“Mas ele tocou em você?” — foi a pergunta que a segurança da festa me fez quando fui denunciar uma situação de assédio em um barzinho de Brasília, vivida exatamente na véspera do Dia das Mulheres. Como se precisasse tocar para a gente se sentir invadida, comida com os olhos, vigiada, impedida de dançar, de curtir a festa sem medo, de sermos nós mesmas.
Tive que conversar com outras mulheres que estavam ali para ter certeza de que não estava louca, que não era coisa da minha cabeça, que eu tinha razão, sim, de me indignar. Todas com quem eu falei confirmaram que o cara estava, sim, perto demais, me cercando, restringindo minha liberdade de dançar e de me sentir bem fazendo isso. Todas, exceto minha amiga, que concordou com a segurança da casa, talvez por não entender direito a situação, talvez por simplesmente não querer criar confusão. Mas, mesmo diante da turma do “deixa disso”, quis insistir no absurdo de denunciar e permaneci no desejo firme de tentar convencer a gerente do lugar a tomar alguma atitude, retirar dali aquele cara que estava incomodando a mim e a outras mulheres, para que eu pudesse me sentir livre e segura novamente.
E a gerente chamou o segurança homem, já que a segurança mulher exigiu que, para configurar o assédio, ele teria que ter me tocado. Fomos até a mesa das minhas amigas, mas não encontrei o assediador, a princípio.
Perguntei pelo cara às moças que tinham confirmado que ele estava mesmo incomodando quando, de repente, ele surgiu, livre, em frente ao palco, perto de outro grupo de mulheres igualmente assediadas da mesma maneira sutil de quem sabe exatamente o limite tido como aceitável — de que comer com os olhos é permitido, mesmo que nenhuma mulher ali tenha lhe dado esse direito. Mas é que esse direito parece ter sido dado aos homens em geral pela sociedade há tempo demais para mudar agora, de repente, e só porque alguma mulher louca resolveu se incomodar, quando deveria aceitar ou, se quiser evitar, sair de cena, parar de dançar, deixar de ser ela mesma e até mesmo ir embora, para evitar confusão, para não provocar uma chateação dessas.
Depois de confirmar com outra mulher a identidade do sujeito, o segurança finalmente retirou o camarada do lugar, ou pelo menos eu achei que o tivesse feito.
Só que a minha noite já tinha acabado. Fiquei exausta de tantas idas e vindas atrás de alguém que se importasse e de fato tomasse uma atitude ali. Até tentei voltar a dançar, mas minha energia não era a mesma; minha alegria foi interrompida.
E, por tudo isso, do alto da maturidade dos meus 48 anos, resolvi ir embora, sem falar nada para minhas amigas, para não acabar com a festa delas também. Afinal, era um aniversário e tudo estava maravilhoso até aquele momento — para quem não estava dentro daquele problema que eu criei para mim, né?
Pedi o Uber, mas, enquanto estava esperando, vi o cara ali dentro ainda, sentado numa mesa, curtindo a festa. Não acreditei e fui questionar o segurança. Ele me olhou como se eu fosse louca e disse que “duas mulheres haviam dito a ele que o cara não fez nada”, e assim lavou as mãos.
Foi quando resolvi fotografar o cara dentro do estabelecimento, até para garantir a minha segurança ali enquanto esperava o carro chegar. Não prestou. Uma das duas mulheres que estavam do lado dele avançou em mim e exigiu que eu apagasse a foto. Eu disse que não ia apagar, pela minha segurança, mas que já estava indo embora, que ele conseguiu, afinal, o que queria: permanecer ali e impedir outras mulheres de se sentirem à vontade para ficar no mesmo ambiente.
Ela me fotografou e me filmou de volta, em resposta à minha ousadia de não aceitar apagar a foto dele. E ainda me ameaçou, berrando que nos veríamos na delegacia, que sabia que o irmão dela não havia feito nada. Eu gritei de volta com minhas últimas forças: você tem certeza disso?
Fiquei muito nervosa, chorei, tentei voltar para perto das minhas amigas, imaginando que precisaria do apoio delas, que, a essa altura, não estavam entendendo mais nada. Tentei explicar, mas só consegui chorar. Meu Uber chegou e fui embora, com a dor de quem entende que perdeu novamente de 1000 a 0 para a naturalização das pequenas violências de gênero de cada dia.
Acordei cedo com uma sensação de impotência, uma vontade de me esconder do mundo, de não sair mais de casa, e ainda com medo de a irmã do cara cumprir a ameaça que fez de me levar a uma delegacia, de ter que prestar um depoimento que provavelmente ninguém vai acreditar se eu disser que fui submetida a algum tipo de violência ali — porque, afinal, ninguém me tocou, né?
E hoje, este 8 de março amanheceu cinza assim, sem esperança alguma para as mulheres que imaginam um mundo onde possam viver plenamente, sem medo… Porque o mundo, infelizmente, ainda é todinho dos homens.
Fonte: saibamais.jor.br



