Enquanto as mãos seguem firmes no trabalho artesanal, as conversas atravessam o ano entre memórias, histórias e saberes ancestrais. É assim que as Rendeiras da Vila mantêm vivas as tradições da Vila de Ponta Negra, território marcado pela pesca artesanal, pela renda de bilro e por outras práticas culturais, como o extrativismo de frutas nativas. Desse convívio cotidiano nasceu o desejo de trazer de volta às ruas o bloco A Burrinha Pintadinha e o Jaraguá, protagonizado pelas próprias artesãs e que chega ao seu terceiro desfile consecutivo no próximo domingo (15) de carnaval.
A concentração acontece às 16h, no Ponto de Cultura Tapiocaria da Vó, localizado no Largo da Paróquia de São João Batista, na Vila de Ponta Negra, em Natal (RN). A partir dali, o cortejo segue pelas ruas do bairro, reunindo diferentes grupos folclóricos e blocos carnavalescos em uma celebração coletiva que articula festa, memória e identidade cultural.
As Rendeiras da Vila dialogam com outras manifestações tradicionais e envolvem moradores da comunidade em torno de uma brincadeira que atravessa gerações. Após a concentração, o cordão d’A Burrinha e O Jaraguá ganha as ruas com a participação de coletivos culturais convidados. Elas são formadas como grupo beneficiário do programa Registro do Patrimônio Vivo (RPV), política permanente do Governo do Rio Grande do Norte executada pela Fundação José Augusto (FJA).
A condução musical fica por conta do mestre percussionista Jorge Negão, fundador e líder do grupo Folia de Rua Potiguar. Ao longo do percurso, a batucada faz pausas para reverenciar mestres e mestras da cultura popular, como Vó Maria, das Rendeiras da Vila, e Pedro Correia, dos Congos de Calçola, além de homenagens póstumas a Joka Lima, do Cafurico e da Tapiocaria da Vó, e Sebastião Matias, do Bambelô Maçariquinho da Praia. O encerramento da festa acontece no Figa Bar, nas proximidades do Ponto de Memória Tapiocaria da Vó e Rendeiras da Vila.
No coração da brincadeira está Dona Zefinha, Josefa Henrique de Lima, de 79 anos, que entoa o verso “Minha Burrinha come milho, come palha de arroz. O cumê que eu dou a ela é mingau de macaxeira”. A partir desse canto, o bloco toma forma e percorre a Vila acompanhado por senhoras idosas, filhas, netas, sobrinhas e toda uma comunidade envolvida por um sentimento coletivo de pertencimento e lembrança. Rendeira desde os sete anos, a mestra dos bilros reforça que, entre tantos dias de trabalho, também é preciso reservar um tempo para brincar.
Quem também já está pronta para a folia é a artesã e mestra de dança do grupo de Bambelô da comunidade pesqueira, Darlene de Morais, de 51 anos. Aprendiz de renda há 16 anos, com Vó Maria, ela carrega a tradição familiar e celebra o aprendizado coletivo. “Sou filha, neta e bisneta de rendeiras, mas aprendi com nossa mestra”, afirma, convidando a população da cidade a se juntar ao cortejo.
Entre os grupos participantes, dona Lucimar Ferreira, de 72 anos, representa a Lapinha do Menino Deus, da qual é líder e fundadora. Paraibana de origem, ela vive na Vila de Ponta Negra há mais de quatro décadas e atua na articulação dos jovens do projeto Protagonistas da Vila. “No meu pensamento, todas essas manifestações que agregam a juventude servem como prevenção e incentivo à formação humana”, destaca a servidora pública aposentada.
O Carnavila 2026 – A Burrinha e O Jaraguá reúne uma programação voltada para todas as idades, com concurso de fantasia infantil, incluindo premiação, chuva de confeitos para as crianças, feira de artesanato, comidas típicas, apresentações de grupos de cultura popular e show de encerramento.
Coordenado pela produtora cultural Maria Mahé, o Bloco A Burrinha e O Jaraguá conta com financiamento do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura (MinC), do Sistema Nacional de Cultura e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), além do apoio do Governo do Rio Grande do Norte, via Fundação José Augusto (FJA) e Secretaria de Estado da Cultura (Secult).
Criado para garantir apoio financeiro à preservação de saberes e modos de fazer da cultura tradicional e popular potiguar, o Registro do Patrimônio Vivo (RPV) concede bolsas a pessoas físicas e jurídicas com reconhecida atuação cultural, como é o caso das Rendeiras da Vila.
Liderado por Maria de Lourdes de Lima, que aprendeu a renda de bilros ainda na infância e foi uma das responsáveis pelo resgate da prática na comunidade, o grupo reúne mestras e novas rendeiras que se encontram diariamente na calçada da casa de Vó Maria, espaço reconhecido como Ponto de Memória Tapiocaria da Vó e Rendeiras da Vila. Atualmente, cerca de 90 associadas se revezam na chamada “zoada de bilros”. De origem portuguesa, a técnica chegou ao Rio Grande do Norte há mais de quatro séculos e segue viva nas peças de vestuário e decoração produzidas pelas rendeiras de Ponta Negra.
Integram o cordão d’A Burrinha Pintadinha e o Jaraguá os grupos e blocos Folia de Rua Potiguar, Encosta Que Ele Cresce, Bode Expiatório, Dragonas da Folia, O Rabo do Jumento, Protagonistas da Folia, Vila Jovem, Turma do Mar, Dança da Peneira (V.P.N.), Boi Careca da Casa da Vila, Boi Pintadinho da Vila de Ponta Negra, Capoeira Engenho Velho, Batuque Resistência, Bambelô Maçariquinho da Praia, Pavão Misterioso da Casa do Cordel, Bonecos Gigantes do Cores da Vila, Conguinhos de Calçola, Pastoril Jardim das Flores e AFF Marias.
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Fonte: saibamais.jor.br



