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AtualizaçõesColetivo leva arte negra às escolas e desafia o currículo racista

Coletivo leva arte negra às escolas e desafia o currículo racista

Nas salas de aula ainda marcadas por métodos tradicionais, novas vozes têm começado a ecoar com força. Elas aparecem em forma de rima, pintura, performance, moda e dança, impulsionadas por iniciativas como a do Coletivo Mandume, que há dois anos ocupa escolas públicas de Natal e da região metropolitana com atividades de Hip-Hop, grafite, slam, break, ballroom, capoeira e outras expressões da arte negra. Para o grupo, essas linguagens devem ser reconhecidas como conhecimento e não tratadas como passatempo, valorizar a pluralidade é, para eles, parte indispensável do ato de educar.

A iniciativa nasceu da insatisfação de Dayo Oliveira durante o ensino médio, quando a escola parecia funcionar como máquina de imposição de uma cultura monocromática e elitizada:

“Sentia falta de ações estruturadas sobre a cultura negra. A escola evitava falar de consciência negra”, lembra. Ela percebeu ali um abismo político: como construir estudantes críticos se a própria identidade negra é invisibilizada dentro da instituição?

Esse incômodo virou semente. E a semente virou projeto. O nome escolhido, Mandume, carrega a história de Mandume ya Ndemufayo, último rei do povo Cuanhama, líder que se tornou símbolo de resistência anticolonial.

“Escolhemos Mandume para mostrar que continuamos resistindo dentro de uma sociedade que mata um dos nossos a cada hora”, diz Dayo.

A homenagem ecoa também na música de Emicida, que ressignifica o gesto de insubmissão como potência coletiva.

O Hip-Hop é método

As oficinas do Mandume não pretendem apenas ensinar técnicas artísticas, mas devolver ao aluno aquilo que o ensino formal tenta controlar: imaginação, crítica, pertencimento. Dayo cresceu em rodas de rima e slam, e entende o Hip-Hop como força pedagógica, política antes de ser estética. “A arte vira consciência”, resume.

Os alunos passam por seis oficinas e ao final participam de uma mostra cultural que reúne batalhas, performances e produções criadas por eles mesmos. É o momento em que a escola, acostumada ao silêncio, precisa escutar.

Saiba Mais: Miguel Carcará: a palavra e o hip-hop como escola na periferia

O corpo dissidente no lugar de tutoria

Em 2025, o coletivo ampliou suas ações e incorporou oficinais ligadas à cultura Ballroom, trazendo para a sala de aula corpos historicamente controlados e perseguidos pela norma. O artista Fellipy Sizernando, integrante de uma Casa Ballroom, reforça a dimensão dissidente desse conhecimento. Para ele, levar a Ballroom para a escola é um ato político de formação cidadã:

“Promover essas atividades e levar um conhecimento dissidente, que não é o que a escola costuma ensinar, é essencial. A gente chega para potencializar novos talentos, novas identidades, plantar sementes que podem florescer daqui a cinco, dez anos… ou até em menos tempo. A escola, engessada, muitas vezes nem permite que a pessoa descubra o que ela pode ser.”

Ele aponta que o ensino tradicional prepara estudantes para servir a um Estado que exige obediência, não reflexão. Seu papel no Mandume, portanto, é o de hackear o sistema por dentro:

“Essas atividades mostram que o conhecimento não está dentro de uma caixa. Ele é plural. É muito maior do que aquilo que a escola nos mostra. A gente chega junto do Mandume, que já tem um trabalho de base, e juntos conseguimos ir adentrando as escolas e mostrando que o conhecimento pode ser algo que transforma, não algo que limita”, finaliza.

SAIBA+ Ciclo formativo envolve cultura Ballroom com ações sobre saúde, moda e performance

Nos corredores escolares, o coletivo enfrenta não apenas a falta de verba e estrutura. Há um obstáculo mais profundo, o racismo institucional, que muitas vezes se manifesta nas direções das escolas.

“Algumas diretorias ignoram nosso trabalho simplesmente por preconceito com a cultura negra”, afirma Dayo. Negar o projeto não é questão pedagógica, é escolha política.

Ainda assim, o Mandume resiste. Sobrevive com editais, voluntariado, doações, e sobretudo com o afeto que sustenta a equipe. “Somos amigos e fazemos o projeto acontecer na cara e coragem”, celebra Dayo. Essa base afetiva, comunitária e antirracista, dá ao coletivo algo que o dinheiro não oferece, a permanência.

Os resultados não aparecem como números, mas como expressões. Um aluno que aprende a rimar sobre sua própria vivência. Uma menina negra que vê sua estética valorizada na Moda Periférica. Um estudante LGBTQIAP+ que descobre na Ballroom um corpo possível. São pequenas revoluções silenciosas que a escola em primeiro momento não sabe mensurar.

O Mandume trabalha para que essas histórias não sejam exceção, mas política pública. Seu impacto não se mede com métricas prontas, ele se revela quando um jovem, pela primeira vez, se reconhece como sujeito de uma história que vale a pena ser contada.

Como levar o Mandume para a escola

Escolas e instituições interessadas em receber o coletivo podem solicitar oficinas e mostras culturais através do Instagram @coletivo.mandume, onde também estão disponíveis o WhatsApp e o e-mail de contato da equipe.



Fonte: saibamais.jor.br

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