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AtualizaçõesAlegria sem tolice

Alegria sem tolice

“Alegria é como a luz no coração.” A afirmação é do poeta Vinícius de Moraes, na canção Samba da Bênção, em coautoria com Baden Powell, gravada em compacto em 1967. Pessoalmente, considero a alegria uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa. Há nela uma sonoridade em movimento, um balanço próprio. Em diversas tradições espirituais, a alegria é compreendida como atributo do espírito, capaz de irradiar a comunhão com o divino. Atua também como força que move o sujeito em períodos de dificuldades. Existe enorme potência criativa no estado de ser alegre.

Hoje é carnaval no Brasil. Recife está em festa com o Galo da Madrugada, que, neste ano, homenageia Dom Hélder Câmara, referência vanguardista na defesa dos direitos humanos no país. O desfile conta com seis carros alegóricos e trinta trios elétricos, com expectativa de atrair cerca de 2,5 milhões de pessoas ao longo de um percurso de aproximadamente sete quilômetros.

O músico homenageado é Marcelo Melo, um dos fundadores do Quinteto Violado, grupo criado em 1971, no agreste pernambucano, pioneiro na fusão entre referências populares e eruditas e na gravação de folguedos da cultura pernambucana, com cirandas e caboclinhos.

Na Ponte Duarte Coelho, os recifenses aguardaram, com ansiedade, a subida do Galo, criação do artista plástico Leopoldo Nóbrega. A estrutura, com cerca de 30 metros de altura, combina materiais recicláveis e iluminação, produzindo um efeito visual de pulsação, uma alusão ao coração do arcebispo.

A homenagem me enternece e desperta memórias de infância. Quando menina, residente no bairro da Boa Vista, eu passava em frente à casa paroquial e via Dom Hélder sentado. Por orientação familiar, saudava-o com reverência. Ele sempre me abençoava. Somente na vida adulta pude compreender a grandeza daquele homem de olhar sereno, hábitos simples e coragem extraordinária para servir à humanidade.

O atual capelão da Igreja das Fronteiras é o padre Fábio Santos, amigo querido de décadas, que, em 2023, guiou-me ao Memorial Dom Hélder Câmara. Ali pude testemunhar a simplicidade da casa, a disposição dos móveis e a profunda coerência entre sua vida e seus valores. Ele encarnava a desejável integração das dimensões de pensar- sentir – agir.  Dom Hélder encarnava a orientação de ‘Abdu’l-Bahá, filho do fundador da fé Bahá’í, segundo a qual devemos nos vestir de modo a sermos “exemplo para os ricos e conforto para os pobres”.

Nada nele era excessivo. Havia uma justa medida, aliada a uma inteligência prodigiosa e a uma sensibilidade rara com as palavras. Indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz, foi também um grande poeta. Estima-se que tenha escrito mais de sete mil poemas. Era também um voraz anotador de pensamentos. Nada escapava a ele. O acervo completo perfaz mais de duzentos e dez mil páginas. 

Natural do Ceará, foi o décimo primeiro filho de uma família de treze irmãos, fruto do casamento de um jornalista e bibliotecário com uma professora. Na infância, gostava de brincar de padre, lembrando-nos da importância de levarmos a sério as brincadeiras das crianças. Precisou, inclusive, de autorização especial do Vaticano para ser ordenado antes da idade mínima prevista.

Seu compromisso com a justiça social aproximou-o de artistas e intelectuais que resistiram à ditadura no Brasil, entre eles Chico Buarque. Ao lado de Milton Nascimento, participou do álbum Missa dos Quilombos (1981). Um dos momentos mais marcantes dessa obra é a leitura do poema de sua autoria “Mariama”, no qual se afirma o respeito à diversidade e a fraternidade entre os povos, ao mesmo tempo em que se denuncia a violência e se condena a maldita indústria de armas Em suas próprias palavras, Dom Hélder clama:  O mundo precisa fabricar é Paz e prossegue afirmando um mundo sem senhor e sem escravos.

Neste carnaval, além do cultivo da memória de Dom Hélder, o reconhecimento internacional do filme O Agente Secreto inspira múltiplas expressões criativas, com elementos simbólicos como o fusca amarelo, o orelhão, a perna cabeluda e Dona Sebastiana.

Com a leveza própria dos espíritos alegres, Dom Hélder sintetizou a incompreensão da qual muitas vezes padecia ao afirmar: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.”

É, portanto, um momento oportuno para meditarmos sobre seu legado e nos deixarmos contagiar pelo bom humor, pela inventividade e pela criatividade de foliões e foliãs. No colorido frevo das ruas e na memória viva de Dom Hélder, passado e presente se entrelaçam lembrando-nos de que a alegria, sem tolice, é uma forma oportuna de sabedoria e bem – viver.

SAIBA MAIS
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Fonte: saibamais.jor.br

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