spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
AtualizaçõesVivência percussiva celebra o protagonismo das mulheres nos terreiros

Vivência percussiva celebra o protagonismo das mulheres nos terreiros

No dia 8 de março acontece a quarta edição da Vivência Percussiva Tambor Útero, ação formativa voltada ao fortalecimento do protagonismo feminino na percussão e à valorização de saberes afro-indígenas. O projeto reúne mulheres interessadas em aprender ritmos tradicionais e aprofundar a relação entre corpo, território, espiritualidade e memória.

A programação será realizada no bairro Jardim Progresso, na Zona Norte da capital, em dois espaços de referência religiosa e cultural. Pela manhã, das 9h às 12h, as atividades acontecem no terreiro e ponto de cultura Ilê Axé Obéòtògúndá Iré, com presença de intérprete de Libras. À tarde, das 14h às 17h, a vivência continua no Ilê Axé Obá Aganju. Entre os encontros, será servido o ajeum, a tradicional feijoada de Ogum, criando um momento de convivência e fortalecimento dos vínculos entre as participantes.

A escolha de realizar a formação dentro de terreiros de Jurema e Candomblé é parte central da proposta pedagógica e política do projeto. Segundo a produção, esses espaços são reconhecidos como territórios de preservação de conhecimentos ancestrais e fundamentais para a formação da cultura brasileira. “Os terreiros são territórios de produção de conhecimento, de elaboração simbólica e de continuidade civilizatória afro-indígena. Neles, o tambor não ocupa o lugar restrito de instrumento musical: ele é fundamento, linguagem e tecnologia ancestral de comunicação entre corpos, comunidade e espiritualidade”, afirma.

Os organizadores destacam que inserir a vivência nesses territórios reconecta a prática percussiva às suas matrizes históricas e rompe com a ideia de um aprendizado descontextualizado. “Ao deslocar a vivência para dentro dos terreiros, a formação deixa de operar em uma lógica neutra e passa a dialogar com um território vivo, carregado de memória, resistência e pedagogias próprias”, explica. Nesses espaços, o conhecimento é transmitido por meio da oralidade, da escuta e da experiência corporal, ampliando a compreensão do tambor para além da técnica musical.

A formação é conduzida pela percussionista e idealizadora Rafaela Brito, em parceria com musicistas convidadas, e articula espiritualidade, preparação física e prática musical como partes de um mesmo processo. As atividades incluem momentos de centramento com respiração consciente, contato com ervas e defumação, preparação corporal, experimentação de instrumentos e aprendizado de ritmos ligados aos terreiros e à cultura popular, além de rodas de conversa e contextualização histórica.

Essa metodologia parte do entendimento de que o gesto técnico carrega dimensões culturais e simbólicas. “Cada toque e cada célula rítmica são apresentados dentro de sua matriz cultural, explicando de onde vêm e em que contexto são executados. Isso evita separar ‘aprender a tocar’ de ‘compreender o que se toca’”, afirma. A preparação corporal também é tratada como fundamento técnico e político. “O corpo é entendido como primeiro instrumento. Antes de tocar, é preciso compreender postura, respiração e relação com o chão, porque tocar tambor é também ocupar espaço e sustentar presença”.

Um dos eixos centrais da vivência é o enfrentamento da exclusão histórica das mulheres dos espaços de percussão, especialmente em contextos religiosos e culturais onde o tambor foi tradicionalmente associado ao masculino. De acordo com a organização, as transformações nas participantes são perceptíveis ao longo do processo. “Muitas chegam com receio, insegurança ou com a sensação de que estão adentrando um espaço que não lhes pertence. À medida que a vivência acontece, esse sentimento é deslocado por uma experiência concreta de pertencimento”, relata.

Outro aspecto destacado é a dimensão coletiva da prática percussiva. “O tambor convoca escuta, sincronia e responsabilidade compartilhada. Mulheres que chegam sem se conhecer saem conectadas por uma experiência comum de conquista e afirmação”, afirma a organização. Muitas participantes também relatam uma reconexão com suas próprias origens e com uma memória ancestral vinculada às tradições afro-diaspóricas.

A prioridade de vagas para mulheres surdas e ensurdecidas, mulheres trans, mulheres racializadas e mulheres de terreiro é uma diretriz central do projeto. Segundo a produção, a proposta busca enfrentar desigualdades históricas e ampliar o acesso aos espaços culturais.

A presença de mulheres surdas, por exemplo, amplia a própria compreensão do ritmo. “O ritmo deixa de ser percebido apenas pela escuta convencional e passa a ser experimentado pela vibração, pela visualidade e pela percepção corporal”, explica a organização. Já a participação de mulheres trans e de terreiro reforça o vínculo entre identidade, território e prática cultural. “Quando mulheres historicamente silenciadas ocupam o centro da roda e sustentam o ritmo, o tambor deixa de ser símbolo de interdição e se converte em ferramenta de afirmação coletiva”.

Participam como convidadas as percussionistas Karol Alves, Karina Oliveira, Ranah Duarte e Mônica Santos, além de Camila Pedrassoli e Ju Furtado, integrantes da banda Camomila Chá. A edição conta com apoio da produtora Deburu e do Espaço Cores que Tocam, onde ocorreu uma das vivências anteriores.

O Tambor Útero se propõe para além da formação musical e se consolidar como espaço de reparação simbólica e valorização cultural. “Promover uma ação formativa nesses territórios é também um gesto de reconhecimento e valorização. O tambor retorna ao seu chão ancestral e é reivindicado por aquelas que foram historicamente afastadas dele.”

As vagas são limitadas, e a organização recomenda o uso de roupas leves e claras, em respeito aos espaços sagrados. Mais informações e inscrições estão disponíveis por meio do formulário do projeto.

SAIBA+
Cortejo para Yemanjá reafirma ancestralidade negra em Natal



Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Justiça determina reabertura de fase de instrução de processo para ouvir Brisa

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte...

Prefeitura de Santa Cruz afasta professor acusado de aliciamento sexual de alunas

A Prefeitura de Santa Cruz, através da Secretaria Municipal...

chapa de oposição no RN foi discutida na “Papudinha”

As anotações feitas pelo senador e pré-candidato a presidente...

Potiguar Abraão Lincoln é alvo de pedido de prisão na CPMI do INSS

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS...

Brisa Bracchi denuncia Matheus Faustino por violência política de gênero

A vereadora Brisa Bracchi (PT) apresentou, nesta quinta-feira (26),...

Parnamirim lidera vacinação no RN e consolida sucesso do Verão Protegido com mais de 3 mil doses aplicadas

A política de vacinação da gestão da prefeita Nilda...

Álvaro Dias prepara filiação ao PL após negar rótulo de bolsonarista

O ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias, prepara sua saída...

10 anos depois, o sucesso de marketing “Celular na Mão e Desejo no Coração” vai voltar em 2026″

O ex-deputado Kelps deu entrevista na 94FM de Natal...

Morte da gata Lucy inspira projeto de lei para proteger animais comunitários no RN

A morte da gata Lucy, capturada em janeiro de...