Nas bolhas das redes sociais, um dos assuntos dos últimos dias foi a “polêmica” da postagem de uma moça que relatou a experiência ruim de um date (termo atual para o bom e velho encontro). Ela marcou com um rapaz para conhecê-lo, ele tentou um beijo após poucos minutos de bate papo e, como ela recusou, o sujeito disse que ia ao banheiro e sumiu, obrigando-a a pagar a conta inteira.
Como a moça não tinha dinheiro, pediu um pix a uma amiga e acusou a raiva na postagem. Logo depois, o rapaz postou a versão dele e, de uma maneira bem tosca, argumentou que não tinha obrigação de pagar a conta sozinho e que decidiu ir embora porque foi na expectativa de que ficariam juntos.
Chamou minha atenção a total disparidade de comentários nas duas postagens e nas que abordavam o assunto. A totalidade das mulheres, claro, espinafrou o sujeito, pela pressa, falta de educação e usura. Já os marmanjos, em grande maioria, defenderam o rapaz com argumentos que quase sempre beiravam o machismo e a misoginia, registrando que “se ela não queria dar, ele não tinha que ficar ali nem que pagar” ou “não quer ser feminista, então paga a conta”.
Tento fugir desse tema, a masculinidade atual e o papel do homem nas relações e na realidade. Mas o tema me persegue e, além disso, parece onipresente nas redes sociais, a julgar pelas muitas reclamações dos homens e, mais ainda, das mulheres. Lembrando que esse texto aborda mal entendidos e comportamentos em espaços onde não há registros de violências diversas ou feminicídio, chagas atuais causadas pelo machismo e misoginia que podem e devem ser abordados (como já foram) em outros textos.
Sobre a história relatada acima, escrevi polêmica entre aspas porque não vejo como tal. Acho que a moça está certa em sua mágoa e o rapaz é um imbecil pelo comportamento imaturo e mimado. Não compartilho dessa ideia masculina de que um date é necessariamente caminho aberto para beijo no barzinho e depois sexo. Muito menos de que o dinheiro gasto só será bem aproveitado se rolar alguma coisa. E condicionar o gasto de dinheiro ao sexo é de uma canalhice brutal.
Foi na expectativa que rolaria alguma coisa e a moça está indicando que não? Segura sua onda e vê no que vai dar. A moça indicou que não vai rolar nada sexual depois e o cara ficou putinho? Fala que esperava que ia acontecer algo e que como está decepcionado prefere ir embora, paga a conta, ou metade dela e sai com dignidade do recinto, meu filho.
Neste sentido, leio nas redes e ouço histórias assombrosas sobre o comportamento masculino atual. Uma amiga recentemente escreveu sobre homens que a chamam para comer pizza e vinho na casa deles, se queixando da baixa qualidade da pizza, do vinho e, eventualmente, do sexo, como se em vez de um date quisessem algo como um sexo fácil delivery.
Outra amiga, dia desses, desabafou sobre a fase errática do comportamento dos marmanjos:
“Se eu pago a conta, eles ficam atemorizados porque quero mostrar poder; se eu peço para dividir, estou forçando uma igualdade que eles odeiam e se eu espero ele pagar, sou oportunista e quero que me banquem. Qual a maneira certa de agir com homens?”
Talvez aí more a questão. Mulheres não sabem como agir com homens, devido ao comportamento errático. Porque, em sua maioria, na verdade os próprios homens não sabem como agir e tampouco quem são e o que querem. Há bons estudos de gente qualificada sobre a crise da masculinidade atual e as análises sobre o papel do homem da sociedade. Sem embasamento científico, mais como papo de botequim mesmo, me arrisco a dizer que os homens hoje têm nostalgia de um papel masculino de décadas atrás, porém sem agir como tal, enquanto as mulheres se adaptaram aos novos tempos e aos novos papéis sociais.
Exemplos práticos: tenho meia dúzia de amigos que, volta e meia, falam que “antigamente que era bom”, entre outras razões, ressaltando que atitudes masculinas, digamos, eram mais valorizadas. O problema é que esse pessoal – na faixa dos 50 – não se comporta como os homens “de antigamente”, ou seja, nossos pais, tios e avôs. São homens que têm nostalgia da masculinidade de outrora mas que hoje tomam pouco a iniciativa das coisas (reclamação quase unânime que ouço de mulheres), não são provedores financeiros, reclamam quando têm que pagar conta, não lidam com carro e sua mecânica, não mostram gestos de cavalheirismo, etc.
Essa crise da masculinidade pode e deve ter razões complexas e sociais, mas de uma maneira rasteira, acho que os homens querem um ideal arcaico que eles mesmo não conseguem manter.
Uma amiga escreveu em seu Facebook dia desses que os homens estão indo muito mal. O que me fez lembrar de uma música de Chico Buarque de 1980, “Deixe a menina”, onde ele relata a bronca que dá em um sujeito que não quer que a namorada dance em uma roda de samba:
“Não é por estar na sua presença
Meu prezado rapaz
Mas você vai mal
Mas vai mal demais (…)
Eu não queria jogar confete
Mas tenho que dizer
Cê tá de lascar
Cê tá de doer (…)
Tire ela da cabeça ou mereça a moça que você tem (…)”
É isso que mestre Chico diria para as hordas de marmanjos chatos que parecem mais dispostos a patrulhar e tolher as mulheres do que estabelecer parcerias e relações saudáveis. Boa parte dos homens vai mal, mas mal demais mesmo!
Fonte: saibamais.jor.br



