“Aqui é uma magia diferente, que não existe em outro canto”. A declaração é de Ozeni Florêncio, 52, permissionária do Mercado da Redinha e uma apaixonada pelo bairro. Assim como o box que ela administra, outros 31 estão abertos dentro do Mercado em frente à praia, uma fonte de renda para dezenas de famílias que esperam que o local continue funcionando após 22 de fevereiro, já que o Mercado foi reaberto temporariamente em dezembro para o período de dois meses.
A família Florêncio já está na quarta geração vivendo do trabalho no Mercado, que começou com a avó de Ozeni. “Aqui eu tenho sobrinho, aqui eu tenho sobrinha, aqui eu tenho irmão, aqui eu tenho primo. Então, aqui são vários boxes, todos nós trabalhando”.
O Mercado voltou a funcionar em 22 de fevereiro, das 7h às 19h, de domingo a domingo, sendo a terceira vez que reabre temporariamente — o mesmo aconteceu entre dezembro de 2024 a janeiro de 2025, e de fevereiro a março de 2025.
O Complexo Turístico da Redinha é formado por cinco blocos: o Mercado, o estacionamento, o calçadão, os quiosques e o quebra mar. A intenção da Prefeitura é que o local só volte a funcionar de forma definitiva sob operação da iniciativa privada, mas o processo de licitação enfrenta entraves. Enquanto isso, os trabalhadores vivem sob indecisão.
“O mercado aberto gera uma economia para o bairro inteiro. Tanto o pequeno trabalhador como o grande empresário do supermercado são beneficiados, porque, na verdade, o mercado é que sustenta o bairro. Sem esse mercado aqui, nós tivemos notícia que algumas empresas que nos forneciam fecharam”, afirma Ozeni, que torce para que o Mercado siga em funcionamento nos próximos meses.
O desejo é o mesmo de Cleubia Andrade, 54, que trabalha há quase oito anos no Mercado.
“Qualquer um que você perguntar, o desejo é um só: que a gente permaneça. E a gente não entende por que não, porque a gente vê que está tudo certo. Se tem algum detalhe, dá para conciliar, fechar uns dois dias, os dias que eles acharem melhor e dá certo. O importante é que a gente continue”, acredita.

Ronaldo Júnior, 33, sobrinho de Ozeni Florêncio, nasceu e cresceu dentro do mercado antigo e hoje possui seu box próprio no Complexo. Ele elogia a estrutura após as reformas e conta que o movimento está positivo nessa alta estação.
“A única coisa que a gente quer é que continue aberto, porque não tem motivos nenhum para fechar”, diz.
O mercado e o bairro voltaram a ganhar destaque a partir da viralização do banho de mar à noite — uma atividade nada estranha para quem vive ali, mas que ganhou repercussão a partir de vídeos no Tik Tok e ganhou destaque até na Folha de São Paulo. Mas o banho noturno, com sua paisagem idílica, não é o único atrativo, ressalta Juninho, como é conhecido.
“Também tem o carnaval da Redinha, o São João, que a abertura do São João de Natal é na Redinha, como foi ano passado. Vai chegando aí a Copa do Mundo, a gente já tem planos de botar um telão aqui no mercado para assistir aos jogos, e a expectativa é grande. A gente investiu, todos investiram, porque a gente não tinha mais nada de material para trabalhar. E não dá para a gente passar só dois meses aqui e fechar, tem que continuar aberto”, aponta.
O investimento feito para reabrir temporariamente, aliás, é citado por vários dos comerciantes. A menor dívida para reabrir um box foi de um permissionário que gastou R$ 8 mil.
“Todos os permissionários tiveram que fazer um investimento para as suas lojas. Comprar freezer, fogão, micro-ondas, para que a gente pudesse dar um bom atendimento tanto ao nativo como ao turista. Todos nós estamos qualificados, fizemos cursos e estamos aqui prontos para atender o nativo e o turista”, diz Ozeni Florêncio.
A Prefeitura continua pagando um auxílio mensal de R$ 1200 como apoio para os comerciantes — um dinheiro que ajuda, mas que é aquém da renda que se faz durante os períodos de alta estação e de visitação frequente no Mercado, como agora.
“Não dá pra viver de auxílio. A gente está acostumado a trabalhar, porque o dinheiro do auxílio a gente faz aqui em um dia. E não é só a gente, são 33 boxes [dos 33, um está desocupado]. Nesses 33 boxes têm pessoas na cozinha, tem garçom, desses 33 já gera um emprego para mais de 150 pessoas diretamente, e indiretamente tem os supermercado aqui da Redinha, tem os pescadores que a gente compra o peixe, que movimentou de novo. Eles estavam vendendo o quilo de ginga aqui dando ao povo, porque não tinha mais venda, não tinha mais saída, e depois que o mercado abriu, o peixe voltou a ter valor. A economia da Redinha gira em torno do mercado”, reitera Ronaldo Júnior.

