Quem acompanha minhas mal traçadas linhas sabe que questões geracionais e o comportamento do homem branco de 50/60 anos estão entre meus temas preferidos. Sei que soa repetitivo e, por vezes, até cansativo, mas sempre encontro aspectos diferentes para analisar essas questões. E também é fato que vertentes destes temas são bem atuais (e preocupantes) como masculinidade tóxica (red pills, misoginia etc), portanto refletir sobre e repetir se torna até necessário.
Já escrevi aqui e também já externei em debates presenciais que a postura confusa do homem padrão atual, para recorrer a um termo até poético, enquanto não se chega ao descumprimento do código penal, é a eterna saudade de um mundo que já não existe mais. Uma visão de mundo que, na verdade, começa com a nostalgia de um tempo quando se era adolescente, quando se confunde a experiência pessoal (leveza, descobertas, sexualidade, amizades) com todo um período histórico, que tinha, como todos, coisas positivas e negativas. Os cinquentões têm saudade dos anos 80 sem perceber que a nostalgia real é pela juventude, já que nossos pais eram saudosos dos anos 60. Recordo de um personagem de Balzac que em 1860 recorda com doçura dos seus tempos de jovem aristocrata lamuriando que “antes os tempos eram melhores”.
Contudo, esse saudosismo, a princípio pitoresco, pode ganhar contornos mais sérios e preocupantes, a partir de uma premissa básica e objetiva: aquele mundo que o pessoal tem saudade já não existe mais. Para o bem e para o mal, se é que isso existe.
Sei que a nostalgia passa, além da experiência pessoal da juventude com menos compromissos, menos responsabilidades e sem boletos, para uma percepção coletiva, como uma maior sensação de segurança (andar pelas ruas à noite e sentar nas calçadas para conversar eram realmente possíveis nos anos 80) e de interação (não existia internet nem celular, as pessoas eram obrigadas a falar mais umas com as outras). Mas também é certo que a saudade passa pela sensação de impunidade social que permitia ser preconceituoso com grupos diversos sem sofrer sanções ou patrulhamentos.
Era uma época em que o menino tímido e nerd da sala era “o viadinho”, o vizinho com nanismo era “o anãozinho”, a moça que se permitia viver uma vida amorosa era a “vadia” que “é pra comer, mas não pra casar” e homens gays que tentavam encontrar sua identidade eram “baitolas” ou “travecos”. Tenho consciência que muitos homens da minha vida sentem falta da época em que tudo isso era normalizado e “o mundo não era tão chato” (tradução; do alto do privilégio hetero-branco deles, podiam zoar e oprimir quem queriam sem patrulhamento).
Contudo, dia desses me flagrei com saudades de um tempo que também já não existe mais. No meu caso, é uma mistura quase exata de percepção pessoal e experiência coletiva (na verdade, global) e me remete a meados dos anos 1990 para os anos 2000. Quando parecia que o mundo, pós Guerra Fria e derrubada do Muro de Berlim, adentrava o fenômeno que se classificou como Globalização.
Recordo de um filme, dos meus preferidos de Wim Wenders, de 1995, “O céu de Lisboa”, na qual um engenheiro de som alemão vai de carro da Alemanha para a capital portuguesa, passando, claro, por países como França e Espanha, e se mostra encantado com não ser mais necessário passaporte de um país para outro e com a “tão esperada união da Europa como um imenso país”.
Justamente nesse período viajei duas vezes ao continente europeu (em 2006 e em 2013) e tive a mesma percepção, de um sentimento coletivo, que nem mesmo a fiscalização causada pelo 11 de setembro de 2001 conseguiu aplacar. Período em que a internet engatinhava e também mostrava que poderíamos ser “uma grande família global conectada por computadores e telefones celulares”. Os tempos pareciam tão promissores que a revista Veja, eterna porta voz das elites brasileiras, produziu em 2010, uma capa “nunca fomos tão felizes”, analisando a sensação de satisfação do povo brasileiro consigo mesmo e com o país. Não por acaso, era o último ano de Governo Lula, gestão que colocou o Brasil de cabeça na globalização sem esquecer os interesses nacionalistas.
Todavia no Brasil veio um golpe que derrubou a presidenta eleita dilma Rousseff, em 2016, mesmo ano da primeira eleição de Donald Trump nos EUA, e a ascensão de políticos de extrema-direita em todo o mundo com pautas em comum como nacionalismo “patriotoco” anti-globalização, retirada de direitos de minorias, negacionismo científico etc.
É um paradoxo eu pensar e escrever isso, mas acho realmente que o mundo ficou mais chato. Não porque não posso chamar um homossexual afeminado de viadinho, mas porque me dói ver os amigos com filhos nos EUA com medo que sejam abordados pelo ICE, a polícia fascista do Trump. Gente conhecida que vai a Europa me conta experiências ruins com o cerco ou ódio a imigrantes e turistas de etnias não europeias. O mundo realmente não é mais o mesmo.
Cada um sente saudades do que quer. Claro que lembro com imenso carinho da minha adolescência plena naqueles anos 80 de “Armação Ilimitada”, ‘Os Goonies” e Barão Vermelho com Cazuza cantando “Bete Balanço”. Mas sinto ainda mais saudades do período onde acreditamos que, como cantou John Lennon em “Imagine”, “o mundo poderia ser como um só”.
Sinta saudades do que quiser. Só cuidado para sua saudade não ser a vontade de ser preconceituoso e agressivo com quem você considera diferente ou inferior. Lembrando que nesta terça-feira, 24 de março, o Senado aprovou a Lei contra a Misoginia (que é o ódio ou aversão a mulheres) equiparada ao racismo e homofobia. Ou seja, não deixe que a sua saudade seja de cometer crimes impunemente.
Fonte: saibamais.jor.br




