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Acorda Clubber reforça música eletrônica como expressão da cultura popular no Carnaval

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A música eletrônica ocupa cada vez mais espaço na paisagem sonora brasileira e, no Carnaval, essa presença ganha corpo, pista e discurso. Criado em 2019, o Festival Acorda Clubber consolidou-se como o principal polo de música eletrônica da folia em Natal e realiza sua edição 2026 neste sábado (14), no Largo da Rua Chile, na Ribeira, das 16h às 5h. Serão 13 horas de programação e 12 atrações que atravessam diferentes vertentes da produção eletrônica contemporânea no país.

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A proposta do evento é tensionar uma discussão que, segundo o idealizador do projeto, o DJ Pajux, ainda aparece de forma recorrente: se a música eletrônica cabe ou não no Carnaval. Para ele, a polêmica parte de uma leitura equivocada. “Existe a ideia de que a música eletrônica é europeia, sisuda, consumida só por uma playboysada em ambientes caros e fechados. Mas música eletrônica diz respeito à forma como a música é feita. E essa forma popularizou a produção musical no mundo inteiro”, afirma.

O line-up deste ano reúne nomes como Aya Ibeji (RJ), Boneka (PE), MIKA, DK b2b Dandarona, Nat/Esquema (PA), Pajux, Batora, Emma b2b Juana Ocio e Elisa Bacche, além da participação especial da bateria da Escola de Samba Balanço do Morro. A curadoria aposta no cruzamento entre gêneros como funk, technomelody, pagode baiano e bregadeira com house, techno e electro, combinando discotecagens, performances visuais e intervenções de dança.

Para Pajux, a defesa da presença da música eletrônica na festa não é apenas estética, mas histórica e social. “O Carnaval é o período de ápice das músicas dançantes que surgiram das camadas populares. Samba, frevo, pagode baiano, brega funk, tecnobrega. Tudo isso tem raiz popular. A produção eletrônica também está nessas camadas”, diz. Ele cita o funk carioca, surgido nos anos 1980, como um dos primeiros gêneros eletrônicos tipicamente brasileiros e lembra que já são quase quatro décadas de consolidação dessa linguagem no país.

Na avaliação do produtor, o Brasil vive um momento de efervescência criativa na música eletrônica, com forte protagonismo de comunidades periféricas e da população LGBTQIAPN+. “A dance music que a gente conhece hoje tem como base essas comunidades. São elas que mais inovam e que historicamente construíram esses espaços de festa como lugar de comunhão e pertencimento”, destaca.

Essa dimensão social se reflete na montagem do line-up. Pajux afirma que a produção realiza um esforço consciente de garantir paridade de gênero e representatividade de pessoas trans e negras na programação. “É importante sentar, olhar para o line-up e se perguntar quem está sendo representado ali. Quem criou, quem expandiu, quem aperfeiçoou essa música precisa estar no palco. É uma forma de fazer o recurso circular e de permitir que o público se veja”, pontua.

Além da curadoria artística, o festival mantém a arrecadação de alimentos como contrapartida solidária. Em edições anteriores, o evento chegou a reunir cerca de 3 mil pessoas no Largo da Rua Chile e arrecadar mais de uma tonelada de mantimentos destinados a iniciativas como o Banco de Alimentos do município e movimentos comunitários. “A gente celebra, faz a festa, mas também entende que pode contribuir materialmente com outras comunidades. É gratificante saber que o festejo também vira alimento na mesa de alguém”, afirma.

O crescimento do Acorda Clubber, segundo o idealizador, pode ser explicado por três fatores interligados: a ampliação do interesse do público brasileiro pela música eletrônica, a consistência na produção de eventos ao longo do ano e o trabalho continuado de uma rede de produtores culturais da cidade. “Existe uma nova geração mais aberta à experimentação sonora. Ao mesmo tempo, há uma classe de trabalhadores da cultura que produz com regularidade, criando comunidade. Sem essa consistência, nada se solidifica”, analisa.

O bloco nasceu no Beco da Lama, no Centro Histórico, como desdobramento das festas semanais que já ocupavam a região. Com o crescimento do público, migrou para outros espaços, mas manteve a escolha pelo território da Ribeira. Para Pajux, a permanência no Centro tem dimensão simbólica. “É um lugar de construção de memória e de pertencimento, especialmente para a comunidade LGBTQIAPN+. A gente ocupa, faz festa e reafirma que aquele espaço também é nosso”, diz.

A longa duração da programação, das 16h às 5h, também faz parte da experiência. “Carnaval é maratona. Nem todo mundo fica do primeiro ao último DJ, mas esse tempo maior permite ampliar a curadoria e trazer mais vertentes da música eletrônica brasileira e mundial”, explica. Ele reforça a importância de cuidados básicos durante a festa, como hidratação e alimentação adequadas.

Criado como uma forma de inserir oficialmente a música eletrônica no calendário carnavalesco da capital potiguar, o Acorda Clubber se apresenta hoje como uma síntese da chamada música eletrônica popular brasileira, articulando referências globais e produções locais. Para Pajux, trata-se de reconhecer o óbvio: “A música dançante feita no Brasil hoje é, em grande parte, eletrônica. E se o Carnaval celebra a música dançante nacional, essa também é uma expressão legítima da nossa cultura popular contemporânea”.

Serviço
Festival Acorda Clubber 2026
Dia 14 de fevereiro (sábado), das 16h às 5h
Largo da Rua Chile, Ribeira, Natal
Entrada gratuita mediante a doação de 1 kg de alimento.



Fonte: saibamais.jor.br

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