Um dia, me deparei com um poema de Mario Quintana que trazia os seguintes versos: “Eu sonho com um poema/ cujas palavras sumarentas escorram/ como a polpa de um fruto maduro em tua boca, (…)”. Era a primeira vez que eu lia aquela palavra: SUMARENTAS…
Lembro-me que naquela ocasião veio-me a sensação de um caju maduro na boca (carne suculenta, porém firme, cheia de água, de sumo, se seiva doce e fresca). Esta que é uma das experiências sensoriais mais incríveis que já experimentei na vida: chupar um caju. (Sou louca por esse pseudofruto que me lembra um pequeno coração cheio de vida).
Alguns anos depois, a palavra SUMARENTA explodiu na minha frente, quando, lendo Água Viva de Clarice Lispector me deparo com este fragmento: “Quanto à suculenta flor de cáctus (Vou usar essa forma de registro durante esse texto!), é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o esplendor nascendo da esterilidade despótica.”
Naquele dia, não sei se estava mais sensível, ou se foi por que ela veio até mim através de Clarice… a palavra SUMARENTA pulou do papel, projetou-se diante de mim de forma tridimensional, aquosa, redonda, como bolhas que se movimentavam de forma sinuosa, num ritmo de marola, ondulante e movediça, escorregadia, lisa, pingando seiva…
Ela não tinha só forma, volume, movimento… Ela tinha gosto… Produziu em mim um encher de água na boca como se eu estivesse experimentando morder um caju vermelho e viçoso da Serra de Sant’Ana pela primeira vez – “polpa de um fruto maduro em tua boca” disse o poeta. Salivei!!! Desejei chupar um caju só para ter certeza de que aquilo que a palavra SUMARENTA me provocava já fora, repetidas vezes, uma experiência sensorial deliciosamente real na minha existência.
Eu estava vivenciando um episódio sinestésico como nunca havia vivido antes. E aquilo mexeu profundamente comigo. Tomei a palavra como um amuleto, tatuei-a em mim, e fiz dela uma bandeira. Sendo quem sou, uma Travesti nordestina, vivendo no interior onde valores tradicionais são tão celebrados, me vi como essa flor de cáctus descrita por Clarice: SUMARENTA, vigando-me do deserto.
A imagem da flor do cáctus clariceana remetera-me às coisas que nascem em condições extremas. Logo pensei que se autoafirmar, se autodeclarar Travesti é (re)nascer em condições muito extremas. Então quando Clarice descreve essa flor como “vingança sumarenta”, sugeriu-me que, assim como a vida responde à hostilidade do semiárido não com escassez, mas com excesso, intensidade, exuberância e vida, uma Travesti deve fazer o mesmo.
A flor de cáctus clariceana aponta para a existência humana, que mesmo atravessada por dureza, escassez, brutalidade, pode produzir beleza como forma de resistência, quase uma revanche contra o que a oprime. Eu era aquela flor, eu sou esta flor da qual Clarice escreveu. Em 2011, eu havia publicado, em meu blog, uma ode a mim chamada Flor de Mandacaru, pois eu já me entendia flor, já me percebia cáctus, já me reconhecia resistência…
E ser uma flor de mandacaru SUMARENTA é uma metáfora perfeita para a pulsão vital e até erótica, que irrompe mesmo em contextos de repressão. Essa pulsão habita em mim… “Tenho sede de viver”, escrevi isso em outra crônica… Bebo do meu próprio sumo, alimento-me de mim… Sou flor, sou corpo, sou desejo, escapando ao controle do “cistema”.
Minha “vingança sumarenta”, como diz a autora, explode em vida, sobretudo quando escrevo. Escrever é meu instante. Momento em que a linguagem ou a arte rompe o estado de esterilidade, de inércia… Eu escrevo, logo existo! Tenho um bordão que imprime essa relação entre mim e a palavra: “A palavra me faz existir”. – hei de tatuá-lo algum dia desses.
E apesar de existir uma “esterilidade despótica”, como se fosse uma força dominante, quase tirânica, que tenta impedir a minha existência, a legitimidade de uma mulher Trans e Travesti de ser e de estar, me faço flor… Faço-me o milagre do existir: mesmo sob domínio da aridez (ódio, invalidez, desumanização, violências tantas…), a vida insiste, eu insisto, e mais do que isso, floresço com esplendor como contra-ataque.
A flor do cáctus clariceana não sinaliza só sobrevivência num ambiente hostil: é excesso, beleza inesperada, afirmação radical da vida diante do que tenta negá-la. A flor de cáctus é SUMARENTA, e é como ela que tendo me expressar no mundo: nascendo e florescendo… Porque a maior vingança de uma Travesti, é envelhecer… Tenho feito isso, envelheço, como assinalaram Clarice e Quintana: “grande e cheirosa e de cor brilhante.”, “como a polpa de um fruto maduro em tua boca,”… como a SUMARENTA polpa de um caju vermelho, firme e viçoso da Serra de Sant’Ana
Fonte: saibamais.jor.br
