spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
AtualizaçõesBrasil vai às ruas contra a anistia e denuncia Congresso aliado da...

Brasil vai às ruas contra a anistia e denuncia Congresso aliado da impunidade

As ruas do Brasil voltaram a ser ocupadas neste domingo. De Natal a São Paulo, do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, atos simultâneos reuniram milhares de pessoas em defesa da democracia e contra qualquer forma de anistia a quem atentou contra o Estado Democrático de Direito. A palavra de ordem que ecoa de Norte a Sul do país é direta e carrega um sentido histórico profundo: sem anistia para golpistas.

As mobilizações respondem à aprovação, na Câmara dos Deputados, do chamado PL da Dosimetria, projeto que altera as regras de cálculo e cumprimento de penas para crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. Embora apresentado como uma mudança técnica, o texto é percebido por amplos setores da sociedade como uma tentativa de reduzir a responsabilização pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 e, por isso, como uma anistia disfarçada.

Mas o que está em jogo nas ruas vai além de um projeto de lei. Ao dizer “sem anistia”, os manifestantes acionam uma memória coletiva marcada por impunidade, silêncios impostos e acordos políticos que historicamente pouparam os responsáveis por crimes contra a democracia. Trata-se de uma recusa explícita a repetir o passado e de uma disputa aberta sobre qual democracia o Brasil pretende sustentar no presente.

Quando se diz “sem anistia”, o que está sendo afirmado é a recusa a um velho mecanismo da política brasileira: o da conciliação feita às custas da justiça, da memória e da responsabilização. Trata-se de um posicionamento que nasce da experiência histórica concreta de um país que nunca enfrentou, de fato, os crimes cometidos contra sua própria democracia.

A anistia concedida aos agentes da ditadura militar não foi um pacto de pacificação nacional. Foi uma escolha política que produziu silêncio, apagamento e impunidade. Ao impedir a responsabilização de torturadores, assassinos e mandantes, o Estado brasileiro sinalizou que crimes contra a ordem democrática poderiam ser esquecidos em nome de uma suposta estabilidade. O resultado dessa escolha é conhecido: instituições fragilizadas, forças autoritárias preservadas e a permanência de uma cultura política que naturaliza a violência como método.

É a partir desse acúmulo histórico que o Brasil chega ao presente. Os atos deste domingo não se referem apenas ao passado, mas a uma disputa aberta sobre o futuro da democracia brasileira.

O que está em jogo agora

O estopim das mobilizações foi a aprovação, na Câmara dos Deputados, do chamado PL da Dosimetria (Projeto de Lei nº 2.162/2023). O nome técnico pode soar distante do debate público, mas seus efeitos são concretos e profundamente políticos.

A dosimetria da pena é o conjunto de critérios que define como as penas são calculadas, somadas e cumpridas. O projeto aprovado altera essas regras justamente para crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e à abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tipificações que estão no centro das ações judiciais sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023.

Na prática, o texto aprovado reduz o tempo necessário para progressão de regime, facilitando a passagem do regime fechado para o semiaberto ou aberto. Além disso, trata como um único crime ações praticadas no mesmo contexto, impedindo a soma de penas que, pelas regras atuais, resultaria em condenações mais altas. O efeito combinado dessas mudanças é a redução significativa do tempo de prisão para condenados por atentados à democracia.

É por isso que movimentos sociais, juristas, entidades da sociedade civil e organizações de direitos humanos apontam o projeto como uma forma de anistia disfarçada. Ainda que o texto não use essa palavra, ele produz um resultado equivalente: diminui a responsabilização de crimes graves contra o regime democrático.

A forma como o projeto foi aprovado agrava esse quadro. A votação ocorreu de madrugada, com restrições ao acompanhamento público e retirada de veículos de imprensa do plenário, segundo relatos. O procedimento reforça a percepção de que há uma tentativa de reduzir o debate público sobre uma matéria que afeta diretamente o pacto democrático.

Não é sobre uma pessoa

Os atos deste domingo deixam claro que o debate não se limita à figura de Jair Bolsonaro, embora ele esteja no centro simbólico e político do processo. O que está em disputa é algo maior: se o Brasil será capaz de estabelecer limites claros para quem atenta contra a democracia ou se, mais uma vez, optará por relativizar crimes em nome de acordos políticos.

A experiência brasileira demonstra que a impunidade não encerra conflitos — ela os adia. Foi a ausência de responsabilização pelos crimes da ditadura que permitiu que o autoritarismo sobrevivesse nas estruturas do Estado e reaparecesse com força décadas depois. O 8 de janeiro não surgiu do nada. Ele é fruto de uma história mal resolvida.

Por isso, quando as ruas dizem “sem anistia”, estão dizendo também: com memória, com verdade e com justiça. Estão afirmando que a democracia não se sustenta sem responsabilização e que o esquecimento não pode ser política de Estado.

O papel das ruas

O PL da Dosimetria ainda tramita no Senado e poderá ser sancionado ou vetado pelo presidente da República. As manifestações deste domingo cumprem um papel central nesse processo: pressionar, tornar visível, disputar narrativa e afirmar que a sociedade civil está atenta.

A democracia não se resume às instituições, mas tampouco sobrevive sem elas. Quando as ruas se mobilizam para defender a responsabilização de crimes contra a ordem democrática, elas reforçam o próprio sentido do Estado de Direito.

Não é apenas Natal. Não é apenas um ato isolado. É o Brasil inteiro lembrando que já pagou caro demais pela impunidade, e que não está disposto a repetir esse erro.

Sem anistia.
Sem perdão.
Sem esquecimento.

Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Fim da escala 6×1 gera efeito positivo na economia, diz supervisor do Dieese no RN

Debate acalorado que tomou conta do Brasil e causa...

Álvaro Dias deixou dívida de quase R$ 900 milhões em Natal

O ex-prefeito Álvaro dias (Republicanos) criticou a situação fiscal...

RN tem 22 municípios entre os 100 mais afetados pela desertificação no Nordeste

O avanço da desertificação no semiárido brasileiro ganhou um...

Defesa Civil interdita novas casas após transbordo de lagoa na Zona Norte

As equipes da Defesa Civil do Rio Grande do...

ONG do RN ReforAMAR recebe selo nacional de transparência com nota máxima

O Selo Doar 2024-2027 é concedido a organizações da...

“RN reduz despesa com pessoal” e tem “melhora de indicadores fiscais”

O Rio Grande do Norte reduziu a despesa com...

Pré-candidatos enfrentam dificuldades para fechar “dobrada” ao Senado

A corrida pelas duas vagas ao Senado Federal pelo...

O “verdaval” do Seridó

Para quem transita nas estradas do Seridó, a angústia...

O exemplo de um admirável brasileiro que venceu a neve

“Acabou o nosso carnaval, não se ouve mais cantar...