Toda vez que se aproxima o período carnavalesco fico espantado com o número de pessoas, amigos, conhecidos, famosos, anônimos, que se pronuncia, publicamente inclusive, de maneira categórica e quase definitiva sobre a festa momesca. Diria que se tornou quase uma obrigação social não apenas dizer para onde vai e o que vai fazer no período carnavalesco, mas dar um posicionamento pessoal sobre a questão e muitas vezes pareceres sociológicos, digamos.
Tem, claro, a turma da folia. Aquela que meses antes posta frases como “minha carne é de carnaval” e “contagem regressiva para a festa”. Não raramente anunciam que vão para Olinda/Recife ou Salvador, ou mesmo Rio de Janeiro, seja nos blocos de rua, seja para o lendário desfile das escolas de samba.
Mas há também a turma que odeia a festa. E faz questão de deixar isso claro. “Sou do bloco do sofá” ou “Meu carnaval será de pijama e Netflix” são frases frequentes dessa galera, que volta e meia publica notícias de sinistros em carnavais passados ou possíveis problemas da festa que virá, talvez para assustar os foliões.
Claro que estou exagerando nas tintas e brincando com estereótipos. Mas o fato é que não apenas dá para cada um de nós aproveitar o tempo do carnaval da forma que aprouver, seja na farra, seja na calma, sem a necessidade de ostentar opinião/desejo/vontade como um troféu, uma verdade ou uma certeza absoluta.
Até porque tudo pode ser dinâmico. Tenho lugar de fala, como dizem, para comentar sobre carnaval. Já passei na alucinação de Olinda, pulando atrás de banda nos Quatro Cantos; já passei quando adolescente em Pirangi fantasiado de mulher no bloco das Virgens e cheirando loló aos litros; também já passei os dias momescos fazendo trilha em Ilha Grande, levando picada de mosquitos gigantes e levando chuva. Mas também já passei em hotel bacana em João Pessoa, olhando o mar da varanda, assim como em casa de praia em Touros sem água encanada. Isso sem contar o carnaval em São Paulo, que nem é o túmulo do samba predicado por Caetano, e os carnavais em casa com com esposa grávida, pizzas Sadia na geladeira e pilhas de filmes em VHS.
Nos últimos dez anos venho passando o Carnaval em Natal, o que recomendo muito. Festa segura, tranquila, com variedade de programação (de pólo com rock ou swingueira até um bloco como Os Câo) e onde posso, após a folia, pegar um uber e em minutos estar no aconchego do lar. Enfim, os 50 e poucos anos também vem me deixando mais comedido para a farra carnavalesca.
Mas a verdade, que é a razão de ser deste texto, é que nos cinco dias de carnaval (seis, se contarmos a quarta-feira de cinzas) dá para fazer de tudo um pouco. Podemos tirar um dia para o bloquinho com os amigos e o seguinte para Netflix e tira-gostos em casa. Uma noite para se espremer na multidão do show de artista nacional e outra noite jogando conversa fora com vinhos e queijos na casa dos amigos. Uma manhã de Praia do Meio lotada e outra manhã numa praia isolada. Talvez uma noite para escrever, fazer projetos e uma outra noite para torcer pela Mangueira. Dias para botar a leitura em dia. E para aceitar o convite repentino dos amigos para um bloquinho recém-criado que sai na Vila de Ponta Negra.
Parafraseando a frase de empoderamento, seu carnaval, suas regras! Não somos obrigados a passar a festa inteira de apenas uma maneira ou fazendo uma coisa. Podemos querer cair na folia no domingão de carnaval, e, na segunda, não queremos nem ver outra pessoa e ficar apenas em casa assistindo filmes iranianos. Dá para fazer de tudo, ou pelo menos coisas diferentes, salvo, talvez, quem está em Olinda e Salvador, que é abduzido de forma implacável pela festa. Da mesma forma que o carnaval é a “festa da carne”, “melhor época do ano” ou “uma abominação”,dependendo do prisma e da bagagem social ou religiosa da pessoa, também é um momento onde se pode fazer de tudo, inclusive nada. Faz o que tu queres, pois é tudo da lei, como cantou Raul Seixas.
Como o texto é bem humorado nem vou questionar se o período de carnaval não acaba sendo uma obrigação social, onde temos uma satisfação pública a dar, seja de vínculo com a festa, seja de ojeriza a ela, tendo, geralmente, de explicar os motivos. Como há obrigações sociais (e emocionais) que envolvem datas como o natal e a virada de ano.
Mas deixa para lá. Para o carnaval do próximo ano, talvez. Não vou cair na armadilha de problematizar a questão (embora qualquer assunto merece ser questionado e debatido). Mais vale me preparar para os blocos de gente querida, como o Carecas, Poetas, Bruxas e Lobisomens, que sai sábado à tarde em Ponta Negra, e o desfile das Kengas, domingo no Centro de Natal. E, para os dias seguintes, conferir a programação dos cinemas. Vai que.
Fonte: saibamais.jor.br



