita em coletivo, entre vozes que se encontram e se reconhecem.

Serviço
Quando: até maio de 2026, aos sábados
Horário: 14h às 17h30
Local: Biblioteca Municipal de Currais Novos (RN)
Inscrições: formulário online



Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Projeto transforma álbuns de família em arquivo coletivo das periferias

Abrir um álbum de família é mais do que...

A lenda do basquete e a mão santa de Maria Cristina

Um tumor cerebral, diagnosticado e enfrentado há 15 anos,...

“Passa Tempo” estreia dia 20 e celebra memória e afeto

Há trabalhos que nascem no estúdio. Outros, antes disso,...

Álvaro Dias vira alvo de denúncia no TCE por engorda de Ponta Negra

Uma representação apresentada ao Tribunal de Contas do Rio...

Edital do transporte de Natal atrasa e prazo de Paulinho não se cumpre

Em 27 de março, o prefeito Paulinho Freire (União)...

Bruna Torres ensina como iniciar na escrita

A escritora e jornalista potiguar Bruna Torres, finalista do...

Imóvel histórico na Ribeira será reformado para abrigar Armazém do Campo

O Governo do Rio Grande do Norte avançou na...

Potiguar lenda do basquete, Oscar Schmidt morre aos 68 anos

O ex-jogador Oscar Schmidt, um dos maiores nomes do...

Título de cidadã natalense a Michelle Bolsonaro é aprovado; oposição vota contra

A Câmara Municipal de Natal aprovou nesta quarta-feira (15)...