Desculpas!
Começo minha coluna de hoje pedindo desculpas por ter usado uma fake news como título e mote para minha crônica da semana passada.
Porém minhas desculpas param por aqui. Toda a temática abordada há oito dias é de extrema relevância e o fato de uma fake news ter me motivado a escrever sobre seu conteúdo foi porque o impacto que ela me causou fora tão absurdo que nem me dei ao trabalho de averiguar. Mas é assim que elas funcionam: causam mal-estar, pânico, revolta, embrulho no estômago, vontade de se rebelar, raiva… acessam o emocional, o inconsciente (acho).
E depois que percebi que a informação de que o Google registrara, em 2025, 163 milhões de acessos para saber como se matava uma mulher sem deixar rastros, me veio um incômodo ainda maior: com que intuito alguém cria um card, um story, um reels contendo esse tipo de “conteúdo” e joga nas redes sociais onde a velocidade de propagação e o tamanho do alcance são enormes?
A máquina de ódio contra as mulheres deu mais uma cartada e espalhou medo, pânico… alimentou os seguidores red pills e afins de mais misoginia… aplaudiu o efeito de promover mais insegurança às mulheres… e provavelmente subiu uma montanha para comemorar.
A violência contra as mulheres se multiplica de n formas. Cada dia com uma nova “sofisticação” – uso essa palavra para dar o tom do sadismo que habita a machosfera de ontem e de hoje (espero que a do amanhã seja menos cruel, menos proprietária, menos escravagista, menos abusiva, menos intolerante, menos violenta, menos mandona, menos vigilante, menos proibitiva, menos controladora, menos sádica… enfim, menos…)
Nesses últimos dias que antecedem o carnaval, muitas brasileiras e muitos brasileiros tomaram conhecimento sobre uma dessas violências, a chamada violência vicária, que, segundo o Google, “ocorre quando o agressor ataca, manipula ou fere entes queridos (geralmente os filhos) para destruir emocionalmente a mulher, configurando uma das formas mais cruéis de agressão de gênero.”
Apesar de não está expressamente tipificada como um artigo específico chamado “violência vicária” no Código Penal brasileiro, “essa conduta é considerada um crime e uma forma de violência doméstica grave, enquadrada na legislação vigente através da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e de artigos do Código Penal.”
Ela aparece no artigo 7º da Lei Maria da Penha como “violência psicológica ou física contra a mulher, pois utiliza filhos ou pessoas próximas como “instrumento” para causar sofrimento e controle sobre a mulher.”
Ainda segundo o Google: “Em dezembro de 2024, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara aprovou o Projeto de Lei 3.880/2024, que busca incluir expressamente a violência vicária na Lei Maria da Penha.” (Mais que leis, precisamos de ações práticas e punições reais e mais severas, já!)
E porque ficamos sabendo de mais essa forma de violência? Porque um homem que não aceitou perder sua propriedade, seu objeto de posse, seu bem material, no caso a ex-companheira, ou não foi capaz de compreender que ela poderia ser feliz ou ter uma vida plena e afetiva com outra pessoa, resolve puni-la matando seus próprios filhos. Sim, seus filhos foram usados como objetos de vingança. Porque os filhos também eram de sua propriedade. Tão coisificados como a mãe. E era ele quem mandava (ele tirou a própria vida, também) nas coisas que eram dele, né!
E, mais uma vez, a máquina de ódio contra as mulheres dá mais uma cartada culpabilizando essa mulher pelos filhos mortos, porque ela não pensou duas vezes antes de romper sua relação, porque ela traiu o marido, “Bem-feito, é pra ela sentir a dor que ele sentiu ao ser trocado por outro!”, “Ela merecia essa dor.”, “Ele era um bom marido.” … (Será?)
E o alimento misógino é lançado novamente aos seguidores red pills e afins que aplaudem o efeito de promover culpa e castigo e vingança e dor e mais violência a mais uma mulher. Será que subiram uma montanha para comemorar? Provavelmente! Em honra e glória ao cara que vingou seus culhões matando os filhos! Em louvor a todo sofrimento deixado na psique dessa mulher-mãe.
Então, quando me deparei com uma fake news sobre acessos de homens querendo saber como matar mulheres, não passou pela minha cabeça que poderia ser uma informação falsa, porque matar uma mulher é muito pouco, melhor é deixá-la amputada, desfigurada, sem couro cabeludo, cega, tetraplégica, surda, sem dentes, queimada… é mais prazeroso deixá-la sofrendo, sem paz, sem amor próprio, sem filhos, atormentada, com medo (por sua vida e pela vida dos seus entes) … sob controle.
Porque é disso que estamos falando: da necessidade de homens controlarem mulheres… caso contrário, quem “perde o controle” são eles e quem perde a vida, das mais variadas formas, são elas.
Fonte: saibamais.jor.br



