O dia ainda nem tinha começado direito quando a violência já tinha falado.
Não com armas visíveis, não com tanques nas ruas, não com atos institucionais. Mas com um gesto que carrega o mesmo significado histórico: o apagamento.
As faixas com os nomes dos mortos e desaparecidos políticos do Rio Grande do Norte foram arrancadas.
Arrancadas.
Não é vandalismo. Não é um ato isolado. Não é “excesso”. É projeto.
Cada nome ali carregava uma história interrompida pela violência de Estado. Cada faixa era um enfrentamento ao silêncio imposto há mais de seis décadas. Cada letra escrita era um ato político de afirmação: nós não esquecemos.
E, justamente por isso, incomoda.
Porque o Brasil nunca fez justiça.
A memória foi disputada. A verdade foi arrancada a duras penas por familiares, militantes, pesquisadores, comissões da verdade. Mas a justiça, essa nunca veio. E quando não há justiça, o passado não passa. Ele se infiltra no presente, se reorganiza, ganha novas formas, novos discursos, novas legitimidades.
O que aconteceu nesta manhã não é apenas sobre faixas retiradas das ruas. É sobre a permanência de uma lógica.
A lógica de que alguns podem ser eliminados, física ou simbolicamente, sem que isso cause consequências.
A lógica de que a história pode ser reescrita pela força.
A lógica de que lembrar é perigoso.
E é.
Lembrar é profundamente perigoso para quem depende do esquecimento para existir.
Por isso arrancam nomes. Por isso rasgam memórias. Por isso tentam, mais uma vez, empurrar para debaixo do tapete aquilo que nunca foi devidamente enfrentado.
Mas há algo que não conseguem arrancar.
Não arrancam o fato de que houve tortura.
Não arrancam o fato de que houve assassinatos.
Não arrancam o fato de que houve desaparecimentos forçados.
Não arrancam o fato de que o Estado brasileiro foi responsável por tudo isso.
E não arrancam, sobretudo, a persistência de quem ficou.
De quem segue dizendo os nomes.
De quem segue ocupando as ruas.
De quem segue afirmando que não há democracia possível sobre corpos ocultados e crimes impunes.
O que vivemos hoje é mais do que um episódio de intolerância. É a expressão concreta de um tempo político em disputa. Um tempo em que o fascismo deixa de ser apenas uma referência histórica e se apresenta como prática cotidiana, como método, como linguagem.
E isso acontece num ano decisivo para o Brasil.
Não se trata apenas de uma disputa eleitoral. Trata-se de um confronto entre projetos de país. Entre um projeto que aposta na ampliação da democracia, ainda que incompleta, ainda que em construção, e outro que se alimenta do autoritarismo, do negacionismo histórico e da violência como instrumento político.
Arrancar faixas é um gesto pequeno diante do que já foi feito no passado. Mas é enorme no que revela.
Revela que eles ainda estão aí.
Revela que continuam incomodados.
Revela que a memória segue sendo uma trincheira.
E talvez seja justamente isso que mais nos diga sobre o nosso tempo: eles precisam apagar, porque sabem que lembrar é resistir.
Nós seguimos.
Reescrevemos os nomes.
Reocupamos as ruas.
Porque a nossa luta nunca foi apenas sobre o passado. É sobre o presente e, sobretudo, sobre o futuro.
Enquanto houver tentativa de apagamento, haverá memória.
Enquanto houver silêncio imposto, haverá voz.
Enquanto houver impunidade, haverá luta.
E é exatamente por isso que seguimos afirmando, com ainda mais força:
Não esquecemos.
Nunca mais.
Fonte: saibamais.jor.br