Também da família Florêncio, Natália, de 38 anos, trabalha em outro box e diz que o sentimento geral dos trabalhadores é de felicidade com o local de portas abertas.
“O que nós queríamos desde o início era só trabalhar. Só queríamos isso, que eles mantivessem o mercado aberto para que a gente continuasse a trabalhar como estamos agora, porque o mercado aberto gera economia para o bairro todo. Só pessoas trabalhando comigo são cinco. E esse mercado fechando? Além de mim, que fico desempregada, tem mais cinco pessoas que também vão ficar na mesma situação. Então o que nos preocupa é esse após. Mas ele aberto é perfeito”, conta.
Mas como se virar nos períodos em que seu trabalho e principal fonte de renda é inviabilizado por motivos alheios à sua vontade? Em 2025, nos mais de oito meses do ano em que o Mercado da Redinha ficou fechado, alguns comerciantes passaram a trabalhar com mesas na praia. A Agência SAIBA MAIS chegou a mostrar, em março, que o número de mesas postas acima do permitido pela Prefeitura gerou uma apreensão de materiais feita pela Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb). A ação gerou incômodo entre os trabalhadores e um protesto na frente à Prefeitura para que os materiais fossem devolvidos.
Já Natália Florêncio, antes da primeira reabertura em 2024, tinha um outro emprego fixo que precisou largar para se dedicar aos cursos oferecidos pela Prefeitura como preparação para a volta do Mercado.

“Isso aí afetou muito na minha renda. Eu tinha um fixo porque sabia que o Mercado estava em reforma. Quando eles colocaram esse curso para a gente fazer, eu tive que pedir demissão. E aí foi totalmente diferente do que todo mundo esperava. Fizemos o que eles pediram, todo mundo fez os cursos e depois ficamos aguardando [em 2024]. E aí eu tive que me virar de outra forma. Como? A gente coloca mesas aqui na beira da praia, levando sol, chuva, a Semurb vindo, levando nosso material, passando muita humilhação. Difícil, é muito difícil mesmo. Então não queríamos continuar na situação que nós estávamos. Porque, sinceramente, de saúde, psicológico, tudo isso abala”, conta.
Mercado recebe turistas e mantém sucesso da ginga com tapioca
O jornalista Régis Aragão era um dos turistas que apreciavam os ventos e o pouco sol que fazia na tarde da quinta-feira (12) no Mercado, numa semana marcada por fortes chuvas na capital. Ainda assim, o tempo não afastava a visitação, e outras mesas também estavam ocupadas ao longo do espaço.

“Está bem legal. Está bem organizado, está bonito, porque o mercado foi refeito e a praia é muito boa aqui perto. E também teve toda aquela publicação na internet da Redinha, que saiu em todas as redes e a gente ficou curioso”, disse ele.
Já Eliana Paula é de Parnamirim mas mora atualmente em São Paulo. Voltou ao estado em que nasceu para férias curtas e não deixou de conhecer o Mercado novo após a reforma, já que também conhecia o antigo.
“A estrutura está bonita, muito aconchegante. Gostosa de aproveitar. Não tenho o que falar de mal, só de bem”, afirmou.

Decisão de prorrogar funcionamento cabe ao prefeito, diz secretário
Assim como trabalhadores e visitantes, o titular da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), Felipe Alves, possui uma avaliação positiva da volta do Mercado. A pasta que ele comanda é a responsável pela administração do local.
“Desde a reabertura o Mercado tem recebido milhares de visitas, movimentando a economia local, gerando emprego, renda e valorizando a região. A Semsur está oferecendo todo apoio e suporte aos permissionários”, diz Felipe Alves.
Questionado se o Mercado poderia ficar aberto após o dia 22, ele disse que a decisão cabe ao prefeito Paulinho Freire.
“Essa é uma decisão que cabe ao prefeito. Ele entende que o espaço é fundamental para o desenvolvimento social e econômico da região e vai avaliar essa questão de maneira técnica”, avisou.
Fonte: saibamais.jor.br



