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AtualizaçõesÁguas bentas, amizades benditas

Águas bentas, amizades benditas

Naquela calçada de cimento cru, onde a tarde se demorava mais do que o relógio permitia, três amigas ocupavam o mundo com a simplicidade de quem senta para conversar sem pressa. A cidade interiorana respirava um domingo lento, desses em que o vento varre memórias e a rua parece saber o nome de quem passa (e olha que sabe!).

Elas estavam ali como quem ancora o corpo depois de uma travessia. O fim de semana ainda escorria nelas, feito suco de fruta madura, sumarento, e eu, a narradora dessa história, que tudo vejo e sinto sem ser vista, sabia que aquele encontro era continuação da viagem, não seu fim.

As três traziam no rosto o sol de Gargalheiras, uma luminosidade intensa que não se apaga fácil. O açude, com suas águas doces e escuras, tinha ficado para trás geograficamente, mas permanecia inteiro no silêncio entre uma fala e outra. Às vezes, é assim que os lugares mais importantes ficam. Não na fotografia, mas no corpo.

– Ainda sinto o balanço da canoa quando fecho os olhos.

Disse a primeira, ajeitando o vestido no joelho.

– Parecia que a água respirava junto com a gente.

Continuou.

A segunda sorriu com o canto da boca, aquele sorriso que nasce antes da alegria completa.

– E respirava mesmo. Gargalheiras tem esse jeito de útero antigo. A gente entra meio quebrada e sai inteira de outro modo. Tem águas bentas.

A terceira, que segurava uma taça com um restinho de um espumante que havia sobrado do final de semana que passaram juntas, propôs um brinde festivo:

– Às frutas comidas com a mão, ao sol sem culpa e às conversas que só acontecem quando a gente se conecta com a alma uma da outra, dentro ou fora d’água.

A narradora se permite uma digressão, porque sabe que certos brindes não são para o que passou, mas para o que sustenta. Brindar é uma forma delicada de dizer: eu fiquei. Eu estou aqui. E, numa amizade verdadeira, ficar é uma ação de pura belezura. Ficar é permanência afetiva.

Elas lembraram das mangas abertas na beira da água, do caldo escorrendo pelos dedos, do riso meio infantil que nasce quando ninguém está julgando. Lembraram do passeio de canoa (“Todo mundo devia ter a experiência de navegar em cima daquela ruma de água”, disse uma delas em algum momento do passeio), dos mergulhos, do cenário deslumbrante de serras e serrotes abraçando aquele mundo de água, da surpresa do frio, do voo dos pássaros, da cor escura da água que, ao contrário do que muitos pensam, não escondia perigo, mas profundidade. Água escura não é ausência de luz. É excesso de mistério. Talvez como a psiquê humana.

– Teve uma hora que eu mergulhei e pensei que não ia voltar do mesmo jeito.

Confessou a primeira.

Agora com a voz um pouco mais baixa, completou:

– Ando frágil. Vocês sabem!

Sabiam. A narradora sabia também. Fragilidade, ali, não era fraqueza, era estado. Ora de estiagem. Ora de chuva demais.

– Eu também!

Disse a segunda.

– Tenho andado com o peito meio trincado. Mas naquele mergulho… parecia que alguém segurava minha mão por dentro.

Então calou-se.

A terceira respirou fundo antes de falar.

– Eu não sabia se conseguiria viajar. Estava cansada de mim. Mas vocês me chamaram do jeito certo. Sem cobrança. Só com afeto. E confesso que teria me arrependido se tivesse ficado em casa enfiada numa rede com minha deprê como companhia.

A narrador observa que há convites que salvam. Não porque prometem alegria, mas porque respeitam o não dito. E isso, talvez, seja uma das maiores formas de amor entre amigas: a escuta que não interrompe, o silêncio que não abandona, o abraço que acolhe o choro que vem lá de bem fundo.

A conversa escorreu para as dores de cada uma, sem competir, sem hierarquia. Dor, ali, não precisava provar tamanho. Bastava existir. Elas falaram de dores profundas, de pensamentos nada bons, noites mal dormidas, insônias e enxaquecas, de medos antigos, de amores mal curados e cautela com novas paixões, de expectativas que pesam mais do que malas de viagem, de mudanças de carreira… E, enquanto falavam, o corpo da cidade parecia silenciar para acolher cada palavra. A calçada era quase um colo.

– O que me acalentou e aquietou meu coração e minha mente este final de semana foram os abraços, o das serras, o das águas e, sobretudo, o de vocês depois do mergulho. Eu tremia, e tudo isso me envolveu como quem diz: passa.

Disse a segunda.

– Porque tudo passa, mais cedo ou mais tarde, passa.

Respondeu a primeira. E continuou:

– Não some, mas passa.

A narradora, nesse ponto, se afasta um pouco da cena para lembrar que amizades assim não nascem de coincidência. São construídas com paciência, com erros perdoados, com presenças mantidas mesmo quando não há assunto. Com verdades e chacoalhões necessários. São relações que entendem que ninguém é inteiro o tempo todo, e que amar alguém é aceitar suas rachaduras sem querer consertá-las à força.

– E aquele pôr do sol de brinde?

Perguntou a terceira, recuperando o riso e continuou:

– A gente brindou até ao que não deu certo.

– Principalmente ao que não deu certo.

Corrigiu a primeira.

– Até porque foi isso que trouxe a gente até aqui.

O céu daquela lembrança era laranja e manso. Gargalheiras deveria estar refletindo o dia que se despedia, como no fim de tarde do dia anterior, e as três, de copo erguido, pareciam personagens de um ritual antigo, desses que não estão nos livros, mas sobrevivem na intuição feminina de celebrar juntas.

Na calçada, o tempo avançava. Uma vizinha passou levando seu cachorro Zeus num passeio, vizinhos chegavam das lanchonetes e pizzarias depois da missa dominical… a vida seguiu seu curso. Mas entre elas havia uma suspensão. A certeza silenciosa de que aquele fim de semana tinha costurado algo novo, mesmo em tecidos antigos.

– A gente devia fazer isso mais vezes.

Ddisse a segunda.

– Viajar juntas ou ficar jogando conversa fora na calçada enquanto tomamos uma?

Perguntou a terceira.

– As duas coisas!

Respondeu a primeira, num disparo de gargalhada tripla…

A narradora também gargalhou, porque sabe que elas farão isso muitas vezes ainda. Talvez não da mesma forma, talvez não no mesmo lugar. Mas amizades que atravessam águas escuras juntas aprendem a reconhecer o caminho pelo som da voz umas das outras.

Quando recolheram as coisas da calçada, levavam a confirmação de que, apesar dos estados psicoemocionais fragilizados de cada uma, apesar das dores que ainda pedem cuidado, há relações que funcionam como margem. Que não impedem o movimento das águas, mas garantem que fluam e se represem só as boas, cheias de vida e movimento e esperança, feito as águas do açude.

E, quem passasse por ali naquele instante, talvez visse apenas três amigas limpando e organizando uma calçada no fim de uma farrinha privada. Não saberia que Gargalheiras ainda escorria nelas. Nem que, às vezes, a viagem mais memorável é essa: mergulhar sabendo que no retorno haverá quem te ofereça uma toalha seca e uma fruta fresca ou sentar na calçada e reconhecer, no outro, um lugar seguro para voltar.

Brindemos a tudo isso!

Tin-tin!

Fonte: saibamais.jor.br

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