spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
AtualizaçõesBloco dos Poetas celebra 21 anos nas ruas

Bloco dos Poetas celebra 21 anos nas ruas

O que começou como uma brincadeira entre amigos, inspirada nos bonecos gigantes de Olinda e no desejo de ver Natal voltar a ocupar as ruas com fantasia e música, atravessou duas décadas e se consolidou como tradição. Nesta quinta-feira (22), ao participar da abertura da 3ª edição do Sesc Parada na Ladeira, no Centro Histórico, o bloco Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens celebrou seus 21 anos dando a largada simbólica para o carnaval de 2026 e reafirmando o carnaval de rua como território vivo de memória, imaginação popular e pertencimento.

A concentração ocorreu em frente ao Sesc Cidade Alta. De lá, foliões, músicos, passistas, crianças e personagens do imaginário popular seguiram em cortejo por cerca de um quilômetro, percorrendo vias simbólicas da história urbana de Natal, como a Rua Junqueira Alves, a Praça Sete de Setembro, a Praça André de Albuquerque e o entorno da Igreja do Galo, com dispersão na Rua Ulisses Caldas. O trajeto foi embalado por orquestras, escola de samba e pelo encontro de bonecos gigantes, que se tornaram marca registrada do bloco desde sua criação.

Parceiro histórico do Sesc nas prévias carnavalescas, o Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens levou ao desfile seus quatro personagens centrais – o Poeta, o Careca, a Bruxa e o Lobisomem – reafirmando a proposta que orienta o bloco desde 2005: valorizar a cultura popular, a literatura, o folclore e a memória afetiva da cidade, por meio do carnaval de rua.

Fundado em Ponta Negra, o grupo nasceu da iniciativa do cartunista e produtor cultural Edmar Viana, inspirado nos blocos de bonecos gigantes de Olinda e Recife. A ideia era resgatar, em Natal, uma tradição que havia se enfraquecido ao longo dos anos. “Ele reuniu amigos e apresentou a proposta de criar um bloco com bonecos, música popular, confete, crianças, aquela atmosfera de carnaval de rua que a cidade tinha perdido”, relembra Teresa Freire, integrante da diretoria do bloco.

Inicialmente, os personagens seriam o Poeta, o Careca e o Lobisomem, referências diretas à literatura e às lendas ligadas ao Morro do Careca e às histórias contadas às crianças em Ponta Negra. A inclusão da Bruxa, no entanto, veio a partir de uma intervenção que ampliou o sentido simbólico do grupo. “Eu questionei: por que não uma bruxa? Ela representa as mulheres, os saberes populares, a rebeldia, a força feminina. Quando ela entra no desfile, ela treme, e esse tremor é simbólico”, afirma Teresa.

A Bruxa do Poetas carrega na rua o que vem de longe: os saberes populares, a rebeldia e a força das mulheres que sustentam a memória e reinventam o carnaval | Foto: Jana Sá

Ao longo de duas décadas, o bloco incorporou outros elementos da cultura popular, como bois de reis, galantes, charangas e personagens do folclore brasileiro, que neste ano ganham ainda mais centralidade na estética e no repertório do cortejo. A cada edição, os bonecos passam por processos de restauração e renovação de figurinos, mantendo viva a relação entre tradição e atualidade.

Durante o percurso desta quinta-feira, um dos momentos que sintetizaram essa dimensão simbólica ocorreu no Bar do Pedrinho, espaço histórico da Cidade Alta, conhecido por preservar em suas paredes estandartes, fotografias, caricaturas e objetos que narram diferentes épocas da vida cultural de Natal. Ali, os bonecos gigantes fizeram uma breve parada. Gigantes encontrando gigantes: os personagens do Poetas diante de um lugar que concentra memórias do antigo Cinema Royal, de blocos carnavalescos, de torcidas e de gerações que passaram pelo bairro. A cena transformou o bar em ponto de convergência entre história urbana e imaginação popular.

Gigantes encontrando gigantes: os bonecos do Poetas no Bar do Pedrinho, onde cada parede guarda uma história e cada história vira carnaval. Foto: Jana Sá

Outro instante que chamou a atenção do público foi a troca de bonequeiros ao longo do cortejo. No meio do percurso, os responsáveis por sustentar e movimentar as estruturas dos personagens se revezaram. Braços cansam, mas a alegria segue gigante nas ruas de Natal. A dinâmica revelou o esforço coletivo que mantém o bloco em movimento e evidenciou que o carnaval de rua é resultado de muitas mãos, de trabalho compartilhado e de uma cadeia de afetos que se renova a cada ano.

Para Teresa Freire, a trajetória do Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens confunde-se com a própria retomada do carnaval de rua na cidade. “Começou como uma brincadeira, um desejo de ver Natal voltar a ocupar as ruas com música, fantasia e convivência. Hoje, depois de 21 anos, é um bloco reconhecido, que ajudou a estimular o surgimento de muitos outros e a consolidar essa forma de viver o carnaval”, afirma.

A diretoria atual mantém a base do grupo que participou da fundação, somada a colaboradores que se agregaram ao longo do tempo. Mesmo após a morte de Edmar Viana, a estrutura coletiva se preservou, sustentada por laços de amizade e compromisso cultural. A trilha sonora que acompanha o bloco, composta por Diogo e Babau, também atravessa gerações. “Diogo começou ainda muito jovem, e até hoje faz questão de estar presente, de abrir o cortejo. A música dele faz parte da história do bloco e da própria vida dele”, relata Teresa.

A participação na Parada na Ladeira marca apenas o início da programação de 2026. Nos próximos dias, o grupo realiza lançamento oficial, ensaios abertos e, no período carnavalesco, o desfile principal em Ponta Negra, com atividades voltadas para crianças, oficinas, pintura facial e apresentações de grupos populares.

Ao completar 21 anos, o Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens reafirma seu lugar como expressão de continuidade e resistência cultural. Em um cenário de transformações urbanas e de modelos de festa cada vez mais concentrados em grandes palcos, o bloco mantém a rua como espaço de encontro, circulação de memórias e transmissão de histórias. Uma brincadeira que deu certo e que, duas décadas depois, segue costurando literatura, folclore, infância e participação popular no tecido vivo do carnaval de Natal.

Leia também:

Fonte: saibamais.jor.br

- Publicidade -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Matérias Relacionadas

Rogério defende aliviar custo das empresas em caso de reduzir jornada 6×1

O senador Rogério Marinho (PL-RN) defendeu a redução de...

“Que o Brasil tenha descoberto Dona Tânia já é uma coisa maravilhosa”

O ator Wagner Moura, protagonista do filme “O Agente...

Meninas já fazem mais trabalho doméstico que homens adultos, aponta pesquisa

Uma pesquisa recente sobre trabalho doméstico e de cuidado...

Empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro revela cristalização da polarização eleitoral

Análise baseada em dados do Instituto Datafolha tratados por Roberto Lopes,...

Samanda vê “desonestidade” de Rendall em acusações sobre condução de processo de Brisa

A vereadora Samanda Alves (PT), presidente da Comissão Especial...

RN ganha delegacia especializada para atender grupos vulneráveis

A proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade ganhou...

Acusado de matar prefeito no RN é condenado a 15 anos de prisão

O réu Vando Fernandes Gomes, acusado de matar o...

Vereadora Thabatta Pimenta pede desfiliação do PSOL

A vereadora Thabatta Pimenta confirmou que solicitou desfiliação do...

Ministro Guilherme Boulos vem a Natal nesta sexta-feira (13)

O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência da...