spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
Atualizaçõesos assassinos do cão Orelha e os arquivos Epstein

os assassinos do cão Orelha e os arquivos Epstein

A morte do cãozinho Orelha, que comoveu o Brasil, completa um mês nesta quinta-feira, dia 5, sem desfecho nas investigações pela Polícia Civil. Na Praia Brava, em Florianópolis, no dia 5 de janeiro, o cachorro comunitário Orelha foi encontrado agonizando no dia 4 de janeiro, debaixo de um carro, com marcas de tortura, e não resistiu aos ferimentos. Após informações desencontradas da polícia catarinense, descobriu-se, através de depoimentos e gravações de câmeras de segurança, que quatro adolescentes teriam atraído o cachorro, tentado afogá-lo, torturando-o e deixando o animal abandonado para morrer. Dois dos adolescentes teriam sido mandados para a Disney, nos EUA, pelos pais, dias depois. O caso ganhou repercussão após o porteiro de um condomínio onde os suspeitos moram divulgar áudio em um grupo de vigilantes onde um deles afirma: “Eles parecem ter dado umas pauladas no cachorro e depois foram lá e mexeram na barraca ainda. São uns folgados que têm aí”.

Após a repercussão do caso, pais e um tio dos jovens foram indiciados por coação. Uma operação cumpriu três mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. Mandados também foram executados em locais associados a adultos suspeitos de coagir o vigilante de um condomínio que teria imagens relevantes para a investigação. A polícia afirmou que os adolescentes investigados pela morte do animal teriam tentado afogar outro cachorro, conhecido como Caramelo. Para manifestantes dos direitos dos animais, as investigações estariam lentas e confusas.

Nestas semanas outro assunto, este de maneira global e mais forte, que dominou o noticiário e chocou a todos foi a divulgação de milhares de documentos do chamado Arquivo Epstein, referente ao material que pertencia ao magnata das finanças americano Jeffrey Epstein, que morreu misteriosamente na cadeia em 2019, preso que estava por tráfico sexual. No último lote do material — chamado de arquivos Epstein — divulgado em 30 de janeiro pelo FBI: três milhões de páginas, 180 mil imagens, 2 mil vídeos e vários nomes de bilionários, políticos, artistas e celebridades de todo o mundo. Algumas informações, imagens e vídeos indicam tráfico sexual e mesmo pedofilia. Material pesado e perturbador.

O que a morte de um cachorrinho em Santa Catarina e a divulgação de material de um magnata pervertido tem a ver um com outro? Quase nada. E ao mesmo tempo, quase tudo. Em ambos os casos, a esfera de poder onde os envolvidos estão lhes confere uma aura de impunidade. Como se tivessem, a certeza que nada lhes aconteceria jamais.

Senão vejamos: os pais dos adolescentes que teriam torturado e matado Orelha em nenhum momento apareceram em público para dar explicações ou pedir desculpas em nome dos filhos. Pelo contrário. Coagiram porteiros e testemunhas e tentaram apagar gravações para proteger os filhinhos. Depois tentaram intervir nas investigações e, como dito, evadiram os meliantes da cena do crime. Não como pobres fariam, um refúgio na periferia, ou um casebre escondido no interior. São donos de hotéis e resorts. Mandaram os filhos para os EUA, país presidido por Donald Trump.

O mesmo Trump que aparece milhares de vezes nos arquivos Epstein, com farta documentação em vídeos e fotos com Epstein, de quem Trump diz ter se distanciado ainda nos anos 2010. Uma análise amadora sobre a auto-confiança com que Trump e Epstein se deixam gravar em vídeos admirando pré-adolescentes de 13 anos ou em festas cercados por jovens mulheres, deixa claro que eles tinham a certeza de que jamais seriam punidos por qualquer crime que eventualmente estivessem cometendo.

Trump e Epstein, dois homens brancos e ricos. Assim como os pais dos adolescentes assassinos em Santa Catarina. Estado que, aliás, é registrado imenso casos de xenofobia contra nordestinos, negros e minorias outras. Orelha foi morto no estado onde o governador, Jorginho Mello, quer proibir cotas raciais nas universidades. A mesma Santa Catarina onde um prefeito fez um “passaporte municipal” e queria exigir de pessoas pobre que chegassem a cidade de ônibus que teriam dinheiro para ir embora, uma fiscalização ilegal que é vedada pela Constituição.

Sei de amigos que fazem chacota da minha insistência neste raciocínio, mas os fatos me levam sempre a abordar o tema: homens brancos e ricos, ou seja, que detém o poder social e econômico, acreditam (na verdade tem certeza) que podem fazer tudo e sair impunes. Que para eles, as leis são diferentes. Que seus privilégios na verdade são direitos, como acreditavam os monarcas europeus do século 16.

Claro que o recorte de cor e gênero é ilustrativo de um espaço histórico de poder. Negros como o deputado Hélio Negrão e mulheres como Michele Bolsonaro, não obstante raça e gênero, validam o patriarcado, machismo e racismo, se aliando a quem tradicionalmente os oprimem. Sabemos todos, ou deveríamos, que se adolescentes negros numa favela tivessem matado Orelha, o tratamento dado a eles pela polícia e MP não seria o mesmo dado aos ilustres empresários catarinenses e seus rebentos.

São podres poderes exercidos por quem tem certeza da impunidade. Ainda que um Epstein, assim como eventualmente um Eike Batista ou um Naji Nahas, seja julgado e condenado e preso, o sistema permite que se sintam à vontade para cometer crimes. Para finalizar com verso de Caetano na canção que nomeia este texto, “enquanto os homens exercem seus podres poderes/índios e padres e bichas, negros e mulheres/E adolescentes/Fazem o carnaval”. E que esse Carnaval, que começa semana que vem, não impeça que se faça justiça ao cachorrinho Orelha e as vítimas de Epstein e seus cúmplices.

Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Laboratório confirma superfungo em paciente internado em Natal

O sequenciamento genético realizado por um laboratório de São...

Defensoria vai investigar aumento de taxas em contas de energia no RN

Depois de receber uma série de denúncias sobre aumento...

RN amplia ações institucionais no enfrentamento à intolerância religiosa

Celebrado em fevereiro, o Dia Nacional de Combate à...

Gestão Nilda acelera obras nas escolas e garante mais qualidade no retorno às aulas

A gestão da prefeita Nilda segue firme no compromisso...

Foi-se o Bloquinho? realiza baile em Ponta Negra e celebra legado de Gilberto Gil

Em seu terceiro ano consecutivo, o Foi-se o Bloquinho?...

Lula dá régua e compasso ao povo brasileiro

“A única coisa que eu não discuto é a...

relatório será apresentado até 25 de fevereiro

O relatório da Comissão Especial Processante que analisa o...

“Pessoas preferem auxílios a trabalhar”, diz único deputado do RN contra “Gás do Povo”

O deputado federal Sargento Gonçalves (PL), o único integrante...

Reitores do RN comemoram avanço de projeto que põe fim à lista tríplice

Reitores do Rio Grande do Norte celebraram a aprovação,...