O Rio Grande do Norte tem hoje um consumo de alimentos ultraprocessados acima da média de parte dos estados vizinhos do Nordeste. Estimativa publicada pela Revista de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP), mostra que esses produtos já representam 18,7% das calorias consumidas pela população potiguar, percentual superior ao registrado em estados como Paraíba (16,1%), Alagoas (16,6%) e Ceará (17,8%).
No recorte regional, o dado coloca o Rio Grande do Norte entre os estados nordestinos com maior presença de ultraprocessados na dieta, atrás apenas de Bahia (19,4%) e Pernambuco (19,3%), e praticamente empatado com Sergipe (18,4%). O índice potiguar também está acima da média observada em Maranhão (13,1%) e Piauí (11,5%), os menores percentuais da região.
Os dados fazem parte do estudo “Estimativa da participação de alimentos ultraprocessados nos municípios brasileiros”. O levantamento calculou quanto das calorias consumidas pela população vêm de produtos como refrigerantes, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, salgadinhos e refeições prontas. No Brasil, a média é de 20,2%, acima da registrada no RN, mas o estudo mostra que o avanço desses produtos já é consistente no estado e acompanha uma tendência de crescimento no Nordeste.
Embora ainda abaixo da média nacional, o Rio Grande do Norte aparece em posição mais crítica que parte significativa do Nordeste. Em termos proporcionais, o estado consome mais ultraprocessados que seis das nove unidades da região e já se aproxima de estados com perfil urbano mais consolidado, como Pernambuco e Bahia.
A diferença fica mais evidente quando o RN é comparado aos estados vizinhos. A participação de ultraprocessados no consumo potiguar supera em 2,6 pontos percentuais a da Paraíba e em 0,9 ponto a do Ceará. Em relação a Alagoas, a diferença é de 2,1 pontos. Já na comparação com Pernambuco, o estado fica apenas 0,6 ponto abaixo, indicando um padrão de consumo bastante próximo entre as duas populações.
O estudo aponta que esse avanço está diretamente ligado ao perfil socioeconômico e urbano dos territórios. Estados com maior urbanização e maior renda tendem a concentrar mais ultraprocessados na dieta. Isso ajuda a explicar por que Maranhão e Piauí, com maior presença de população rural, aparecem com os menores percentuais do Nordeste, enquanto estados mais urbanizados, como Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte, registram índices mais altos.
A própria pesquisa destaca que viver em áreas urbanas aumenta o consumo desses produtos. No Brasil, moradores de cidades consomem, em média, 21,2% de calorias vindas de ultraprocessados, contra 14,1% entre moradores de áreas rurais. Também nas capitais o consumo é mais elevado: 23% das calorias consumidas vêm desses produtos, acima da média nacional.
No caso potiguar, esse padrão aparece de forma ainda mais nítida quando se observa Natal. Na capital, os ultraprocessados representam 21,2% das calorias consumidas, percentual acima da média estadual e já alinhado à média urbana nacional. O dado reforça o peso do ambiente alimentar das cidades no avanço desse tipo de produto.
Entre os municípios potiguares, Natal não lidera sozinha. Parnamirim tem a maior proporção estimada do estado, com 20,3% das calorias diárias vindas de ultraprocessados, seguida por Mossoró (18,0%), Caicó (17,5%) e Extremoz (17,3%). Na outra ponta, Paraná e Jardim de Angicos registram os menores percentuais, com 13,2%.
O estudo também chama atenção para um movimento mais amplo: embora Norte e Nordeste ainda concentrem os menores percentuais de ultraprocessados do país, são justamente as regiões onde esse consumo mais cresce. Segundo os pesquisadores, isso indica que estados que hoje ainda aparecem abaixo da média nacional, como o Rio Grande do Norte, podem registrar avanço ainda maior nos próximos anos se o padrão alimentar continuar se consolidando.
A conclusão dos autores é que o consumo de ultraprocessados no Brasil deixou de ser um fenômeno restrito aos grandes centros do Sul e Sudeste e se espalhou de forma desigual pelo território nacional.
Classificação da OMS e riscos
A Organização Mundial da Saúde (OMS) acendeu um alerta global ao classificar as carnes processadas, como bacon e salsichas, no Grupo 1 de agentes cancerígenos, equiparando o seu nível de evidência científica ao de substâncias como o tabaco. Este diagnóstico torna-se ainda mais crítico face ao crescimento exponencial do consumo de ultraprocessados nas dietas modernas, impulsionado pela conveniência e pelo baixo custo. No Rio Grande do Norte, os dados mostram que esse avanço já está em curso e coloca o estado entre os mais expostos do Nordeste.
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Fonte: saibamais.jor.br



