Não me leve a mal se eu insisto nesse tema, em pleno carnaval, quando a folia ganha as ruas do país e até da neve dos jogos olímpicos de inverno, na Itália, chegam notícias da primeira medalha de ouro brasileira no ski…
A vida de quem faz do jornalismo seu ofício, é um eterno aprender. A começar pela noção do que é notícia de verdade – coisa rara em tempos de fakenews, nome chic para mentira – ou a compreensão do verdadeiro papel do jornalista.
Essas lições surgem do inesperado, como as boas notícias, e só a alguns a que tal graça consente, é dado aprendê-las.
Para além das tantas versões acadêmicas, uma das primeiras lições ensinadas pelo mestre Albimar Furtado em suas aulas de jornalismo da UFRN, foi a pragmática explicação atribuída a Charles Dana.
O repórter e depois proprietário do The Sun ensinava aos iniciantes na profissão que desembarcavam na redação do jornal que, “quando um cachorro morde uma pessoa, isto não é notícia, mas quando uma pessoa morde um cachorro, isto é notícia”.
Com o passar dos anos, essa versão ganhou outros “dependes” como, por exemplo, as qualificações para o homem (rico, famoso e importante, “preto, pobre, um estudante, uma mulher sozinha”), para a raça do cachorro (pitbull, de raça, bravo ou inofensivo e sem raça), mas em essência ela continua atualíssima.
Com Rogério Bastos Cadengue, outro mestre das artes e artimanhas do jornalismo da UFRN, aprendi que o bom jornalista separa o joio do trigo na escolha do que do que é ou não notícia, valendo-se da busca incansável e incessante pelo contrário dos fatos.
Se pela Constituição, todos eram iguais perante a lei, porque tantos estavam acima dela e outros mais oprimidos sofrem os rigores impostos por ela, que nunca são exigidos dos poucos privilegiados?…
Identificar, registrar e publicar fatos que se guiem por essa lógica ainda é tarefa de quem pratica o bom jornalismo, embora vivamos tempos difíceis para o ofício de informar, em que uma tal Inteligência Artificial nivela tudo e faz dos poucos jornalistas de verdade, um mero curador de algoritmo, como ensina o professor Luiz Arthur Ferraretto.
Em tempos de IA, porém, quando analfabetos funcionais se tornam escritores consagrados e falsos jornalistas inundam as redes sociais de mentiras disfarçadas de notícia, a regra do jogo não é mais aquela respeitada por Cláudio Abramo. É outra.
É das fakenews mecanicamente (pro e) reproduzidas por homens, mulheres e máquinas, trabalhando numa velocidade impensável em escala 24 x 7, para nos fazer crer que o mundo é “bão, Sebastião” ou é ruim, seu Joaquim, segundo a versão compartilhadas por esses novos donos da pós-verdade.
Esse novo complexo fabril de falsas notícias nos enche com tanta desinformação que nossos arquivos mentais são incapazes de retê-las, processá-las, analisa-las e descarta-las.
O resultado é que vivemos repetindo histórias incompletas, pedaços de relatos, por pura falta de espaço em nosso HD mental para guardar tantos dados desnecessários e nos esquecermos do que realmente importa.
Acumulamos toneladas de lixo informacional e ocupamos todo o espaço disponível em nosso cérebro com ele, a ponto de não lembramos mais, com a mesma facilidade e agilidade de antes, o que vimos, ouvimos, comemos, lemos, conversamos em nossos telefones celulares.
Essa é a estratégia deles para nos tornar zumbis, como naqueles filmes de ficção. O problema é que a vida não é filme, mas o que antes era história de filme, tornou-se realidade virtual tão bem feita que pensamos ser real.
Não somos mais capazes de distinguir o real da ficção, o ouro da pirita que as redes sociais nos oferecem “gratuitamente”?…
É aqui que chega atualíssima a lição de Friedrich Novallis, que vivem há dois séculos na Alemanha: “quando vires a sombra de um gigante, olha a posição do sol pra ver se não se trata da sombra de um anão”.
Em outras palavras, desconfie. Sempre. De quem tem mais ou menos de 30 anos, mesmo que você tenha medo de que não haverá nada em que confiar. Esse é grande desafio dos nossos tempos.
Por isso anda tão difícil acreditar nos heróis que nos são apresentados nas telas e nas redes e não passam de abusadores imundos, defensores dos frascos, comprimidos, injeções e esquemas criminosos que nos causam mal e os fazem cada vez mais poderosos.
Cadê matador do dragão da inflação, o leão do imposto de renda ou o japonês da Federal? Onde estão os anões do orçamento, a modelo sem calcinha ao lado do presidente ou o procurador do power point?…
Onde está Jorgina que fraudou a previdência nos anos 1990 e a gang do careca do INSS?… Cadê o paladino da Justiça que, de tanto tirar a venda de Têmis para condenar os adversários e legislar em causa própria, virou ministro e senador?…
Por onde andam os militares que desonraram a farda torturando, matando e roubando em nome de uma revolução ingloriosa que continuam por aí, mamando até hoje das tetas do poder sem que ninguém saiba até a imprensa denunciar?…
E os tantos envolvidos nos tantos escândalos que abalaram nossa República Brasilis nos últimos anos, para não ir tão longe?… Livres, leves, soltos, gastando o vil metal que subtraíram criminosamente dos cofres públicos?…
É aqui que entra a lição de outro mestre do jornalismo, o amigo Serjão Gomes, da Oboré, de que “jornalista não sabe, mas se lembra”. Como exercer nossa profissão num tempo em que o esquecimento é a ordem do dia?… resistindo.
Porque nos tempos atuais, lembrar é resistir.
(P.S.: Feliz carnaval pra você.)
Fonte: saibamais.jor.br



