Em defesa da memória, verdade e justiça, movimentos populares, sindicatos e organizações políticas realizam um ato neste 1º de abril em Natal para lembrar os 62 anos do golpe militar de 1964 e reafirmar a necessidade de justiça contra os crimes da ditadura militar e as ameaças à democracia no Brasil.
A manifestação acontece às 16h, no Palácio dos Esportes Djalma Maranhão.
O regime foi marcado por censura, perseguição política, prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos, tendo durado mais de 21 anos. Estudantes, artistas, jornalistas e lideranças populares foram perseguidos. No Rio Grande do Norte, entre mortos e desaparecidos políticos, estão nomes como:
Hiran de Lima Pereira, Zoé Lucas de Brito Filho, Djalma Maranhão, Emmanuel Bezerra dos Santos, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Lígia Maria Salgado Nóbrega, José Silton Pinheiro, Anatália de Souza Melo Alves, Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa, Edson Neves Quaresma, Luiz Gonzaga dos Santos, Sebastião Gomes dos Santos, Virgílio Gomes da Silva e Glênio Sá — além de um número significativo de pessoas perseguidas.
Presidenta do Comitê Estadual por Memória, Verdade e Justiça do Rio Grande do Norte (CEV), Jana Sá afirma que o ato no Palácio dos Esportes é um chamado coletivo contra o esquecimento e contra a naturalização da violência política.
“Num momento em que o autoritarismo volta a se reorganizar no país, lembrar é um ato de resistência. E ocupar as ruas, os espaços de cultura e de debate é reafirmar que a democracia só se sustenta com memória, verdade e justiça. Sem isso, o ‘nunca mais’ vira apenas uma frase vazia”, destaca.
Como parte da programação deste 1º de abril, também será exibido o filme “Não Foi Acidente: Mataram Meu Pai”, às 19h na Casa Vermelha (Rua Princesa Isabel, 749, Cidade Alta).
Segundo Jana, a obra é parte do “mesmo compromisso de dar rosto, voz e verdade àquilo que tentaram esconder”.
A jornalista é filha de Glênio Sá, líder comunista e único potiguar a lutar na Guerrilha do Araguaia. Glênio morreu em 26 de julho de 1990 num acidente automobilístico ainda hoje cercado de mistério. A família nunca aceitou a versão oficial de que aquela tragédia teria sido obra do acaso.
Pela manhã, Natal amanheceu com faixas lembrando os potiguares vítimas da ditadura, que foram arrancadas.
“O que aconteceu com as faixas arrancadas hoje pela manhã só reafirma o porquê de estarmos nas ruas neste 1º de abril. Não se trata apenas de lembrar os 62 anos do golpe civil-militar, mas de afirmar que a memória segue em disputa — e que há, ainda hoje, quem tente apagar os nomes, as histórias e os crimes cometidos pelo Estado brasileiro”, afirma Jana Sá.
Saiba Mais: Arrancam faixas, não a memória: o fascismo segue entre nós
Rômulo Sckaff, coordenador setorial de direitos humanos do PT, diz que o Brasil se reconhece historicamente como um país de regime autoritário, violento e perseguidor. Segundo ele, nunca houve no país direito à memória, verdade e justiça. Para Sckaff, as elites de todos os tempos nunca foram punidas, o que qualifica para a perpetuação da supremacia.
“Esse tempo de violência extrema do estado precisava ficar cheiroso para não ser lembrado, assim a lei de anistia, que perdoava os torturados por terem apanhado, também perdoou quem torturou, estuprou e matou, incluindo crianças. Para que não haja mais esse tipo de situação, como a que quase ocorreu em 8 de Janeiro de 2023, é que se faz urgente a memória e o ato do dia 1 de abril”, aponta.
Alex Feitosa, do Partido Comunista Revolucionário (PCR), afirma que o ato de descomemoração do golpe militar fascista de 1964 se trata de uma luta atual.
“Os crimes cometidos por generais e seus comandados de tortura, sequestro e assassinato precisam ser punidos. São crimes contra a humanidade e tinham como objetivo sufocar as lutas populares por transformações sociais a favor do povo”, comenta.
“É preciso punir os golpistas de hoje e esmagar o fascismo que ainda ameaça o povo brasileiro com uma nova ditadura. É preciso ocupar as ruas contra o fascismo e lutar por um país que de fato garanta os direitos do povo brasileiro, um país socialista”, continua.
Nando Poeta, do PSTU, diz que as conquistas das liberdades democráticas após o fim da ditadura civil-militar em 1984 trouxeram uma ideia de que a população talvez não sofresse mais ameaças de retrocesso — o risco, porém, se mantém, segundo ele, que reivindica a mobilização nas ruas.
“É por isso que a retomada dos atos, das discussões, dos seminários, dos cursos, de intensificar eventos com essa ideia de esquecer jamais é uma necessidade hoje. É para que a gente possa reagir a qualquer tentativa de um golpe militar. E a gente entende que é fundamental as mobilizações de rua, porque, na verdade, quem derrota projetos como esse é a mobilização das massas, é a classe trabalhadora”, defende.
A organização do ato também divulgou uma carta em que defende que o golpe de 1964 não pode ser esquecido. Leia na íntegra:
Memória, Verdade e Justiça
Em 1º de abril de 1964, um golpe civil-empresarial-militar derrubou o governo eleito e instaurou uma ditadura que durou mais de 21 anos. Esse regime foi marcado pela censura, perseguição política, prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos. Estudantes, artistas, jornalistas e lideranças populares foram perseguidos por lutarem por democracia e direitos sociais.
No Rio Grande do Norte, esse período também deixou marcas profundas. Entre os mortos e desaparecidos políticos ligados ao nosso estado estão:
Hiran de Lima Pereira, Zoé Lucas de Brito Filho, Djalma Maranhão, Emmanuel Bezerra dos Santos, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Lígia Maria Salgado Nóbrega, José Silton Pinheiro, Anatália de Souza Melo Alves, Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa, Edson Neves Quaresma, Luiz Gonzaga dos Santos, Sebastião Gomes dos Santos, Virgílio Gomes da Silva e Glênio Sá — além de um número significativo de pessoas perseguidas.
Cada um desses nomes representa uma vida interrompida pela violência de um Estado que escolheu governar pela repressão e pela supressão das liberdades democráticas.
1964 NÃO PODE SER ESQUECIDO
Lembrar é defender a democracia
A história do povo brasileiro é marcada por lutas contra a opressão, a violência de Estado e a negação de direitos humanos.
E essa história não ficou no passado.
O que aconteceu em 1964 ainda ecoa hoje: na violência contra o povo das periferias, nos assassinatos no campo, na perseguição a quem luta por direitos e nas ameaças à democracia.
Nos últimos anos, o Brasil voltou a enfrentar riscos reais, como os ataques golpistas de 8 de janeiro. Isso mostra que o autoritarismo não acabou — ele se reorganiza e segue presente.
Por isso, lembrar não é só olhar para trás. É estar atento ao presente. É defender o futuro.
1º de Abril – 16h
Palácio dos Esportes
Onde há memória, o autoritarismo não vence.
Ditadura Nunca Mais
Fonte: saibamais.jor.br
