Quando Andrômeda entrou na minha vida, ela chegou como um presente. Um presente, mesmo! Há 14 anos eu ganhava uma bolinha de belos pelos brancos e felpudos de um homem que um dia amei e que, talvez, tenha me amado…
Gorduchinha e de perninhas curtas, parecia um floco de algodão transitando por toda a casa. Ela sempre soube que era a rainha do lar, e assumiu sua majestade com toda a elegância e domínio próprios de um bicho felino. Ela, minha bola de algodão doce.
Andrômeda não caminhava pela casa: desfilava. Olhava-nos com aquela superioridade silenciosa de quem sabia exatamente o quanto era amada. Dormia onde queria, exigia carinho no horário que decidia e transformava qualquer canto da casa em território sagrado apenas por estar ali. Havia nela qualquer coisa de divino. Um ser moldado pelas mãos distraídas de uma deusa apaixonada por nuvens.
Mas foi num feriado de Finados, há mais de dez anos, que Andrômeda me mostrou que até os seres mais majestosos carregam mistérios impossíveis de compreender.
Eu voltava de viagem quando a vi sair lentamente do guarda-roupa. Seu andar tinha uma solenidade diferente naquela tarde. E então ouvi um som miúdo, quase um suspiro de vida. Dois olhinhos azuis me encaravam curiosos da escuridão entre as roupas.
Ali estava ele…
Pequenino. Frágil. As orelhas ainda coladas, o corpinho parecendo um flan de coco coberto por uma calda de caramelo derramada às pressas pelas deusas do acaso. Um bebê improvável surgido do impossível.
E Andrômeda… ah, Andrômeda tinha nos olhos uma expressão que eu jamais esqueceria. Não era apenas altivez. Era orgulho estampado em um brilho manso de quem apresentava ao mundo aquilo que tinha de mais precioso.
Ali estava ela…
Naquela noite, Andrômeda deixou de ser somente rainha. Tornou-se mãe.
Passei horas tentando compreender aquele milagre doméstico. Como podia? Andrômeda, que não saia de casa, que não se aventurava na night, que nunca esboçou nenhum sinal de que entrara alguma vez no cio, agora dividia comigo o segredo mais delicado da existência. E ela fazia isso à sua maneira felina: sem explicações, sem cerimônias, apenas confiando.
Naquela noite, enquanto eu dormia, senti o peso leve de suas patas sobre a cama. Acendi a luz do celular, assustada, e encontrei Andrômeda trazendo o pequeno Apolo cuidadosamente na boca. Entre grunhidos baixos e esfregadas de cabeça, ela se acomodou ao meu lado e depositou o filhote junto ao meu peito, como quem dizia:
“Agora ele também é seu.”
Dormimos nós três.
Eu mal respirava de medo de machucar aquele fragmento recém-chegado ao mundo, enquanto Andrômeda permanecia vigilante, com os olhos semicerrados e a pata pousada sobre o filho. Naquela madrugada, compreendi que o amor também pode ronronar.
Apolo cresceu. E Andrômeda seguiu reinando pela casa com sua dignidade intacta, embora agora existisse nela uma doçura nova, quase secreta. Às vezes eu os observava dormindo juntos e tinha a sensação de que certos vínculos não pertencem inteiramente à Terra. Algumas criaturas parecem vir de outro lugar. Nárnia, talvez.
E agora, depois de um pouco mais que 14 anos, Andrômeda partiu.
Deixou-me há pouco, no meio da tarde, silenciosamente, como fazem os gatos que sabem atravessar portais invisíveis. Acho que ela ouviu algum chamado impossível de ignorar. Talvez o universo tivesse aberto novamente suas portas secretas. Talvez Apolo estivesse esperando do outro lado. Talvez Aslan.
Gosto de imaginá-los caminhando juntos outra vez: ela majestosa, branca como nuvem; ele ainda olhando o mundo com seus olhos que esverdearam com o passar do tempo. E um pai leão ruivão e enorme protegendo-os.
Ali estão eles…
A casa ficou estranhamente quieta. Sei que vou procurar por ela nos cantos onde costumava dormir, assim como ainda me pego procurando pelo seu único rebento Apolo. Um mês separa a partida de mãe e filho. Pensei em ter ouvido o barulho leve de suas patas aproximando-se da minha escrivaninha, enquanto escrevia essa crônica. Outras vezes, quase sinto o toque macio de seus pelos roçando minha perna.
Porque existem despedidas que não terminam.
Andrômeda partiu, mas certas rainhas nunca abandonam completamente seus reinos. Elas apenas aprendem a habitar outros lugares: a memória, a saudade e esse espaço invisível do coração onde o amor continua vivo, ronronando baixinho, para sempre.
Fonte: saibamais.jor.br
