“A vida leva e traz. A vida faz e refaz. Será que quer achar a sua expressão mais simples?” Em um tempo marcado pelo excesso e pela expansão permanente do ter, os versos de José Miguel Wisnik soam como orientação rara. A simplicidade deixa de ser escassez e passa a constituir escolha ética e estética diante da vida.
Wisnik reúne erudição literária e delicadeza incomum. Sua presença pública oferece uma referência de masculinidade fundada na inteligência sensível, na escuta atenta e na recusa da ostentação. Em sua trajetória, percebe-se a possibilidade de aproximar sofisticação intelectual e ternura, genialidade e leveza. A amizade com as palavras, a intimidade com o piano e a gentileza no trato revelam uma forma de habitar o mundo em que profundidade convive com suavidade.
Foi por meio dele que aprofundei a leitura de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Gregório de Matos. Além de compositor, Wisnik é músico, ensaísta e professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo.
Recordo a conferência no auditório da Biblioteca Zila Mamede, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ocasião em que apresentou reflexões e canções com a elegância de quem transforma conhecimento em experiência estética partilhada. Em um momento de coragem, perguntei-lhe se ainda considerava que amar poderia ser compreendido como condição sobre-humana. A pergunta prolongou a conversa por mais meia hora de deleite intelectual e afetivo. A noite parecia expandir-se na mesma medida da generosidade de sua exposição, marcada por um sorriso franco e por olhos que revelavam amor pelo ofício.
“Se meu mundo cair eu que aprenda a levitar” e “pérolas aos poucos” acompanham minhas travessias. O encontro amável com Wisnik ampliou meu interesse por sua obra, que se tornou presença sensível no cotidiano. Em abril, ele lançou o álbum Mais simples, reunindo intérpretes que traduzem a amplitude de sua linguagem musical: Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Djavan, João Camarero, Renato Braz, Tom Veloso e Sophie Charlotte. Cada artista expande as potencialidades das composições, oferecendo à música brasileira uma realização sofisticada e sensível.
As interpretações evidenciam rigor estético e densidade emocional. Caetano Veloso revisita o dueto originalmente gravado por Wisnik com Ná Ozzetti e posteriormente amplificado por Zizi Possi. Djavan imprime sua sonoridade singular em faixa incorporada ao álbum. Renato Braz conduz “Se meu mundo cair”, imortalizando um poema que, nas palavras de Wisnik, alcança o sublime com naturalidade, como quem caminha até a esquina. Em “Cacilda”, João Camarero e Sophie Charlotte reafirmam a vitalidade da música brasileira contemporânea. “Átimo de som” revela a inventividade da parceria bonita deles com a presença na gravação também de Marina Wisnik e Guilherme Kastrup.
A obra de Wisnik já foi gravada por intérpretes como Ná Ozzetti, Gal Costa, Elza Soares, Jussara Silveira e Zizi Possi, em canções como “Mundo cruel” e “Mais simples”. Destaca-se também o encontro com Marcelo Jeneci em “Feito pra acabar”. Edson Cordeiro, no álbum Terceiro Sinal (1996), gravou “Primavera” em interpretação que marca intensamente a releitura do poema.
Para Caetano Veloso, Wisnik representa um santo da música. Já Renato Braz, na leitura sensível de Wisnik, é intérprete capaz de atingir o sublime com naturalidade, como quem caminha até a esquina.
O EP Mais simples, lançado nas plataformas digitais em 10 de abril, teve produção de Guto Ruocco (CIRCUS). A capa, concebida por Elaine Ramos, parte da obra Marujo (2021), da artista Marina Rheingantz.
A trajetória de Wisnik revela amplitude poética e rítmica. Canções como “Presente”, “Tempo sem tempo”, “Pesar do mundo”, “Primavera”, “Assum branco” e “Mortal Loucura”, poema de Gregório de Matos recuperado para espetáculo do Grupo Corpo com participação marcante de Caetano Veloso, constituem pontos altos das trilhas compostas por Zé Miguel para a companhia. A coreografia de “Pesar do mundo” traduz a experiência do desapego e a busca de outro compasso para a existência. Em “Gardênias e hortênsias”, evidencia-se afinação singular na música popular brasileira, especialmente na fusão vocal com Ná Ozzetti, cuja harmonia produz rara densidade estética.
Em tempos de aceleração, sua música recorda que a delicadeza permanece força transformadora. A vida mais simples apresenta-se como escolha consciente de desaceleração, escuta e presença. Talvez resida aí uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo: reaprender a viver, cultivando o sensível e reconhecendo a ética da delicadeza como uma contribuição para a melhora do mundo.
Fonte: saibamais.jor.br
