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AtualizaçõesA ressignificação do tédio na sociedade do cansaço

A ressignificação do tédio na sociedade do cansaço

O cansaço figura entre as queixas mais recorrentes na contemporaneidade, sobretudo após os rearranjos produzidos por uma vida crescentemente mediada pelas tecnologias e pelas interações em redes sociais digitais. As fronteiras entre as esferas pública e privada, bem como a organização do trabalho, do estudo e do lazer, antes distribuídas em espaços e tempos mais delimitados, tornaram-se progressivamente difusas. 

Com o advento do smartphone e o avanço dos serviços de telefonia e internet, essas margens foram sendo diluídas. Somado ao fato, do modo de produção capitalista que apropriou-se com rapidez dessas transformações, incorporando novas formas de exploração, intensificando a precarização da classe trabalhadora e conformando novas modalidades de subjetividades.

Byung-Chul Han é um filósofo provocativo. Ao formular no livro Sociedade do Cansaço (2019) a noção de “sociedade do desempenho”, oferece uma reflexão necessária para compreendermos como o cansaço se opera no cotidiano.

Han sustenta que a sociedade disciplinar, simbolizada por hospitais, asilos, fábricas e cárceres, cede lugar à sociedade do desempenho, representada por academias, escritórios, bancos, aeroportos, laboratórios de genética, shopping centers e coachs. Se antes o poder operava pela negatividade do dever, agora atua pela positividade do poder. Há um deslocamento do “você deve”; entra o “você pode”. E justamente aí reside sua eficácia.

O indivíduo passa a gerir a si mesmo como um empreendimento nascendo o “empresário de si mesmo”. Nessa engrenagem, concorre consigo, cobra-se sem trégua e se lança a uma superação permanente.

Talvez uma das formulações mais contundentes de Han seja que o indivíduo se explora e acredita que isso é realização. Para o autor, a autoexploração revela-se mais eficiente do que a exploração imposta por outrem ou fundada em coerção externa, justamente porque se articula ao sentimento de liberdade. Trata-se de uma coerção interiorizada, em cuja dinâmica coexistem, no mesmo sujeito, as figuras do senhor e do escravo.

Esse modelo produz adoecimentos. Han identifica, como marcas do presente, os sofrimentos psíquicos como depressão, burnout, déficit de atenção e hiperatividade. São expressões da vida posta em rendimento, o descanso em culpa e o ócio em pecado. O sujeito do desempenho é uma presa fácil para o esgotamento.

Vivemos cercados pela injunção da utilidade permanente. É preciso render, responder, performar, aparecer. O descanso, quando admitido, costuma vir capturado pela lógica da eficiência, repousa-se para voltar a produzir. Han aduz que a pausa seja honesta. A pausa como experiência de interiorização e o tédio reposicionado como um sentimento fecundo. Essa defesa do tempo para a contemplação talvez seja uma de suas mais belas insurgências. Sem pausa, o novo é inviabilizado. Sem tédio, a imaginação empobrece. A vida que padece de contemplação se converte em sequência mecânica de tarefas.

Foi esse ponto que mais me atravessou. Desde menina, a palavra “tédio” me intrigava. Lembro de ouvi-la na música da banda Biquini Cavadão(1985), cujo trabalho aprecio demais, e de tentar compreender que sentimento era aquele descrito na canção que evidenciava apatia, exaustão e o esvaziamento da vida cotidiana. Vejamos: “Sabe esses dias em que horas dizem nada / e você nem troca o pijama / preferia estar na cama / um dia, a monotonia / tomou conta de mim / é o tédio / cortando os meus programas / esperando o meu fim / sentado no meu quarto / o tempo voa / lá fora a vida passa / e eu aqui à toa / eu já tentei de tudo / mas não tenho remédio / pra livrar-me desse tédio / vejo o programa / que não me satisfaz / leio o jornal que é de ontem / pois, pra mim tanto faz / já tive esse problema / sei que o tédio / é sempre assim (…)”

Durante muito tempo, aprendemos a tratar o tédio como falha, vazio, desperdício. Han foge dos gestos analíticos tradicionais pois devolve dignidade ao tédio e evidencia que ele pode ser fértil. 

A reconciliação com o tédio é uma proposição potente de Han. Hoje, ser multitarefa virou virtude. Ser workaholic é uma forma de existência que envaidece tantas pessoas. Exaltar a superação de limites tornou-se linguagem corrente. Nessa ambiência, muita gente silencia o corpo, altera os ciclos do sono, vive sob estimulantes, negligencia sinais de exaustão e naturaliza a vida sob pressão. O café acorda. O remédio adormece.

Han alerta que cada pessoa carrega consigo um campo de trabalho. Estamos sempre em dívida, com a família, com os amigos(as), com as tarefas. Em uma formulação afiada, ele diz que o sujeito do desempenho se sente um projeto e se converte em projétil contra si mesmo. A metáfora é fortíssima. 

E quando o êxito falha, a culpa pousa inteira sobre o indivíduo. Em vez de interrogar as estruturas que produzem exaustão, precariedade e insuficiência, o sujeito conclui que falhou. É uma violência sofisticada. Para Han, a sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados.

Por tais razões, talvez uma das tarefas mais urgentes seja recuperar fronteiras. Fronteiras entre o público e o privado, ampliar tempos de desconexões, cultivar presencialidades. Precisamos reaprender a descansar, a cultivar espaços de silêncio, a proteger a interioridade, a perceber o valor do limite e a encontrar prazer em nos autolimitar. Trata-se de apreço por autocuidado. 

Que possamos fazer as pazes com os nossos tédios, priorizar o descanso e autorregular-nos antes da exaustão. Na ressignificação do tédio, mora a possibilidade de reencontro com uma vida mais inventiva, contemplativa e presente. Chico Buarque, em Deus lhe pague (1971), já advertia sobre a existência apressada, ao evocar o “amor malfeito depressa, fazer a barba e partir”. Também lembrou que o domingo é “lindo, novela, missa e gibi”, imagem que devolve valor ao tempo ordinário, ao repouso e aos pequenos rituais no cotidiano.

Que cada pessoa possa usufruir do direito ao trabalho em harmonia com as demais dimensões da existência e afirmar, de modo consciente, uma vida assentada em equilíbrio, como gesto concreto de cuidado e contribuição para a melhora do mundo. Bom descanso!

Fonte: saibamais.jor.br

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