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Atualizaçõesuma vida dedicada à luta travesti no RN

uma vida dedicada à luta travesti no RN

Amanda Ramos transformou a própria sobrevivência em militância e se tornou uma das pioneiras da organização política de travestis e mulheres trans no Rio Grande do Norte. Aos 51 anos, ela se define como traviarca e carrega no corpo e na memória a história de uma geração que precisou lutar primeiro para existir, depois para ser vista e, só então, para reivindicar direitos.

Amanda começou cedo. Ainda adolescente já percebia que sua vida seria marcada por enfrentamentos. “Teve um dia que eu botei um brinquinho, reclamaram. Botei outro, reclamaram. Uma semana depois, apareci com o namoradinho”, conta em entrevista à Agência Saiba Mais. A feminilidade, ainda em formação, já despertava censura, violência e vigilância. A transição veio junto com a puberdade, com a descoberta de si e, também, com a certeza de que não haveria acolhimento fácil, ainda nesse período foi expulsa de casa.

Na escola, ele se recorda como um espaço dificíl para o seu corpo: “Eu fui muito chacota no colégio.” O medo de usar o banheiro, por exemplo, lhe causou mais de 12 infecções urinárias. “Eu tinha vontade de ir no banheiro e não ia.” Hoje, já adulta, ela voltou a estudar por meio do Transcidadania e está no primeiro ano, retomando um percurso interrompido pela violência.

Foi ainda muito jovem, no fim dos anos 1980, que Amanda entrou para a militância. Naquele momento, falar em identidade trans ou travesti era praticamente impossível. “Não existia trans travesti, existia GLS [gays, lébicas e simpatizantes], mas nós éramos totalmente excluídas da sigla. Nós estávamos lá, mas não existíamos”, resume. O movimento organizado já tinha espaços e siglas, mas travestis e mulheres trans seguiam à margem, até mesmo dentro dos grupos que se propunham a defender diversidade.

Amanda integrou o pequeno grupo de oito mulheres que iniciou a militância trans e travesti no Rio Grande do Norte. Ao lado de nomes como Jaqueline Brasil, Carla Monique, ajudou a abrir caminho num cenário em que sequer havia espaço físico para reunião. Primeiro, tentaram se inserir nas estruturas já existentes, como o antigo GAP, organização LGBT de Natal. O acolhimento, porém, tinha limites bem definidos.

“Eles nos abraçaram, mas nós só servíamos para fazer a faxina da sede, limpar a sede. Não fazíamos outra coisa. Não tinha projeto para mulheres trans.” A crítica de Amanda expõe uma ferida antiga dentro do próprio movimento LGBT: enquanto homens gays avançavam em visibilidade, projetos e articulação política, travestis e mulheres trans continuavam relegadas à base, invisibilizadas até mesmo dentro da luta.

O começo da militância travesti potiguar

Foi dessa exclusão que nasceu a necessidade de autonomia. A resposta veio com a criação da Atrevida, primeira organização voltada especificamente para travestis e mulheres trans em Natal e no Rio Grande do Norte. Sem sede, sem recursos e sem estrutura, a ONG começou literalmente nas ruas. As reuniões aconteciam em espaços públicos, como a Praça do Baldo e outros pontos do centro da cidade.

Era também um tempo de repressão policial aberta. Amanda lembra com nitidez das perseguições constantes. “Tinha um delegado, Osmi Belmon, não esqueço nunca. Ele odiava a bandeira LGBT. Quem estava na rua, nos dias em que ele estava trabalhando, ia presa.” A violência institucional era rotina. Bastava estar na rua, conversando ou circulando perto de boates, para ser levada à delegacia. “Eu corria para o jardim da Catedral e ficava lá dentro, as formigas me comendo. Preferia que as formigas me comessem do que ir para a cadeia.”

A brutalidade do período convivia com a urgência de construir redes de cuidado. Aos poucos, com arrecadações, festas e esforço coletivo, a Atrevida conseguiu alugar uma sede e estruturar ações. Foi nesse contexto que surgiu o Esquina Potiguar, primeiro projeto voltado especificamente para travestis e mulheres trans no estado.

Desenvolvido em parceria com a saúde pública municipal, o projeto levava preservativos, camisinhas e insumos de prevenção para pontos de prostituição onde atuavam as travestis. A iniciativa tinha um peso simbólico e político importante: colocava essa população no centro de uma política pública de saúde, em um momento em que o estigma da aids recaía violentamente sobre corpos LGBTQAPN+, especialmente os corpos trans.

