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AtualizaçõesPelo que você vive ?

Pelo que você vive ?

Esses dias, estava assistindo a um filme sueco na Netflix chamado “Meu Nome É Agneta”. A história trata de uma mulher de 49 anos que vive em um casamento sem entusiasmo, com um cara que procura preencher seu tempo com atividades que não incluem a esposa. O trabalho não é mais empolgante. Ela segue uma rotina morna, sem alegrias ou desafios. Mas, quando chega à noite, e aproveitando que o casal dorme em quartos separados, Agneta come seus queijos franceses e se diverte pesquisando lugares e comidas que sonha conhecer.

Recém-demitida e aproveitando uma noite de embriaguez, ela resolve responder a um anúncio de um jornal francês que procura uma cuidadora para Einar. Apesar da suposta preocupação do marido, seguida de profundo desdém — alegando que sua esposa jamais conseguiria se virar sozinha em outro país —, ela decide se aventurar. Chegando lá, descobre que Einar não é uma criança, mas um idoso gay. O desenrolar desse filme lindo você vai precisar assistir, mas, entre um diálogo e outro, uma pergunta de Einar para Agneta me chamou a atenção: “Pelo que você vive?”. Essa pergunta ficou ecoando na minha cabeça, e eu tentei respondê-la também.

Certa vez, em uma consulta com meu psicólogo, ele perguntou: “Por que você corre tanto? Você já realizou vários projetos na vida que eram seu sonho. Por que corre tanto?”. Parece que a vida gosta de, vez ou outra, nos colocar no centro da encruzilhada para que possamos repensar nossas escolhas e sonhos. Na lógica colonialista, precisamos estudar para ter um bom emprego, adquirir bens, casar, ter filhos e deixar a herança para eles. Não vejo muita emoção nisso. Einar falava em cores, em uma vida com sons e cores. Estudar é importante. Adquirir bens e ter uma vida digna também são importantes, mas e o que mais? A vida não pode ser só isso. Pelo que exatamente você estuda? Por que precisa de determinados bens?

Vou falar por mim, para ver se lhe motivo a pensar. Eu sempre tive ódio da escola. Estudava porque era o jeito, mas, quando minha mãe morreu, ouvi do meu tio: “Vamos para Fortaleza com a gente. Você perde esse ano. Não tem problema”. Eu fiquei e concluí os estudos. Fiz isso por ela. Repetia para mim mesma que isso era importante para ela. Quando me descobri negra, estudei para entender quem eu era e de onde eu vinha. A filósofa afro-americana Marimba Ani diz que “nossa cultura é o nosso sistema imunológico”. Fazer esse movimento de sankofa — voltar e pegar no passado o que foi esquecido — foi fundamental para que eu me tornasse a pessoa que sou hoje e sustentasse meus passos.

Quando engravidei, em uma relação nem tão estável de poucos anos, ao sentir o desejo da maternidade, pensei: “Eu dou conta de ter uma filha sozinha? Sim!”. Assim o fiz — e acabei dando conta. A maternidade atípica nem sempre foi fácil e, por muitas vezes, odiei a tarefa de ser mãe. Mas Giovana Maria (Sol) foi meu divisor de águas. Ela me ensinou a ser um ser humano melhor e, com o tempo, se tornou minha melhor amiga. No filme, ao ser questionada, Agneta diz: “Vivo pelos meus filhos”, e Einar responde: “Que responsabilidade horrível jogar isso nas costas dos seus filhos”. E, quando eles seguem suas próprias vidas, como é o caso dela, o que nos resta? Gigi já está com 17 anos. Logo ela ganha o mundo — e pelo que eu vivo?

Tornei-me professora. Dar aulas é a coisa que mais amo fazer na vida. Escolhi a educação porque reunia tudo o que amo: literatura, teatro, música, História. Cursei Pedagogia. Não precisaria escolher entre uma área e outra. Passei anos com boas intenções, mas com uma prática pouco voltada para a emancipação das crianças — mas isso fica para outro momento. Estudando, mudei o rumo do barco. Sei que faço a diferença na vida de muita gente, mas pelo que eu vivo?

Entende? A questão não é a serventia que eu tenho para o mundo. Eu não quero ser útil. Quero ser eu. Quando comecei a me sentir cobrada por sustentar uma imagem de mulher empoderada, gorda, tatuada, careca e de axé, ouvi a Pombagira questionar, gargalhando: “Mas quem foi que te pediu isso? Foi você que escolheu fazê-lo”. Fiquei sem chão. As escolhas que eu tinha feito até ali eram mesmo sobre mim ou sobre contrariar um padrão?

Agneta cobria o corpo com medo de julgamentos até que Einar a convence a sair e experimentar tudo o que quisesse, sem desculpas — afinal, ninguém liga. As pessoas estão mais preocupadas consigo mesmas: ou se admirando narcisicamente, ou odiando suas vidas e lamentando. Ninguém está nem aí para as outras. Minha mãe se achava magra demais e, por causa disso, nunca foi à praia conosco aos domingos. Morreu aos 38 anos.

Temo que, infelizmente, seja necessário terminar este texto sem uma resposta para a pergunta que o inaugura. Afinal, essa pergunta, ainda que mude de forma, já me persegue há algum tempo sem resposta. Como responder a isso sem a influência do capitalismo, do cristianismo, do romantismo? Alguém escapa?

Seja como for, de uma coisa eu tenho certeza: não vou deixar de viver minha vida e experimentar novos desafios por medo de falhar ou medo do julgamento alheio. Mas e você, pelo que vive?

Fonte: saibamais.jor.br

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