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Tinder ou supermercado?

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O eterno dilema do cronista bateu forte nesta semana. Um lado meu, o mais sério e militante, considera que eu deveria escrever sobre os novos acontecimentos da Guerra no Irã e as mais recentes mentiras de Trump. Ou ainda sobre Flávio Bolsonaro palestrando nos EUA que vai vender o Brasil para os ianques em caso de vitória nas eleições para presidente.

Mas outro lado meu, o mais leve, devoto de Rubem Braga, insiste que eu também escreva sobre amenidades, coisas do dia a dia ou do comportamento humano.

Pois entre mentiras de guerra, bombardeios e Bolsonaros, uma amiga querida enviou uma postagem de Instagram registrando que parecia com as minhas coisas: um texto curto de César Vasconcelos, que se denomina empresário e investidor, com o título “O amor no corredor do mercado”. Começa assim: “Já pensou em ir comprar batatas e achar seu grande amor? Não é ficção. É o que um exame recente aponta. O supermercado pode ser o melhor lugar para conhecer alguém. Natural. Longe dos programas de relacionamento. Os dados revelam a nova tendência: metade dos solteiros valoriza conexões presenciais. Buscam o que é espontâneo. O que é legítimo. No mercado, as pessoas estão desarmadas. À vontade. Isso facilita o papo. Facilita os contatos sem a pressão dos algoritmos. Escolhas simples viram assunto. Geram sintonia imediata. A juventude está com fadiga das telas. Eles voltaram a apreciar o encontro real. Uma ida rápida ao mercado pode gerar muito mais do que a lista de compras”.

Ok, o desenrolar do texto flerta com a linguagem de coach e oferece conclusões categóricas e simplistas, mas admitimos que o ponto de partida é bom, e propõe uma reflexão interessante: o conflito entre o virtual e o real. Claro que o virtual pode se tornar real, como é a intenção do Tinder, aplicativo de encontros, digamos, amorosos, mais popular do mundo. Mas existem aquelas interações que já começam no mundo real, acelerando dinâmicas e sem passar pelos filtros (literais e metafóricos) de aplicativos, redes sociais e mundo digital.

Nunca adentrei o Tinder, mas há coisa de década e meia, em meio a solteirice, amigas insistiram para eu me cadastrar no Badoo, o aplicativo de encontros mais popular de então. Flertei, conversei, dei e sofri ghosting, no frigir dos ovos acabei marcando quatro encontros reais. Uma virou minha amiga sem que nunca tivesse rolado nada. Com duas o papo não deu liga e tudo não passou de uma saída com carona para casa e dois beijinhos no rosto. Com a quarta a noite até acabou caliente entre lençóis, mas nos dias seguintes um desânimo tomou conta de ambos, como se uma sombra avisasse para não darmos continuidade. Deletei minha conta do Badoo e investi em territórios que dominava: sambas no Beco da Lama, rock na Ribeira, festas em Ponta Negra, e assim minha vida amorosa seguiu.

Mas a questão do supermercado é real. Um encontro no Nordestão do Alecrim gerou um namoro/casamento de 3 anos, quando esbarrei, eu procurando café, ela, granola, com uma mulher que havia conhecido num show de pop rock num aniversário. Com os carrinhos parados em pleno corredor, trocamos telefone e decidimos encontrar, como cantava Renato Russo, num barzinho dias depois.

Mas rolaram outras histórias. No pós-pandemia, no Supercop da Ayrton Senna, eu comprava batatas quando uma mulher perguntou como saber se os maracujás estavam bons para suco. Expliquei sobre preferir os com casca enrugada e murcha e entre os papos sobre melancias e limões também trocamos telefone e acabamos aquela noite na orla de Ponta Negra.

Aliás, desenvolvi a tese que o melhor lugar do supermercado é a seção de frutas e verduras. É onde os cheiros se misturam, dá para apalpar ítens de formatos diversos e trocar ideias sobre cor, textura e particularidades. Qual a diferença entre pimentão vermelho e amarelo, por exemplo? Ou se maçã mais doce é a com a casca mais vermelha ou mais amarela? Além do que frutas e verduras tem um erotismo muito particular delas (estou falando de “9 semanas e meia de amor” e não de Mário Gomes, viu, crianças?)

Recentemente um amigo relatou que as idas com a esposa, dia sim, dia não, no supermercado Queiroz que abriu recentemente em Cidade Satélite, se tornaram um “programa de casal”, com direito a degustar cafés e queijos nos corredores e escolher cervejas diferentes. Inclusive, casal que não vai junto ao supermercado não sabe o que está perdendo.

Brincadeiras à parte, é interessante refletir sobre como conexões reais ainda são o ponto de partida de muita coisa mesmo em tempos tão virtuais. Claro que existem casos interessantes, como a amiga que conheceu pela internet um dinamarquês e hoje vive feliz na Escandinávia. Ou o casal de amigos que se conheceu pelo Tinder, deu match em minutos, marcou numa suíte de motel e o que era para ser uma transa de uma noite se tornou um casamento de anos. Mas são exceções que acabam confirmando a regra.

E a regra é clara: nada substitui o olho no olho, o primeiro contato verbal, um bom dia bem dado. E se estiver se sentindo solitário, já sabe: vá ao supermercado mais próximo e se detenha para escolher com calma laranjas, kiwis e tomates. Comente com a pessoa perto de você que a couve está murcha ou que o abacaxi está com uma tonalidade dourada perfeita. Sabe-se lá o que pode acontecer.

Fonte: saibamais.jor.br

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