“Diziam que a aids era coisa da gente, que a gente carregava a aids. Então tinha que começar por nós essa prevenção.” O Esquina Potiguar rompeu o silêncio e obrigou a cidade a olhar para aquelas mulheres. “A mídia teve que engolir e falar com as meninas trans”, lembra Amanda. Pela primeira vez, travestis e mulheres trans deixavam de aparecer apenas como alvo de estigma ou repressão e passavam a ser reconhecidas como sujeitos políticos e agentes de prevenção.

Mas a visibilidade também veio acompanhada de novos traumas. Amanda recorda um período de assassinatos sucessivos de travestis e mulheres trans em Natal. “Toda semana, todos os dias, aparecia uma ou duas.” A escalada da violência expôs com brutalidade o risco permanente de existir sendo trans no Brasil, um país que segue liderando rankings globais de assassinatos de pessoas trans.

Nos anos 2000, Amanda se afastou da militância organizada. Foi para a Europa, viveu em três países e passou um período distante da atuação política no estado. A travessia internacional lhe trouxe novas referências, repertórios e experiências. Quando voltou ao Brasil, retornou também à militância, agora em outro momento da vida e com outra bagagem:

“Volto da Europa com muitas informações e começo a me sentir só novamente. E eu digo: não quero isso, eu quero militar, porque essa é a minha vida.” O reencontro com Rebeca de França, atual coordenadora de diversidade do Estado, marcou seu retorno à organização política, desta vez na ONG ATTRANSPARÊNCIA. Amanda entrou inicialmente pela via que mais a atraía, a arte.

Participava de eventos, apresentações, festas e ações de arrecadação. Fez do corpo e da presença ferramentas políticas. Desfilou, performou, participou de escolas de samba, de festas e de eventos culturais. Passou por agremiações como Imperatriz Alecrinense, Balanço do Morro e outras escolas e blocos do carnaval potiguar. “Eu queria fazer a parte artística dos eventos”, conta. Mais tarde, assumiria também funções de coordenadora.

Imagem: cedida

Uma pespectiva de envelhecer bem para as travestis

Hoje, Amanda é coordenadora executiva e segue articulando novas frentes de atuação. Entre elas, uma das mais urgentes, ela cita o envelhecimento de travestis e mulheres trans.

A iniciativa nasce de uma constatação dura: no país que mais mata pessoas trans, envelhecer também é um privilégio. E, para quem consegue chegar à velhice, o abandono costuma ser regra. “Tem trans que não tem onde morar, não tem o que comer, não vai ao posto de saúde, não é vista com bons olhos.”

Amanda insiste que o debate sobre envelhecimento trans precisa entrar no centro das políticas públicas. Não apenas como assistência, mas como reparação histórica. “O Brasil deveria ter uma reparação de bem viver. Aposentar essas mulheres. No começo de tudo, foram expulsas de casa, não tiveram trabalho, não tiveram escola. Estamos envelhecendo.”

A defesa não é abstrata. Amanda fala de uma geração empurrada para fora de casa, da escola, do mercado formal e da cidadania. Mulheres que envelhecem depois de uma vida inteira de expulsões. “A vida não foi fácil para elas. Então o que sobra é isso. Que o que sobra venha melhor.”

A própria trajetória de Amanda atravessa essa lógica. Expulsa de casa, empurrada à margem, sem acesso a trabalho digno, ela encontrou na sobrevivência e no ofício de cabeleireira uma forma de sustento. “O que me restou foi ser cabeleireira. Não vou dizer que sou a melhor, mas foi o que me manteve, foi o que me segurou até hoje.”

Para Amanda, a luta nunca foi apenas sobre identidade. Foi, antes de tudo, sobre humanidade. “Essa é uma das causas que me fez me sentir mais pessoa, mais gente, mais ser humano.”

A história de Amanda Ramos se confunde com a história da militância trans e travesti no Rio Grande do Norte. É a trajetória de quem ajudou a construir, do zero, uma rede de luta onde antes só havia exclusão. De quem enfrentou a polícia, a fome, a rua, o abandono e o apagamento para garantir que outras pudessem existir com menos dor.

Mais de três décadas depois de começar, Amanda continua. Não porque a luta tenha ficado mais fácil, mas porque ainda há muito por fazer. “Eu queria tanto ver todas bem, ver todas felizes”, diz. É essa vontade, simples e radical, que segue movendo sua militância, a de garantir que viver, para travestis, deixe de ser apenas resistência e possa enfim se tornar um direito pleno.


Esta reportagem faz parte da série Traquejo, da Agência Saiba Mais. O nome remete à habilidade de “se virar”, de encontrar experiências e seguir em movimento. A proposta é contar histórias de pessoas trans e travestis potiguares que, em contextos muitas vezes adversos, constroem seus próprios caminhos, criando estratégias e formas de fazer acontecer.

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Fonte: saibamais.jor.br

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