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Que falta eu sinto de um xodó (mas se for pra me perturbar, quero não)

Domingo passado eu estava no Porão das Artes, do velho amigo Nelson Rebouças, que celebrava seu último evento no espaço, posto que se mudará para outro lugar, nas proximidades na mesma bela praia de Pium. Na roda de conversa, celebração do Dia da Mulher, com gente querida como Natália Chagas, Flávia Arruda, Guadalupe Segunda e Fátima Oliveira e para fechar com chave de ouro, apresentação musical de uma banda parnamirinense formada por seis mulheres, Fulô de Algodão, que me encantou com repertório regional e o carisma de suas integrantes.

Chamou minha atenção momento em que o grupo cantava “Eu só quero um xodó”, um clássico de Dominguinhos e Anastácia, de 1974, conhecida por quase todo mundo, a vocalista que, no revezamento de vozes, ao cantar o trecho “Que falta eu sinto de um bem/ Que falta me faz um xodó”, rapidamente, antes de chegar ao verso seguinte, tomou a liberdade de falar bem rápido: “Mas se for pra me perturbar, não quero não”. Pouca gente reparou a intervenção. Mas aquilo ficou na minha cabeça.

Primeiro pela questão geracional. Já ouvi essa canção ao vivo com dezenas de vozes femininas, geralmente na faixa dos 50 ou 60 anos, não teria sido por acaso, portanto, que a sutil intervenção na letra tenha saído de um vocalista que mal passou dos 20 anos. As novas gerações não assimilam letras de canções como as antigas. Clássicos românticos dos anos 1930 hoje seriam consideradas letras de assédio e toxicidade. Uma marcha quase infantil cantada por nossos avôs no carnaval como “Olha a cabeleira do Zezé” não funciona mais como mensagem e conteúdo há muito tempo.

E em segundo ponto, por uma questão de gênero em tempos atuais. A letra, que já vai completar meio século, reflete um desejo humano desde sempre: encontrar uma outra pessoa que nos dê amor e carinho. Esse tema, ou mais exatamente, essa busca, permeia a arte (e a vida) desde Shakespeare em “Romeu e Julieta” até o cinema de Hollywood, passando pelo Quixote, de Cervantes e os casais desencontrados dos romances de José de Alencar.

Um bem e um xodó todo mundo quer. Toda mulher deseja. A questão é que atualmente as mulheres não aceitam qualquer xodó, muito menos se a fatura emocional deste xodó vier muito alta, como costuma acontecer.

Como sintetizou a intervenção rápida e cirúrgica da jovem vocalista: um namoro, um afeto seria bem vindo. Mas se for para causar perturbações, não, obrigado, ela diria. Como muitas das mulheres na faixa dos 20/30, que, segundo as pesquisas (e qualquer observação concreta da realidade) estão mais preocupadas em carreira profissional e fazer mestrado e doutorado do que conseguir um príncipe encantado. Que muitas vezes não passa de um sapo, como era comum acontecer com nossas mãe e avós.

Deixando para lá possíveis reportagens e dados estatísticos sobre o tema, vou recorrer à bagagem de minhas interações pessoais. Dia desses uma amiga querida desabafou que um homem com quem ela apenas ainda estava flertando se arvorou a criticar a suposta “exposição exagerada no Instagram” dela. Outra amiga se queixou que quase todo homem com quem ela começava a sair para se conhecerem passava a ligar de surpresa com a primeira pergunta sendo “Onde você está?” em vez de “Como você está?”. Nos dois casos as queridas deram cartão vermelho para os malas.

Por falar em vermelho, o movimento feminista tem um nome para comportamentos assim. São as “red flags” (tradução literal: bandeiras vermelhas) que homens, via de regra, apresentam no início das relações. Pequenos gestos ou falas que indicam um comportamento questionável ou mesmo perigoso, mais à frente.

Reparem que este texto sequer se propõe a falar de violência de gênero e Feminicídio, este último um horror que vem ganhando números assustadores no Brasil. Tema que pode e deve ser abordado por mulheres e também por homens, de maneira a analisar o quadro sócio-cultural que leva a isso e, principalmente, como combater e/ou evitar o pior.

Sabe-se que tanto o Feminicídio (ou seja o assassinato de mulheres por serem mulheres) como “coisas pequenas” como reclamar do decote da blusa ou criticar uma foto de biquini no Instagram passam pela chamada crise da masculidade, tema que gosto de estudar e que vale um outro texto, mais à frente.

Por ora faço votos que a bela cantora do Fulô de Algodão e todas as mulheres possam encontrar um xodó, mas que esse xodó também não perturbe a vida da pessoa. Amar é bom. Mas tranquilidade também.

Fonte: saibamais.jor.br

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